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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Sobre vida

Encerrei mais um capítulo do romance, ou o primeiro esboço dele, sem saber que horas eram. Não era noite mais, apesar de ainda ser escuro. As noites estavam cada dia mais longas, invadindo o tempo das manhãs. Regulando o sol, que, quando resolvia aparecer, parecia nunca estar completamente acordado. Não podia censurá-lo; devia ser difícil despertar de uma madrugada como aquela.

Deixei os olhos vagarem por alguns momentos para fora do papel: a mesa de madeira escura, o copo de cerveja pela metade, as prateleiras de bebida. Evitei apenas o olhar do moço de trás do balcão. Ele já havia polido todas as garrafas da estante, limpado o balcão, as mesas, e lavado todos os copos. Não me importei.

Mais um papel em branco me aguardava, impaciente. Faltava algo, algo importante, algo que eu tinha deixado de escrever. O papel o exigia, em seu branco imponente e gélido. Tomei mais um gole da cerveja, que apesar de fria, oferecia mais calor que o papel.

As pessoas eram bonitas, sempre bonitas, nas minhas histórias. Seria isso o irreal? Pessoas comuns não são bonitas; têm narizes grandes, olhos pequenos, celulite, acne, pelos. Mas penso que nós somos mais do que as partes que nos formam. As pessoas são bonitas porque outras acham que sim, porque o conjunto faz sentido; não porque fazem parte de qualquer padrão.

O cenário também não podia ser; era tão real quanto o bar em que eu estava, cujo clima emprestei a algumas cenas. Escolhera também a trilha sonora perfeita. Mas não bastava. Faltava a história que sai do papel e dança e caminha sozinha. A minha história não caminhava sozinha, visto todo meu esforço daquela noite para que engatasse uma caminhada meio manca. Não engatou e eu quis amassar tudo e jogar pela janela. Ou na cara do moço do balcão.

Cansei de evitar seu olhar e encarei-o. Para minha surpresa, não tinha a expressão carrancuda de quem não via a hora de fechar o bar. Em vez disso, ele sorriu para mim. Um sorriso compreensivo. E voltou a seus afazeres, como se ainda não tivesse terminado.

Há quanto tempo não via um sorriso? Enterrada em mim mesma, há quanto tempo não via nem sequer um rosto amigo? Por isso tinha ido ao bar, por isso não queria voltar para casa, sufocada na solidão e a escuridão do meu abajur. Histórias eram sobre vida. Palavras eram seres vivos. O silêncio as espantava e o vazio as matava. Nada poderia vir de nada.

Era o que havia de errado com minha história. Faltava vida. A minha.

"You're walking meadows in my mind,
Making waves across my time

What a strange magic"

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Imagem: Flick - Creative Commons
Música: Strange Magic - ELO

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Conto de fada

A bebida tinha um gosto amargo. Não tanto pelo alto teor alcoólico; a profundidade da minha tristeza fazia amargar até o mais doce pudim de leite. Como aquele que minha avó fazia. Doce e macio, muito melhor que aquela bebida dourada com gosto de remédio. Mas pudim não resolvia a importante questão que o uísque conseguia. Esquecer. Ao menos por alguns instantes.

Por isso, ele foi o escolhido da noite. O estômago protestava; mas ainda não muito alto, de modo que eu continuava a beber. A cabeça girava de modo agradável, tornando o pensamento turvo, com sensação de irrealidade. Irreal era bom. Nublava as últimas horas; aquelas que me roubaram anos na minha vida, tornando-os uma mentira. Com apenas mais alguns goles, eu apagava totalmente aquelas horas e conseguia fingir que não havia vivido um conto de fada.

Pedi mais uma dose ao garçom, que me olhou com desconfiança. Esbocei a minha melhor expressão de sóbria, prendendo o riso e o choro, que quase ousavam me entregar. Ele deu de ombros e me serviu mais uma. Afinal, era o trabalho dele e eu era maior de idade.

Conto de fada. Quando eu o vi pela primeira vez, há tantos anos, ele era o próprio príncipe encantado, com cavalo branco, canções de amor e passeios no bosque. Sem dúvida, os últimos anos foram exatamente como um conto de fada.

Duas gotas escorreram dos meus olhos, enquanto sorvia mais um gole. A mente estava confusa, mas a língua lembrou aos olhos que eles estavam secos demais. O nó da garganta também encontrou um pouco de alívio, que a bebida não trouxera. Enxuguei-os com as costas das mãos, chateada pela traição do meu corpo.

As lágrimas vieram primeiro. Logo após foi o riso. E, mesmo com lágrimas ainda derramando verdadeiros córregos pela minha face, comecei a rir. Era tudo tão óbvio que era ridículo.

Estive todo esse tempo vivendo um conto de fada. No sentido de que contos de fada não existem.

"I'm busy mending broken pieces
of the life I had before"

 Imagem: Fickr - Creative Commons
Música: Unintended - Muse

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Só para mim

A maneira de tocar com tanto sentimento — um sentimento real —, como se sentisse cada nota e não tivesse nenhuma vergonha delas. Como se tocasse sua própria verdade, independente do fato de que ninguém lhe oferecia a sua. Como não se importasse com as outras pessoas que estavam ouvindo, até porque ninguém ouvia. Não realmente.

Como se tocasse para ninguém.

Ou só para mim.

"Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free 
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands 
With all memory and fate driven deep beneath the waves 
Let me forget about today until tomorrow 

Hey, Mr. Tambourine man, play a song for me 
I'm not sleepy and there is no place I'm going to"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O primeiro passo

Há algo de mórbido em se interessar por uma pessoa porque ela parece triste. Mas eu admito que me aproximei dela porque algo na expressão desamparada e nas lágrimas silenciosas me despertou a irresistível vontade de salvá-la. De ser seu protetor, abraçá-la, arrancar tudo o que se passava de ruim dentro dela e levar um sorriso àquele rosto.

Ela estava num bar, tomando o que parecia ser a sétima dose se tequila. Tequila era uma bebida conhecida por ser tomada em comemorações; quando alguém passava em um concurso, quando se formava na faculdade, quando seu melhor amigo anunciava que ia se casar. Mas eu sabia que ela não devia estar comemorando nada, era meio óbvio. Mesmo assim, por algum motivo, ela virou mais uma dose dos copos enfileirados à sua frente e enfiou um pedaço de limão na boca.

Seu olhar estava perdido nas garrafas da prateleira do bar, à sua frente. Não que ela as observasse; era como se o olhar sem cor passasse através dos rótulos amarelados. Ela estava ali e não estava. Talvez não quisesse estar. Mas eu queria. Queria que ela visse o que passava ao seu redor, queria que ela olhasse e realmente enxergasse alguma coisa. Queria chamá-la de volta à vida. Vida que ela estava perdendo nesses instantes de autopiedade.

Queria que ela me visse.

Não sei como consegui dar o primeiro passo, mas depois dele foi fácil chegar até ela. Aquele primeiro passo foi talvez o mais difícil da minha vida. Mas nunca me arrependi.
Imagem: Flickr - Creative Commons
"Don't you cry tonight"

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Essa é uma postagem do Projeto 642 coisas - 210. Eu não me arrependo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A última nota

Da música nasci e da música morreria.

Foi em um quartinho dos fundos de uma escola de música que eu fui concebido. Meu pai era professor de piano e minha mãe uma das faxineiras do local. Cresci envolvido em música e fiz dela minha vida. Gostava particularmente de Bach, por suas notas mais dramáticas. Suas peças tinham algo de melancólico que me encantavam desde criança. Sempre achei que havia algo de belo na tragédia.

Com onze anos, já era o melhor da minha turma de violino. Com vinte e um, tocava em concertos e em um restaurante chique na parte alta da cidade. Se antes era um prodígio, a vida adulta me fez perceber que eu era só mais um entre tantos, todos vivendo em busca do pagamento no fim do mês. Mas ainda amava o que fazia e isso me trazia algum consolo.

Casei-me, tive filhos, me separei. Meus pais morreram de tuberculose. Comecei a tocar em um navio porque o salário era razoável e a comida era boa. Ao fim de cada viagem, seguia para casa sozinho. Cheguei a um ponto da vida em que ninguém mais esperava por mim no porto, quando atracava. Isso era bom e era ruim, porque não deixava saudades. Todos viviam suas vidas sem mim e sem mim continuariam vivendo.

E, com aquele sentimento agridoce, de não saber se me sentia feliz ou triste, observei o chão inclinar-se e a água começar a invadir os meus sapatos de verniz. Enquanto o navio afundava e eu tocava a minha última peça de Bach, eu só consegui pensar nisso:

Não deixaria saudades.


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Essa é uma postagem do Projeto 642 coisas: 228. A orquestra do Titanic continuou tocando enquanto o navio afundou.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Aventuras de verão

Um barulho na janela fez com que ela acordasse do sono leve, recém conquistado. Mas despertou assim que entendeu quem a chamava, pulando da cama e jogando longe os lençóis. Enfiou a cabeça para fora da janela, sentindo o cheiro de maresia vindo do horizonte e estreitando os olhos para enxergar na escuridão do quintal. O branco do sorriso largo recebeu-a e ela apenas pôde imaginar que os olhos divertidos brilhavam tanto quanto ele. Acompanhou o sorriso, sorrindo também.

- O que está fazendo aqui?
- Vim saber se você está a fim de ir comigo lá na praia.
- A essa hora?
- Tenho um plano. Uma aventura. Não pode esperar.
- Mas... Meus pais...
- Vamos voltar antes de amanhecer.

Ela mordeu o lábio, pensativa, considerando suas opções e toda a repercussão de sair no meio da madrugada para participar de um dos planos malucos dele. Estava tarde e os pais dela costumavam acordar cedo. Mas a proposta era muito tentadora para resistir.

- Vamos! - ele incentivou. - A gente só vive uma vez.
- Está bem - ela decidiu. - Espera.

Voltou para dentro do quarto e pescou de dentro do cesto de roupa suja o moletom que usou durante o jantar daquela noite, vestindo-o por cima do pijama. E retornou à janela, hesitando e considerando uma última vez a loucura daquilo tudo. Então, colocou uma perna na passagem estreita e deslizou para fora de seu quarto, equilibrando-se nas telhas e tomando cuidado para não escorregar. Pouco depois, já estava em frente a ele, conseguindo agora ver seu sorriso e seus olhos tão radiantes que iluminavam tudo em volta. Ela não sabia mais se ele estava feliz por sua presença ou se estava animado pela expectativa de pôr em prática o seu plano.

Mas isso não importava para ela. O que importava era o momento. Ele aproximou-se e tomou-lhe a mão, convidando-a a compartilhar de seu entusiasmo. E então, com um aperto mais forte, ele puxou-a em direção ao mar, para a noite quente, cheia de aventuras.

E, com os dedos entrelaçados, eles estavam prontos para conquistar o mundo.

Imagem: Flickr - Creative Commons
 
"And tonight we can trully say
Together we're invincible"

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https://www.facebook.com/groups/naosomosescritores/

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cedo demais*

Ele era um cara legal. Ela sabia bem disso. Era educado, inteligente, sensível e tudo o que uma garota poderia querer. Mas era cedo, muito cedo para se envolver com alguém ainda, apesar de sua melhor amiga viver dizendo que não era assim tão cedo. OK, já fazia quase um ano. Um longo ano, de sofrimento eterno, dor e frio. Mas o que era um ano, o que era uma década, ou mesmo um século, para curar a decepção de uma vida?

Ele ligara mais cedo e a chamara para sair. Ela tentara recusar, mas simplesmente não tinha mais desculpas. Não era como se não estivesse interessada; sabia que se interessaria bastante, em condições normais. Mas, naquele momento, não tinha vontade de sair com ninguém, não conseguia se animar com nada mais. Não tinha forças para perseguir nenhum sonho, nenhum ideal. Faltava ânimo para sair daquele buraco em que se tinha enterrado.

Mas, então, fizera um esforço e saíra com ele. Era o que todo mundo exigia: um esforço da parte dela, uma tentativa de melhorar. E ela foi lá e fez: jantaram, conversaram, riram e ele a deixara em casa, no final da noite. Ele era mesmo um cara legal. O esforço, porém, esvaíra o resto das suas energias e ela voltara para casa esgotada. Lágrimas silenciosas começaram a deslizar por seu rosto no exato momento em que, depois de dizer adeus, fechara a porta do carro dele. Não era a hora, ela dissera. Talvez nunca seria.

Ele poderia ser o amor da sua vida. Poderia ser o companheiro ideal, o escolhido, o certo; mas era cedo demais. Ela não sabia quanto tempo levaria. E ele não esperaria para sempre.

"I'll be there as soon as I can
But I'm busy mending broken pieces
of the life I had before"

Imagem: Flickr - Creative Commons
*Texto publicado em janeiro/16

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Por hoje, não

Por hoje, vou apenas permanecer deitada na minha cama, sem fazer nada, sem pensar, sem nem dormir. Nem sonhar. Hoje não vou ver séries, não vou trabalhar, nem ler. Não vou fazer planos ou tentar colocá-los em prática. Hoje não quero praticar nada.

Não tem dança, nem música, nem arte. Hoje não é dia de levantar e sair para a rua. Não quero ver gente. Quero apenas ficar aqui comigo mesma, fazendo parte dos meus lençóis e travesseiros. Existindo porque sim. Existindo, por que não? Só não quero ter que fazer nada. Não preciso fazer nada. Nem viver. Nem morrer.

Sobreviver. Apenas por hoje.

"And if the night runs over?
And if the day won't last?"

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Essa postagem faz parte do Projeto 121, com o tema: 70 - "Por hoje não".

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Depois

Os primeiros segundos depois de acordar são sempre os piores. É quando todas as lembranças atacam por todos os lados, de uma só vez, como se tivessem intenção de causar uma parada cardíaca no indivíduo. A sensação devia ser a mesma, porque tudo o que eu queria era arrancar meu coração fora. O ar faltava. O estômago embrulhava. As lágrimas não paravam. Nunca entendi por que precisava ser tão dolorido.

Era difícil. Era pesado. O frio, a dor, a gente pensa que nunca vai passar. A dor é quase física, mesmo que não dê para apontar onde está doendo. A gente só sabe que dói tudo. Dói muito. Vontade de voltar a dormir, sumir do mundo, até ela passar. Mas ela não passa. Pelo menos, não enquanto a gente está prestando atenção.

A primeira resolução era de nunca mais tentar. Nunca mais permitir que sua própria felicidade dependesse de outra pessoa. A única responsável pela minha felicidade devia ser eu. Eu, que tenho o poder de fazer besteira e de me fazer sofrer, mas eu também sou a pessoa que nunca vai embora. Eu nunca vou me perder de mim mesma. Eu posso confiar em mim. E eu confiei. Confiei que ia sair dali mais uma vez.

E, um dia, tudo passou. E a gente levanta, recomeça. Tenta de novo. Porque a gente pode perder tudo, do coração à cabeça. Mas uma coisa que a gente nunca perde é a esperança.

"Hei de ser feliz também, depois"


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Essa postagem faz parte da Blogagem Coletiva de setembro do Blogs Up: "A vida pós pé na bunda".

https://www.facebook.com/groups/blogsup/

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Não diga adeus

Não vá embora, amigo. Não agora que o sol acabou de nascer e o dia está apenas começando. Vamos brincar de encher bexigas de água, pular na piscina, ir à praia. Vamos torrar ao sol, fazer castelos de areia, tomar sorvete. Viver aventuras, rir das nossas desventuras. A vida é curta, amigo, mas não precisa acabar agora. Ainda há tempo para estarmos juntos outra vez.

Não vá agora, amigo. Não agora, que o sol está retornando. Olha em volta; não há mais nuvens, o vento que agita as árvores é brisa, os passarinhos brincam nas poças da água salgada. Não há sinal de tempestade. Ainda dá tempo de jogar conversa fora, tomar uma cerveja no bar, gargalhar até cair. A vida é dura, eu sei. Mas é cedo ainda. Tem tanta coisa para ver, tanto para conhecer, tanto para aprender. Há tanta vida esperando logo adiante.

Amigo, não diga adeus, não é hora. Não tome a dose derradeira. Eu sei da sua dor, mas toda dor é passageira. O adeus, ele pode ser para sempre.

"It's just a moment, this time will pass"

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Essa postagem faz parte do Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção. Ocorre no mês de setembro, desde 2014, por meio de identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela e ampla divulgação de informações.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Lista de compras


Tomate, cebola, cebolinha, coentro... Detergente, desinfetante, sabão em pó... Não era possível, tinha certeza de que estava esquecendo alguma coisa. Conferi a lista duas vezes, mas ainda não conseguia lembrar o que era. Certamente eu tinha esquecido de anotar alguma coisa. Antigamente, isso não costumava acontecer, mas estava cada dia mais frequente.

Tinha mania de listas. O problema é que, desde que abri o meu restaurante, elas estavam ficando mais longas e minuciosas; era impossível fazê-las sem esquecer alguma coisa. E isso estava me deixando um tanto nervosa. Quem era eu sem as minhas listas? Fernando, meu marido, costumava dizer que eu não era tão ruim quando estava na TPM, mas ele adquirira o hábito de sair de perto de mim quando eu perdia alguma lista. Era como perder o rumo da minha vida. Elas me faziam sentir segura, com a cabeça e todos os pensamentos no lugar. O problema era quando nem as listas eram mais confiáveis.

Passei pelo corredor de enlatados direto para a fila do caixa. Já tinha os ingredientes para fazer molho de tomate, então não precisava comprar enlatados. Pensava em fazer massa artesanal para o menu daquele fim de semana, então já pegara cinco sacos de farinha logo no primeiro corredor. Parei o carrinho na fila, atrás de uma senhora, e praticamente enfiei a cara na lista, pela milésima vez. O menu da semana que vem, no entanto...

Meu pensamento foi interrompido por uma sensação incômoda de estar sendo observada. Virei o rosto e vi um homem apoiado no próprio carrinho, na fila ao lado. Ele olhava fixamente para minha bunda. Senti o sangue subir ao meu rosto e ergui as sobrancelhas para ele, indignada. Ele nem pareceu ter se incomodado, ou mesmo percebido, que eu o flagrara me olhando. Continuou fitando a minha bunda, como se fosse um direito dele desfrutar da visão do meu corpo daquela maneira descarada. Era revoltante, ultrajante. No mesmo momento, me senti um pedaço de carne exposta no açougue. Nojento. Alguns homens eram mesmo uns...

Ah! Carne de porco. Era o que eu estava esquecendo, para o menu da semana que vem. Dei meia volta e saí com meu carrinho em direção à área de carnes do supermercado.

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Esta é uma postagem do projeto "642 coisas sobre as quais escrever" - 268: Esperando na fila do mercado.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Segunda-feira, pela manhã... [+QP]

James, seu veado idiota, desocupa logo esse banheiro!
— Não enche o saco, Sirius!
Faz uma hora que você tá aí!
— Dá licença? Eu quero tomar meu banho sossegado.
— Eu já lhe digo onde é que você vai tomar, seu…
O rapaz enfezado gritava, praguejava e esmurrava a porta sem pena, causando um barulho que ecoava pelo corredor inteiro. Várias cabeças saíam das portas dos dormitórios mais próximos, para espiar quem estava fazendo aquele escândalo, mas ele não se importava. Era conhecido na escola por fazer badernas muito maiores que aquela, juntamente com James. Podia não parecer, naquele momento, mas eles eram ótimos amigos.
Sirius continuava batendo na porta e proferindo uma série de palavrões. O chuveiro, no entanto, continuava jorrando água e uma cantoria tranquila vinha lá de dentro. Isso só fazia os gritos aumentarem, dando uma impressão quase certeira de serem ouvidos pelo castelo inteiro.
— Sabe, Padfoot, eu não sei por que você ainda se irrita com ele. — De dentro do quarto quase à frente do banheiro, um outro rapaz, já vestido, arrumava uma pilha de livros pesados na mochila. — Todo dia é a mesma coisa. Da próxima vez, por que não faz como eu e acorda mais cedo?
— Acordar mais cedo? Vou perder cinco minutos de sono por causa desse imbecil?
— Bem, eu estou indo. — Ele pendurou a mochila pesada nos ombros, curvando-se um tanto para trás no processo. — Acho bom você descer e tomar café antes, para já ir adiantando.
— Uma ova que eu desço de pijama pro salão! Esse idiota vai ter que sair daí alguma hora.
— Você vai acabar perdendo a primeira aula — o outro advertiu. — Quero ver como você vai explicar pra McGonnagal que se atrasou porque Prongs estava no banho.
Sirius virou-se para o amigo, entrando no quarto com uma expressão aborrecida.
— Sabe, Remus, eu já estou com mau humor o bastante, sem que você me encha o saco também.
O amigo revirou os olhos.
— Tá, você é quem sabe. — Ele debruçou-se para pegar um frasco pequeno de uma poção de cor cinza dentro da gaveta do criado-mudo, cambaleando com o peso da mochila. — Peter não vai para a aula hoje?
Sirius deu de ombros, olhando o amontoado inerte de lençóis em cima de uma das quatro camas do quarto.
— Sei lá.
Remus inclinou-se e puxou o cobertor, descobrindo uma cabeça com fios claros, finos e emaranhados.
— Peter, acorda. Aula de Transfiguração, esqueceu?
Sem abrir os olhos, o rapaz sonolento murmurou alguma coisa incompreensível e depois se virou na cama. Sirius riu, sentando-se na própria cama vazia.
— Ele é que é esperto. Eu também devia ter ficado dormindo. Pelo menos não tenho que esperar a veela ali terminar de se embelezar.
— Eu já lhe digo quem é a veela.
Era James. Ele saía do banheiro já com os óculos equilibrados no rosto e vestindo um roupão que exibia o símbolo de Gryffindor, trazendo atrás de si um denso vapor e o cheiro de sabonete. Sirius virou-se para ele, com expressão de profundo sarcasmo.
— Ah, quer dizer que a noivinha terminou de se enfeitar? O que foi, foi difícil demais tirar o laquê que faz seu cabelo ficar em pé?
— Pelo menos eu tomo banho — James retrucou. — Você não passa cinco minutos embaixo do chuveiro.
Como qualquer pessoa normal.
— Pior que ele acredita mesmo que é normal — James comentou com Remus, enquanto caminhava até seu baú de roupas. — Deve ter até pulgas.
— Sério, eu não vou me admirar se um dia você chegar qualquer dia com uma poção para "hidratar a cútis do rosto". — As últimas palavras foram ditas com certa afetação. — Você precisa conviver mais comigo, sabe? Essa moda metrossexual só funciona pros trouxas. Deve ser por isso que Lilly nem olha para você.
James tinha acabado de alcançar a camisa do uniforme, quando seu rosto ficou vermelho e sua expressão tornou-se irritada, pela primeira vez. A tampa do baú bateu, com um estrondo. Sirius ria, desdenhoso, sabendo que conseguira aborrecer o amigo.
— Tire a Evans dessa história.
O que só fez o amigo rir mais alto.
— Aceite a verdade, Prongs. As mulheres percebem quando os caras são meio assim, afeminados, como você. Não tenho nada contra, vou sempre ser seu cão fiel.
Remus revirou os olhos, exasperado.
— Sirius, francamente. Ele só estava fazendo a barba.
— Conversa! Eu vi um monte de potinhos de poção cremosa na mochila dele, outro dia.
— Era uma encomenda da mãe dele.
— Deixa, Moony — James interrompeu, ainda com o cenho franzido. — Ele só está nervosinho porque teve que me esperar usar o banheiro.
— Nervosinho está você, porque eu falei da Evans — Sirius rebateu.
— Mas que inferno, eu nem gosto dessa menina! — James declarou com exasperação.
A gargalhada de Sirius foi alta e irônica.
— Certo, agora conta aquela do hipogrifo.
— Ah, vá se foder!
— A escola toda já percebeu, amigo — ele comentou. — A ruiva deixa você mais mexido que vitamina de abóbora. Pena que ela te odeia.
James já preparava uma resposta ácida, mas Remus impediu-o.
— Ei, parem com isso, senão daqui a pouco vou ter que apartar sozinho a briga dos dois, já que o inútil aí não abre nem os olhos. — E apontou para a cama de Peter.
James mostrou a Sirius seu dedo do meio e voltou-se para o seu baú outra vez.
— Salvo pelo gongo, pulguento — ele murmurou, pendurando a camisa nos ombros, enquanto tirava uma gravata vermelha e dourada da gaveta.
— Como se eu tivesse medo de você, veadinho — veio a resposta.
Remus suspirou. Esses dois não paravam. Como conseguiam provocar tanto alvoroço antes mesmo do desjejum? Pronto para ir embora, ele baixou-se para recolher algumas meias espalhadas, antes de chegar à porta do quarto. Sirius viu-o equilibrar a mochila.
— Não é à toa que você vive reclamando de dor nas costas, Moony. Com esse saco de chumbo pendurado nos ombros, você parece um testrálio de carga.
— Você não estava atrasado? — ele falou, ignorando o comentário, antes apanhar uma pena preta do chão e guardar num bolso externo.
— Ainda estou.
— Então por que não aproveita e toma logo seu banho?
Sirius, que voltara a deitar na cama, levantou-se num pulo.
— É mesmo! Tinha esquecido.
Remus passou pela cama de Peter e resolveu chamá-lo mais uma vez.
— Ei, rato vagabundo! Levanta e vai estudar... — Ele interrompeu-se. — Ué...
James, que terminava de se vestir, voltou-se:
— O que foi?
— Engraçado... Ele estava aqui neste minuto...
Um palavrão alto e grosseiro veio do corredor. Os dois correram para ver Sirius esmurrando a porta do banheiro mais uma vez.
— Peter, seu inútil! Abra essa porta agora!
A voz vinda lá de dentro veio abafada:
— Peraí, Padfoot! Acho que a torta de pernil de ontem me fez mal...
— Espero uma p...!
James não conteve a risada de escárnio, fazendo Sirius se enfurecer ainda mais e querer partir pra cima dele. Remus pegou a mochila do chão e deu de ombros.
— Bom, boa sorte pra vocês. Eu vou pra aula.

Essa postagem faz parte do Projeto Mais que Palavras.
Veja também:

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Um mundo em duas palavras

Ele era o tipo de pessoa que só dizia o necessário. Ela, pelo contrário, falava tanto que dizia até mesmo o que não devia. Eram diferentes, ao mesmo tempo em que se completavam. Os intermináveis monólogos dela preenchiam os momentos de silêncio em que ele tentava não pensar nos próprios problemas. E ria das queixas dela, das histórias, do sarcasmo. Sorria, quando devia estar aborrecido com os acontecimentos do dia. Engraçado que nunca tinha sido um bom ouvinte, mas descobrira que a voz dela o acalmava como nenhum outro tranquilizante.

Ela sabia que ele não era de muitas palavras, mas não porque não tivesse o que dizer. Sabia, porque ele opinava algumas vezes, quando discordava de uma colocação qualquer, ou quando falava sobre alguma coisa que precisava ser resolvida. Mas geralmente deixava que ela falasse. Ela nunca tinha certeza se ele estava realmente ouvindo, mas seus olhos eram sempre atentos. Ele sabia que ela descarregava as preocupações falando, que conseguia um alívio momentâneo, mesmo que não pensasse realmente tudo o que deixava escapar. E, por isso, ele ouvia. Sem mudar de assunto, sem interromper.

Às vezes, ela achava que o chateava com a falação constante. Certo dia, encontrou-o com olhar tão distante que, no nervosismo de tentar fazê-lo sorrir, desandou a falar demais. Depois, considerou que devia ter perguntado se ele queria dizer algo. Sabia que ele era uma pessoa de poucas palavras, mas falaria com ela, se precisasse. Certo?

Neste dia, torturou-se tanto que jurou por tudo ficar calada por um mês inteiro. Então percebeu um pequeno bilhete grudado na geladeira, escrito em post it amarelo. Apenas duas palavras:



Elas bastavam.

"More than words to show you feel
That your love for me is real"
 
Texto publicado em 2010.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Primeiro capítulo - Livraria

Já passava das cinco e meia, quando a porta da livraria abriu. Uma única olhadela de canto de olho foi o máximo de atenção que ele prestou à recém chegada, ocupado que estava com a organização de alguns livros que os clientes da tarde haviam deixado fora de lugar. Tinha uma rotina um tanto quanto rígida nos finais de tarde, antes de encerrar o expediente: pegar todos os livros de cima do balcão e espalhados pelos cantos da livraria, arrumá-los de volta no lugar e depois atualizar o estoque de acordo com as vendas do dia. Não era nada muito trabalhoso, visto que o estabelecimento não era tão grande, nem muito tumultuado. Para encerrar, antes de apagar as luzes, ele escolhia um livro qualquer e o levava para ler em casa.

Àquela hora da tarde, alguns clientes chegavam de seus trabalhos, procurando por algum presente de última hora; ou mesmo alguns errantes, que entravam ali por acaso ou curiosidade. A cliente que acabava de entrar parecia se enquadrar no segundo grupo. Não parecia ter pressa, então ele não se preocupou em ser solícito e eficiente. Optou por deixá-la à vontade.

Terminando de colocar o último livro no lugar, ele voltou ao balcão e ligou o monitor para conferir a planilha do estoque. Já eram seis horas, de acordo com o relógio que aparecia no canto da tela. Gostaria que essa última cliente não se demorasse muito perdida na loja e se decidisse logo a comprar algo ou a encontrar o seu caminho em outro lugar, através da porta de saída.

Enquanto esperava o programa abrir e começava a considerar seriamente trocar o velho computador por um mais ágil, apoiou os cotovelos no balcão e seu olhar caiu pela primeira vez na cliente perdida. 

Nunca a tinha visto por ali antes; registrara este fato logo que ela passou pela porta. O que só percebia agora era que ela não parecia feliz. Após observá-la mais alguns segundos, ele desviou o olhar, subitamente constrangido ao perceber o quanto sua impressão inicial havia sido eufêmica. A moça tinha lágrimas banhando sua face muito vermelha. “Não parecia feliz”, ele disse? Ela parecia, sim, completamente arrasada.

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Mais um primeiro capítulo de uma história que eu nunca continuei. O motivo desta é mais simples: comecei a escrever no meio de um hiato criativo e sem a mínima ideia do plot. Acabou que o hiato me venceu e não tinha nenhum fio para seguir. O engraçado é que, lendo agora esse início, percebi que parece demais com o primeiro capítulo de um livro que eu acabei de escrever recentemente.

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Essa é uma blogagem coletiva de abril do grupo Blogs Up, com o tema "Primeiro capítulo da história que você não terminou (e o motivo de ter abandonado)".

terça-feira, 3 de maio de 2016

Flores


Naquela manhã, foram tulipas. Tulipas brancas, frescas e totalmente fora de estação. Elisa não entendia tanta coisa ali que o fato de alguém ter encontrado tulipas num dia como aquele chegava a ser irrelevante. O que realmente a deixava admirada e confusa era esse alguém saber que ela adorava tulipas brancas mais que qualquer outra coisa.

Precisas como um relógio, as flores sempre chegavam pontualmente às sete. E, desde que começaram, nunca pulavam um dia. Ontem, vieram rosas brancas; anteontem, vermelhas. Sempre foram rosas, até aquele dia. Se ela se esforçasse, poderia até pensar em um punhado de pessoas que lhe pudesse ter feito aquele agrado, mas terminava sem se decidir por nenhuma. E essa era sua grande frustração: era incapaz de determinar com clareza quem poderia ser esse seu admirador.

— Mais flores, hein? — perguntou-lhe o seu vizinho de porta, ao chegar carregado de compras e vê-la parada no corredor, o ramalhete nas mãos.
— Sim, tulipas.
— Estou vendo. São iguais àquelas de plástico que ficam em cima da sua mesa.
Não lhe havia ocorrido tal semelhança. O vizinho encontrou as chaves da própria casa no bolso e enfiou na fechadura.
— Então, ainda não descobriu quem mandou?
— Não. É impossível. Pensei em todas as pessoas que conheço, mas nenhuma delas demonstra nenhuma atenção especial comigo.
— Nenhuma?
— Nenhuma.
— Bom, com certeza você está deixando escapar alguém.
— Talvez. Quem sabe eu sequer conheça essa pessoa.
— Você acha?
— Acho. Não sei. Bom, preciso entrar agora.
— OK. Qualquer coisa, sabe que é só chamar.
— Sei, sim, obrigada. Você é um amigão. Não sei o que faria sem você.
Disse isso e entrou.
A partir daquele dia, Elisa não recebeu mais flores.

Imagem: © Corbis
Texto postado em 2009

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Insensível

Longe de sentir o amor que tentei sugerir todo o tempo, senti apenas tédio. Olhei teu rosto, vi tuas lágrimas e não senti nada. Não menti, admiti a verdade: não te amo mais. Não te amava mais há muito tempo. Não pude esconder nada, naquele momento. Acuse-me de tudo, menos de ser insincera. Pudeste ler tudo em meu rosto e, ao perceberes minha expressão indiferente, terminaste indo-te embora. E eu, que não te amo, permaneci ali.

De longe, te vi lamber as feridas e tentar superar a dor. Aquela que tu sentiste e foi ínfima demais para me alcançar. A que surge quando o amor acaba, pondo fim a promessas e expectativas, planos e "felizes para sempre". A causadora da lágrima que cutucou o meu ombro, disse "adeus" e caiu aos meus pés.

Naquela despedida, eu estava distante. Sabia que me amavas e eu te feria. E de onde estava, só queria que tudo acabasse logo e me deixasse só, com meus pensamentos. Não tardou, tive meu desejo satisfeito: fiquei completamente sozinha, eu e meu coração de pedra.

E eu, que não mais te amava, chorei.

"And in her eyes, you see nothing
No sign of love behind the tears cried for no one"
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Essa é uma postagem do tema 251. Seu primeiro término do projeto 642 coisas sobre as quais escrever.

Texto escrito em 2010.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Dias de outono

Dias como aqueles, quando tínhamos tudo. Por que não voltam aqueles dias?

Tínhamos tanta esperança, tantos planos. Eram dias quentes, dias ensolarados, cheio de sorrisos. Costumávamos ir à praia e deitar na rede de frente para o mar. Corríamos na areia, brincávamos de pegar conchinhas. Contávamos estrelas, quando anoitecia. Lembro-me das horas que passávamos deitados, rindo e pensando em como seria nossa vida juntos.

Moraríamos em uma casa com jardim. Teríamos um cachorro e dois gatos. O sol entraria pela nossa janela todas as manhãs e acordaríamos abraçados, como sempre fazíamos. Você sairia para trabalhar bem cedo; eu só uma hora depois. Então, quando chegássemos de volta, contaríamos sobre o nosso dia. Naqueles dias, nada me amedrontava. Éramos gigantes em sermos nós mesmos. Éramos o próprio sol, iluminados.

Se antes conversávamos sobre tudo, agora as conversas são escassas. Não sei nada sobre você, não sei mais quem você é. A luz das nossas vidas desapareceu, como se uma nuvem tivesse montado guarda na frente do sol. Ou o verão tivesse acabado, deixando um clima de início de outono a nos assombrar.

O outono não me assusta. Dias de outono são apenas os dias que antecedem o inverno. Mas já sinto de perto o frio que me envolverá os ossos, quando a última folha cair.

"We had joy, we had fun
We had seasons in the sun"


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Essa é uma postagem para a blogagem coletiva de abril do grupo Blogs Up, com o tema "Dias de Outono".

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Trecho de um prólogo qualquer

— Oi.
Com o susto, os olhos úmidos da menina se arregalaram e procuraram nervosamente a origem da voz. Vinha do outro lado da cerca, de onde aparecia somente a cabeça de um menino de cabelos despenteados e olhos cinzentos. Ela não gostava de chorar na frente das pessoas e ficou com vergonha do seu espectador.
— Quem é você?
— Eu moro aqui do lado. Meu nome é Lucas.
Ela não disse nada. Com os olhos, procurou seu anjo, que havia desaparecido, com o surgimento da cabeça inconveniente por cima da cerca-viva.
— Qual é o seu nome?
Ela voltou a olhar para ele, sentindo-se um pouco contrariada, tanto pela insistência do garoto, quanto pelo sumiço do seu anjo.
— Cecília.
— Seu irmão está doente, não é?
Os olhos de Cecília encheram-se de água e ela mordeu o lábio, fazendo força para não chorar.
— Não, Nate está bem — ela disse, com grosseria.
Lucas ficou confuso.
— Não foi o que a minha mãe disse.
— Ele só está dormindo — Cecília apressou-se a explicar. — Ele vai acordar logo.
E com a escassa sabedoria de sua pouca idade, Lucas entendeu. E teve pena.
— Claro que vai.
— Ele sempre dorme muito, é normal.
— Ele deve gostar muito de você.
— Não sei, ele gosta de esconder minhas bonecas.
— Ah, aposto que é só de brincadeira. Pode perguntar à sua mãe, ela vai dizer.
O bico que Cecília fazia para não chorar ficou maior.
— Minha mãe não fala.
Lucas inclinou a cabeça pro lado.
— Ela é muda?
— Ela não fala nada desde que Nate começou a dormir.

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Este não é exatamente um primeiro capítulo, como pede a blogagem coletiva; na verdade é um trecho que eu tinha intenção de colocar no prólogo. A história era uma fantasia sobre anjos, que eu comecei bem antes de livros com essa temática entrarem em moda. Parei porque tinha outra na agulha (sempre escrevo mil histórias de uma vez) e depois não continuei mais porque o tema ficou batido. Mas gosto desse trecho. Gosto do primeiro capítulo também. Talvez eu ainda publique aqui, só que é bem maior, aí achei que ficaria um post grande demais.

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Essa é uma blogagem coletiva de abril do grupo Blogs Up, com o tema "Primeiro capítulo da história que você não terminou (e o motivo de ter abandonado)".

Imagem: Fotolia

quinta-feira, 24 de março de 2016

Novo amigo

— Oi.
— Oi. Quer brincar comigo?
— Quero, mas acho que não pode.
— Por quê?
— Minha mãe disse que não pode.
— Ah. É que estou aqui sozinho faz tanto tempo! Queria alguém para brincar comigo.
— Eu queria brincar com você. Você parece legal.
— Posso ser seu melhor amigo, se você deixar.
— Mesmo?
— Claro! Podemos brincar de várias coisas: de pega-pega, esconde-esconde... Também podemos brincar de jogar uma bola, eu vou buscar e devolvo para você.
— Parece divertido.
— É muito divertido! Podemos fazer isso todos os dias.
— Não sei... Não sei se minha mãe vai gostar.
— Pergunta a ela.
— Tá, espera.

O menino saiu saltitando pela rua, atrás da mãe, que já havia andado um pouco durante o tempo em que ele observava a caixinha no canto da calçada. O pedido à mãe foi breve; a resposta, mais breve ainda. Ele voltou a olhar a solitária caixa na calçada, agora tristemente, dizendo adeus ao amigo que não levaria para casa. O novo amigo, que havia prometido tanto sem dizer nada. Fitava-o apenas, com seu expressivo olhar de cachorro.
 
 
Texto postado em 2012
Imagem: Flickr - Creative Commons

domingo, 20 de março de 2016

Medo do escuro

Há três noites não durmo. Cai a noite, vêm as sombras. Se de manhã, as sombras são abrigo; à noite, são assustadoras. Acende lâmpada, vela, abajur, farol de carro; em busca da luz. Nada funciona. As luzes só fazem as sombras tomarem forma. A forma dos monstros. Eu olho as formas, vigiando seus movimentos. E, enquanto eu olho, elas não se mexem.

No escuro, os monstros viram reais. Todos aqueles monstros que habitavam somente a minha cabeça durante o dia saem de suas moradas nos giros cerebrais para caminharem à noite, no mundo real. Vivendo à noite, como corujas, ou vampiros. No escuro, as sombras se unem, tornando-se uma só. A escuridão torna-se real. E a realidade se confunde com o desconhecido.

Então, não durmo. Medo do escuro, ou do desconhecido, não importa. Apenas porque é melhor ficar alerta, para quando os monstros chegarem. E dormir somente ao nascer do sol, quando eles se não puderem mais esconder.

"Darkness turns and wakes imagination"

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Essa postagem faz parte do projeto "642 coisas sobre as quais escrever", com o tema:
176: Você, uma adulta crescida, tem medo do escuro. Explique por que isso é uma preocupação.

Imagem: Flickr - Creative Commons