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terça-feira, 12 de julho de 2016

Segunda-feira, pela manhã... [+QP]

— James, seu veado idiota, desocupa logo esse banheiro!
— Não enche o saco, Sirius!
— Faz uma hora que você tá aí!
— Dá licença? Eu quero tomar meu banho sossegado.
— Eu já lhe digo onde é que você vai tomar, seu…
O rapaz enfezado gritava, praguejava e esmurrava a porta sem pena, causando um barulho que ecoava pelo corredor inteiro. Várias cabeças saíam das portas dos dormitórios mais próximos, para espiar quem estava fazendo aquele escândalo, mas ele não se importava. Era conhecido na escola por fazer badernas muito maiores que aquela, juntamente com James. Podia não parecer, naquele momento, mas eles eram ótimos amigos.
Sirius continuava batendo na porta e proferindo uma série de palavrões. O chuveiro, no entanto, continuava jorrando água e uma cantoria tranquila vinha lá de dentro. Isso só fazia os gritos aumentarem, dando uma impressão quase certeira de serem ouvidos pelo castelo inteiro.
— Sabe, Padfoot, eu não sei por que você ainda se irrita com ele. — De dentro do quarto quase à frente do banheiro, um outro rapaz, já vestido, arrumava uma pilha de livros pesados na mochila. — Todo dia é a mesma coisa. Da próxima vez, por que não faz como eu e acorda mais cedo?
— Acordar mais cedo? Vou perder cinco minutos de sono por causa desse imbecil?
— Bem, eu estou indo. — Ele pendurou a mochila pesada nos ombros, curvando-se um tanto para trás no processo. — Acho bom você descer e tomar café antes, para já ir adiantando.
— Uma ova que eu desço de pijama pro salão! Esse idiota vai ter que sair daí alguma hora.
— Você vai acabar perdendo a primeira aula — o outro advertiu. — Quero ver como você vai explicar pra McGonnagal que se atrasou porque Prongs estava no banho.
Sirius virou-se para o amigo, entrando no quarto com uma expressão aborrecida.
— Sabe, Remus, eu já estou com mau humor o bastante, sem que você me encha o saco também.
O amigo revirou os olhos.
— Tá, você é quem sabe. — Ele debruçou-se para pegar um frasco pequeno de uma poção de cor cinza dentro da gaveta do criado-mudo, cambaleando com o peso da mochila. — Peter não vai para a aula hoje?
Sirius deu de ombros, olhando o amontoado inerte de lençóis em cima de uma das quatro camas do quarto.
— Sei lá.
Remus inclinou-se e puxou o cobertor, descobrindo uma cabeça com fios claros, finos e emaranhados.
— Peter, acorda. Aula de Transfiguração, esqueceu?
Sem abrir os olhos, o rapaz sonolento murmurou alguma coisa incompreensível e depois se virou na cama. Sirius riu, sentando-se na própria cama vazia.
— Ele é que é esperto. Eu também devia ter ficado dormindo. Pelo menos não tenho que esperar a veela ali terminar de se embelezar.
— Eu já lhe digo quem é a veela.
Era James. Ele saía do banheiro já com os óculos equilibrados no rosto e vestindo um roupão que exibia o símbolo de Gryffindor, trazendo atrás de si um denso vapor e o cheiro de sabonete. Sirius virou-se para ele, com expressão de profundo sarcasmo.
— Ah, quer dizer que a noivinha terminou de se enfeitar? O que foi, foi difícil demais tirar o laquê que faz seu cabelo ficar em pé?
— Pelo menos eu tomo banho — James retrucou. — Você não passa cinco minutos embaixo do chuveiro.
— Como qualquer pessoa normal.
— Pior que ele acredita mesmo que é normal — James comentou com Remus, enquanto caminhava até seu baú de roupas. — Deve ter até pulgas.
— Sério, eu não vou me admirar se um dia você chegar qualquer dia com uma poção para "hidratar a cútis do rosto". — As últimas palavras foram ditas com certa afetação. — Você precisa conviver mais comigo, sabe? Essa moda metrossexual só funciona pros trouxas. Deve ser por isso que Lilly nem olha para você.
James tinha acabado de alcançar a camisa do uniforme, quando seu rosto ficou vermelho e sua expressão tornou-se irritada, pela primeira vez. A tampa do baú bateu, com um estrondo. Sirius ria, desdenhoso, sabendo que conseguira aborrecer o amigo.
— Tire a Evans dessa história.
O que só fez o amigo rir mais alto.
— Aceite a verdade, Prongs. As mulheres percebem quando os caras são meio assim, afeminados, como você. Não tenho nada contra, vou sempre ser seu cão fiel.
Remus revirou os olhos, exasperado.
— Sirius, francamente. Ele só estava fazendo a barba.
— Conversa! Eu vi um monte de potinhos de poção cremosa na mochila dele, outro dia.
— Era uma encomenda da mãe dele.
— Deixa, Moony — James interrompeu, ainda com o cenho franzido. — Ele só está nervosinho porque teve que me esperar usar o banheiro.
— Nervosinho está você, porque eu falei da Evans — Sirius rebateu.
— Mas que inferno, eu nem gosto dessa menina! — James declarou com exasperação.
A gargalhada de Sirius foi alta e irônica.
— Certo, agora conta aquela do hipogrifo.
— Ah, vá se foder!
— A escola toda já percebeu, amigo — ele comentou. — A ruiva deixa você mais mexido que vitamina de abóbora. Pena que ela te odeia.
James já preparava uma resposta ácida, mas Remus impediu-o.
— Ei, parem com isso, senão daqui a pouco vou ter que apartar sozinho a briga dos dois, já que o inútil aí não abre nem os olhos. — E apontou para a cama de Peter.
James mostrou a Sirius seu dedo do meio e voltou-se para o seu baú outra vez.
— Salvo pelo gongo, pulguento — ele murmurou, pendurando a camisa nos ombros, enquanto tirava uma gravata vermelha e dourada da gaveta.
— Como se eu tivesse medo de você, veadinho — veio a resposta.
Remus suspirou. Esses dois não paravam. Como conseguiam provocar tanto alvoroço antes mesmo do desjejum? Pronto para ir embora, ele baixou-se para recolher algumas meias espalhadas, antes de chegar à porta do quarto. Sirius viu-o equilibrar a mochila.
— Não é à toa que você vive reclamando de dor nas costas, Moony. Com esse saco de chumbo pendurado nos ombros, você parece um testrálio de carga.
— Você não estava atrasado? — ele falou, ignorando o comentário, antes apanhar uma pena preta do chão e guardar num bolso externo.
— Ainda estou.
— Então por que não aproveita e toma logo seu banho?
Sirius, que voltara a deitar na cama, levantou-se num pulo.
— É mesmo! Tinha esquecido.
Remus passou pela cama de Peter e resolveu chamá-lo mais uma vez.
— Ei, rato vagabundo! Levanta e vai estudar... — Ele interrompeu-se. — Ué...
James, que terminava de se vestir, voltou-se:
— O que foi?
— Engraçado... Ele estava aqui neste minuto...
Um palavrão alto e grosseiro veio do corredor. Os dois correram para ver Sirius esmurrando a porta do banheiro mais uma vez.
— Peter, seu inútil! Abra essa porta agora!
A voz vinda lá de dentro veio abafada:
— Peraí, Padfoot! Acho que a torta de pernil de ontem me fez mal...
— Espero uma p...!
James não conteve a risada de escárnio, fazendo Sirius se enfurecer ainda mais e querer partir pra cima dele. Remus pegou a mochila do chão e deu de ombros.
— Bom, boa sorte pra vocês. Eu vou pra aula.

Essa postagem faz parte do Projeto Mais que Palavras.
Veja também:

sábado, 12 de março de 2016

Investigação

Com todas essas evidências, não há mais dúvidas de que minhas suspeitas tinham mesmo fundamento. Esta investigação é inteiramente sigilosa e ninguém pode sequer desconfiar da natureza dos meus questionamentos, ao entrevistar os suspeitos ou conseguir mais pistas. Portanto, terei que continuar procedendo com todo o cuidado possível ou terei sérios problemas.

Ontem, adquiri a prova decisiva: a certeza do fato consumado. Interceptei uma chamada entre a principal suspeita e seu cúmplice, em que confessavam sua participação no caso. Resta agora saber onde o bagulho está escondido. Mas isso é apenas questão de tempo, pois já tenho uma vaga ideia do local onde o meliante costuma guardar seus ganhos.

Lupa em mãos, encontrei pegadas de lama no chão de madeira. O tamanho e o tipo do calçado condizem com o do suspeito. Há impressões digitais por todo o lugar, então procurei não me preocupar com elas. Apenas segui as pegadas, que terminaram num aposento acarpetado, mal iluminado. Entrei, olhando para os lados. Um barulho de água corrente veio de um banheiro anexo; sem dúvida o suspeito limpando evidências de seu corpo. Segui em direção ao móvel escuro, do lado oposto ao banheiro.

Eu tinha que ser rápido; arrastei uma cadeira, tentando não provocar nenhum som alto demais, e subi. Tinha que estar em algum lugar por ali. Pus a mão em cima do armário e toquei em algo liso. Meu toque fez ruído no pacote. Agarrei-o com ambas as mãos e conferi, afastando um pouco o papel que o cobria. Sim, era ele mesmo. Eu estava certo. Havia solucionado o caso. Coloquei-o de volta no lugar, guardei a cadeira e saí correndo do quarto.

---

— Querido, aposto que você vai adorar o seu presente de aniversário!
O menino olhou pra mãe, a carinha sorridente esbanjando orgulho.
— O jogo Scotland Yard? Claro que vou adorar!
— Hein? — A mãe arregalava os olhos, incrédula. — Mas será possível? Como você sempre descobre o que vai ganhar?
O dar de ombros dele foi exageradamente arrogante:
— Elementar, cara mamãe.


Texto publicado pela primeira vez em 2009.

Imagem: Flickr - Creative Commons

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Diálogos: O doente

— Alô?
— Oi, sou eu
 — Tá melhor?
— Não... Tô derrubado.
— Nem vem; dessa vez, não fui eu que te passei.
— Vai fazer o que hoje à tarde? Disse que não ia trabalhar.
— Não ia, mas preciso terminar umas planilhas...
— Mas você disse que vinha me ver.
— Tá doido? Não posso pegar sua gripe.

— Poxa, tô aqui doente e sem ninguém pra cuidar de mim.
— Meu amor, eu não posso ficar doente de novo.
— Se eu morrer, você vai se sentir culpada por não ter cuidado de mim.
— Deixa de frescura, não se morre de gripe.
— Cof cof.
— Que...? Que é isso? Chantagem emocional?
— Coffffff cofffffffff!
— Hahaha! Ei, seu chantagista! Isso é golpe baixo.
— Coffffffffffff...
— Tá booom, abuso! Daqui a pouco eu passo aí. Mas se me passar gripe, tá lascado.


Imagem: Flickr

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Teorias

A teoria é a seguinte: se você não tem medo de rã, uma rã nunca grudará na sua coxa ou nas suas panturrilhas; Se você não tem medo de lagartixa, uma nunca passará por cima do seu pé; Se você não tem medo de barata, uma nunca subirá pela sua perna, entrará na sua roupa ou passeará em cima de você quando você estiver dormindo. Eu tenho medo de barata. Sim, uma já subiu pela minha perna. Sim, uma já sapateou em cima de mim enquanto eu dormia. E tantos eventos felizes mais.

Esses episódios aconteceram na época em que eu morava em uma casa e, além do fato de ser menos seguro que um apartamento, este é um dos principais motivos pelos quais eu não tenho a mínima vontade de voltar a morar em uma casa, com jardim, quintal, árvores e insetos.

O primeiro episódio foi quando eu saía do banho. O banheiro era famoso por servir de morada para uma família particularmente numerosa de baratas, mas eu pensei que a cosquinha na perna era um fio solto da toalha. Só que ele estava subindo, subindo...

O segundo episódio foi numa época em que o mosquito da dengue estava bombando e minha mãe terminou colocando cortinado (mosquiteiro, como dizem alguns) em todas as camas da casa. Eu me sentia muito segura usando aquela cápsula contra insetos, até o dia em que, de alguma maneira, uma barata conseguiu entrar. Acordei no meio da madrugada me coçando. Quando acendi a luz, ela estava lá, bela e cascuda, passeando pelos buraquinhos, do lado de dentro do cortinado. Saí da cama muda, rápida e o mais discretamente possível para não assustar a nojenta e ela não pular de novo em cima de mim, e fui acordar meu irmão. Exigi a morte dela. Se fosse uma lagartixa ou uma rã, eu ia pedir somente pra ele jogar no quintal. Mas barata tem que ser esmagada (descarregar o tubo de Raid em cima dela não funciona, ela fica com as patinhas asquerosas pro ar se mexendo) para eu poder voltar a ser feliz de novo. Menos uma no mundo. Eu teria tomado um banho antes de voltar dormir, mas, como eu disse anteriormente, o banheiro era o reino das baratas e eu estava traumatizada. Acho que não dormi o resto da noite.

Hoje, eu vi uma barata albina e manca. E você? Você aí, que nunca teve medo de barata, já viu uma barata albina e manca? Não, né?

Imagem: GettyImages

segunda-feira, 28 de março de 2011

Subconsciente


Estava no intervalo do almoço da especialização e, como sempre, o pessoal decidiu ir a um bar para comer um camarão ao alho e óleo e tomar cerveja. Já fui avisando que a gente tinha aula à tarde e que eu não ia beber porque queria prestar atenção. Claro que todo mundo protestou, mas eu fui firme, dessa vez.

Quando já estavam me apelidando de "voz da consciência", passou uma garçonete. Chamei, antes que alguém pedisse alguma coisa:

— Moça, tem suco de quê?
— Aham. Uma Skol, OK — ela respondeu, anotando e concordando com a cabeça. E saiu, antes que eu dissesse alguma coisa. Ficou todo mundo olhando, sem entender.

Foi a primeira vez que ouvi meu subconsciente falar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Culto

Tinha acabado de chegar com meu pai ao culto ecumênico de formatura da minha prima, filha do irmão dele. Chegamos bem atrasados e perdemos grande parte dos sermões, ficando apenas com as considerações finais dos palestrantes religiosos convidados. Permanecemos de pé, um pouco atrás, e eu comecei a tentar entender o assunto abordado. Eis que vejo um rosto familiar entre os palestrantes.

— Ei, painho. Vê como aquele pastor parece com tio Tato.

Tio Tato é o irmão dele, pai da minha prima formanda.

— É...

Silêncio. Ou melhor, o padre falava para os formandos alguma coisa sobre a importância da profissão deles para o mundo. Eu olhei o pastor com mais atenção.

— Ô, painho... Tio Tato é pastor?

— Acho que é.

A mulher do cerimonial começa a cantar uma música de igreja ao microfone. Olho pro meu pai com a maior cara de "¬¬".

— Painho. Aquele é tio Tato.

Pior mesmo foi, depois de tudo terminar, fingir que achamos lindo e inspirador o sermão a que nem sequer tínhamos presenciado. Eu, sem saber onde enfiar a cara e ensaiando a minha melhor expressão de "pff, lógico que eu vi e achei perfeito", na mais perfeita rasgação de seda. Nem desconfiaram. Eu espero.


Imagem: GettyImages

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Peixe-boi

Estava tomando água de coco na beira da piscina, à sombra de um coqueiro, na praia, numa vida beeem difícil. Ao longe, só vejo meu primo, depois de tomar umas, correndo pela praia e gritando:

— Peixe-boi! Peixe-boi!

— Hein?

— Um peixe-boi no mar! Logo ali!

Corri para ver, né? Não é todo dia que a gente vê um peixe-boi numa praia que mal aparece peixe normal. Praticamente o pessoal todo do condomínio foi atrás, para ver o dito-cujo. Chegamos à beira da praia, todo mundo procurando de um lado pro outro do mar, até que meu primo aponta:

— Olha ali!

— Onde?

— Aquela coisa escura ali.

Meu tio entrou no mar, para ver mais de perto. Não era peixe-boi nenhum; era um bolo enorme de sargaço. Alga seca. Bêbado é uma merda mesmo.

Imagem daqui

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

House M.D.

Estava tentando fazer um planejamento complicado de um caso de ortodontia, sem nenhum sucesso. Não vou entrar em detalhes muito técnicos, porque quase ninguém vai entender mesmo, mas, basicamente, estava tentando achar uma maneira, um aparelho ou uma modificação de aparelho para fazer determinado movimento dentário. E eu, revirando meus livros e revirando a internet, não encontrei nada. Estava já puxando os cabelos, quando resolvi deixar pra lá e entrar no GTalk, para conversar.
Eis que encontro a Helô:
—... Pois é, eu já tava ficando de saco cheio, sabe, aí vim aqui desestressar. Não tava aguentando mais.
E ela:
— Aí agora é a hora que eu digo qualquer besteira e você tem uma ideia genial pro seu problema, como em House. Eu sou seu Wilson!
Meu problema nunca foi a falta de amigos com senso de humor.



domingo, 15 de agosto de 2010

Figura de linguagem

Numa conversa no MSN com ZeH, sobre figuras de linguagem (não me perguntem como chegamos a falar sobre isso; só o histórico do messenger sabe), começamos a discutir sobre as figuras de que lembrávamos e procurar outras mais malucas. Dos resultados da pesquisa, as melhores foram "epizêuxis", "matiazite", "lítotes" e "zeugma". E, como em toda pesquisa inútil, nem me lembro mais pra que servem. A única lição que tiramos dessa história foi que, de acordo com figuras como o "barbarismo" e o "idiotismo" não mais se comete erros de português, faz-se uso de figuras de linguagem.

Em algum ponto da conversa, saímos do tema e passamos a reclamar da vida, como de praxe:

— Agora é moda se sentir deslocado. Um estranho na terra.

— É. A pessoa olha pro seu próprio umbigo, olha pro mundo e pensa: "esse mundo tá errado".

— Se antes a ideia era se adequar, agora cool é ser diferente, único.

— Chama-se "umbiguismo".

— É. Só mais uma figura de linguagem.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Crédito ou débito?

Estava pagando a conta, no fim de uma festa, e entrego o cartão ao caixa. Vem a pergunta:

— Crédito ou débito?

— Débito.

— Quer dividir?

— Quero. Você paga metade e eu, a outra metade.


Outro dia, estava no Drive Thru da McDonald's. Fiz o pedido, o cara disse o preço. A pergunta:

— Qual a forma de pagamento?

— Dinheiro mesmo.

— Crédito ou débito?

— Crédito. Pago amanhã, sem falta.


"A humanidade não deu certo" (Gordon, Rob)

terça-feira, 16 de março de 2010

Talento

— Ei!

— ...

— Pedro, porra!

— Que é?

— Porra, que demora!

— Se você não percebeu, estava tentando me concentrar aqui.

— Deixa de ser fresco e me diz a resposta da segunda.

— A segunda, eu não sei.

— E essa "concentração" toda era pra quê?

— Ah, vai se ferrar.

— Pergunta aí na frente.

— Porra, você quer que eu pergunte a quem?

— Qualquer pessoa, caramba. Aqui atrás só tem a Fabiana, que praticamente deita em cima da prova.

— Tenta olhar a de Carlos.

— Você não conhece a letra dele? Não dá pra decifrar nada daquele garrancho.

— Tá, eu vou ver o que posso fazer.


...


— E aí?

— Nada.

— Caramba, que povo burro!

— Claudinha estava dizendo que acha que tem a ver com aquela questão dos comprimentos de onda...

— Peraê, fala devagar. Com...pri...men...tos...de...on...da... O que mais?

— As faixas de luz invisível, ultravioleta, infravermelho...

— ... vermelho...

— Ei, não escreve o que eu estou dizendo, que eu não tenho certeza.

— Se daqui pro final a gente não descobrir, vai isso mesmo. E a terceira questão?

— Essa eu copiei de Roberta. Deu 9,7. Ou melhor, eu não sei se era 1 ou 7, mas parecia muito com 7 mesmo. Ela não coloca o tracinho, sabe?

— Tá. E a quarta?

— Letra c.

— Pegasse de quem?

— De Gabriela.

— É, então deve estar certo.

— Vê que sorte: consegui pegar o resto todinho dela, quando ela se levantou pra entregar.

— Perfeito, cara! Diz aí a sequência.

— B, d, d, c, d, a.

— "A"?

— Foi o que ela colocou.

— Mas eu jurava que era "b".

— Bom, eu vou deixar "a" mesmo.

— Ah, tanto faz. Vai ver era uma casca de banana.

— E a segunda questão?

— É mesmo... Vou ver se consigo pegar de Fabiana; ela se levantou de cima da prova pra pegar alguma coisa na bolsa e…


— DANIEL!

—... Sujou... SIM, professora?

— Por acaso o senhor está olhando para a prova da colega?

— Que é isso, professora? Só olhei pro lado para pensar.

— Sei, sei. Vocês acham que eu nasci ontem, mas eu estou vendo tudo daqui, sabia? Ainda bem que coloquei você e Pedro um em cada canto da sala, senão a fila ia rolar solta. Agora, vire para frente e olhe para a sua prova.

— Sim, senhora.


...


— E aí, conseguiu a segunda questão?

— É óbvio. Anota aí...


Conto baseado em fatos reais.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Histórias de carnaval 2

(Primeira parte aqui.)


Carnaval é época de cantadas; das melhores àquelas bem ruins:

— Oi! Olha, eu não quero ficar com você hoje, tá? Só amanhã.

— Então, até amanhã!


— Oi, gata.

— Oi. — Ela aponta pro braço dele, que está com um band-aid. — O que é isso?

— Uma feridinha. — Ele aponta pros seios dela. — E o que é isso?

— Rapaz, se você não sabe, você tá fodido.


— Com licença.

— Sim?

— É que estou meio perdido. Esse lugar não tem nenhuma sinalização, a gente não tem idéia de pra onde vai ou por onde volta... E depois que toma umas, já viu, né.

— Verdade.

— Então, você pode me dar uma informação?

— Claro.

— Qual é o seu nome?


Devido a um calo inesperado, minha amiga acabou tendo que comprar um rolo de esparadrapo. Depois de usado somente no calo, o dito-cujo acabou por ficar passando de mão em mão, sem que ninguém quisesse segurá-lo durante as subidas e descidas das ladeiras. Eis que um amigo meu encontra a solução perfeita: um menino de uns dez anos, vendendo cerveja.

— Ei, boy! Troca uma cerveja nesse esparadrapo aqui? Tá novinho, só tem uma volta usada.

O garoto não respondeu, mas a cara dele foi impagável.


Mais uma vez no taxi, desta vez depois da folia. Fome do cão. Bêbado ensinando o caminho:

— Ei, moço, tem alguma comida aí na mala, pra gente?

— Rapaz, até uma hora atrás tinha uma jaca.

— Sério, uma jaca? Que ducarai! Pega lá pra gente!

— Não dá, deixei na casa da sogra.

O bêbado pegou ar:

— Porra, moço! Casa da sogra? Me estressei com o senhor. Fale mais comigo não.

— Sim, qual é o caminho mesmo?

— É na próxima rua à esquerda, mas fale mais comigo não.


O mesmo bêbado, depois da corrida:

— E aí, o senhor aceita pagamento em cerveja?

— Não, desculpe. Só dinheiro.

— Dez reais dá, o quê, três cervejas? Dou quatro e fica tudo certo.

— É que estou dirigindo, sabe como é.

— Olhe, eu prometo que esqueço até da minha jaca, que o senhor deu pra sogra.


No carnaval, sempre há muitas pessoas vestidas com fantasias diversas. E pessoas sem fantasia também; como um senhor, que estava de camiseta regata e tinha pêlos nos ombros estilo Tony Ramos, só que bem mais comprido. Do tipo que daria para fazer tranças.

— Aquele ali tá vestido de homem-velcro.

— Mas daqueles velcros bem gastos, né?


Mais histórias aqui.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Histórias de carnaval

Taxista, levando a gente pra folia, no típico #calordosinfernos:
— Eita, esqueci de perguntar. Querem que eu ligue o ar condicionado?
— Ar condicionado? Cara, era uma boa…
— Pois é, não tem.

A turma sentada no meio-fio, esperando algum transporte passar pra nos levar pra casa. É quando passam dois amigos com um celular, comentando:
— Porra, caraaa! Breno casou!
Minha amiga, se intrometendo, fala:
— Parabéns pra ele!
Os amigos prontamente voltam e estendem o celular pra gente:
— Fala aí com ele, fala!
A gente pega o telefone e, sem hesitar:
— SE FODEEEEEEEU!
Os caras, claro, amigos do peito que são:
— AEEEEEEE!! BRENO SE FODEU! BRENO SE FODEU!

Banheiro para mulheres, no carnaval, é sempre um suplício…
A menina bebeu todas. Tinha ido ao banheiro umas cinco vezes e já estava procurando outro, urgentemente, sem encontrar pelo caminho um que não pagasse (estava lisa) ou que estivesse em condições de, pelo menos, ter o chão pisado. Nada. O mais barato estava um nojo só.
No auge do desespero, ela reclama:
— PORRA, QUERIA TER UM PÊNIS!
Quem pode imaginar os comentários que a coitada ouviu depois dessa?

Dois amigos conversando:
— Olha lá, você viu?
— Vi o quê?
— O cara tá usando a cantada da jibóia.
— É? E como é?
— Ele pega, abraça com força e não larga até a mulher ceder.

Imagine a cena: o cara passando por uma das principais ruas, no fim da noite já, olhando pro chão. Poucas pessoas perceberiam a presença de uma singela moeda de um real, no meio dos paralelepípedos. Mas ele viu.
"Oba! Dá pra completar a cerveja."
Veja bem, uma moeda de um real num chão normal é uma coisa; uma moeda de um real no chão em pleno carnaval é outra bem diferente. Observando que ninguém dava por falta dela e sentindo que era seu momento de sorte, o sujeito prontamente se abaixa pra pegar, mas a moeda não sai. Insistente, tenta tirá-la dali com a unha. Quando percebe que está colada, ele olha em volta, desconfiado.
Um monte de gente já se estrebuchando no chão, de rir da cara dele. Poucas coisas são tão divertidas no carnaval que ver o povo pagando mico. Mesmo quem não tem intenção de pagar. Ele sai rindo, claro, sem graça. E nós ficamos lá, esperando a próxima vítima.

Meu amigo, gaiato, fazendo voz de criança:
— Ô, Mari! Por que o povo tá tomando cerveja de um jeito diferente? Olha! Eles botam a boca na latinha, sem virar, e sugam: shhhhhiup!
— É porque, nesse calor, a cerveja tá evaporando.

Leiam também a segunda parte.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Herbie returns

Meu carro, pelo menos o atual, nunca deu problemas. Nunca parou no alto de um viaduto, nunca emperrou o medidor de gasolina, nunca demonstrou a mínima revolta para com a vida. Até esse fim de semana, quando ele começou a mostrar um pouco da sua personalidade explosiva em situações de estresse. Não sei ainda o que houve, mas já o coloquei, sem pensar muito, na minha longa lista dos aparelhos voluntariosos.

Aconteceu que eu fui viajar com meu irmão para a praia, num município a uma hora de Recife. Já fiz esse percurso milhares de vezes e conheço bem a estrada, por isso a primeira metade da viagem ocorreu sem maiores intercorrências, a não ser pela chuva (que me fez pensar em algumas coisas depois. Primeira: que foi sorte o carro ter dado chilique só depois que estiou. Segunda: que diabos eu ia fazer na praia num toró daquele?).

Alguns quilômetros depois, o carro simplesmente estancou a 120 km/h. As luzes do painel se acenderam, o freio motor ficou impossível de pisar e era uma vez direção hidráulica. Sem entender nada, parei no acostamento e liguei o carro de novo. Nenhum problema. Andei alguns metros e ele parou outra vez. Liguei e fui acelerando loucamente, para não estancar, até um posto de gasolina mais próximo. Olhei a água, OK; óleo, OK; gasolina, OK. E — me poupem dos comentários machistas — acabou-se aí o meu conhecimento sobre motor de carros. Meu irmão entendia mais, como deve ser, mas não conseguiu fazer muita coisa, a não ser dar apoio moral e chamar alguns homens para olhar o motor do dito-cujo.

Depois de falar com um monte de "entendidos", que acabaram por não resolver porcaria nenhuma, decidi continuar a viagem acelerando o carro. Já mais consciente do problema, fui mais devagar, na faixa da direita, forçando absurdamente cada marcha. E ele foi empacando, coiceando, agonizando na pista. E lá se vai a viagem tranquila que eu tanto esperava.

Umas vinte estancadas, centenas de olhares de desprezo por parte dos carros que passavam ("só podia ser mulher!"), e trezentos palavrões depois (meus, não contei os dos outros), percebi que a enfermidade do carro tinha várias etapas, assim como qualquer doença que vai progredindo. De primeira, ele só estancava. Depois, dava uns sopapos, tossia, ameaçava parar; eu conseguia fazer andar assim mesmo, mas inevitavelmente parava algumas vezes. Então, ele começou a acelerar sozinho; eu tirava o pé do acelerador e o ponteiro de RPM chegava a 4. Na outra etapa, ele parou de acelerar, mesmo quando eu pisava fundo. No último estágio, o ponteiro do velocímetro começou a subir sem que a velocidade aumentasse. Só o que aumentava mesmo era o meu estresse.

No final, mesmo esperneando numa aceleração sem fim, o carro nos levou ao nosso destino. Terminamos voltando no outro dia, nas mesmas bizarras condições. Essa história toda me lembrou Herbie, o fusca voluntarioso. Se meu carro falasse, não sei o que me diria. Mas o que quer que fosse, eu o teria mandado para a PQP como resposta.


"Baby, you can drive my car
And maybe I'll love you..."

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Dia desses, mandei um livro de aniversário, comprado num site da internet, para um amigo meu de outra cidade. Bruno, meu amigo, veio me agradecer o presente. Eu fiquei aliviada por saber que o livro tinha chegado ao seu destino, pois eu achava que estava demorando demais.

— Oi, Ma! Obrigada pelo presente!

— Puxa! Até que enfim, pensei que não chegaria mais.

— E não chegou, na verdade.

— Hein?

— Aconteceu uma história muito estranha até o livro chegar aqui.

— Não chegou aí? Como assim, que absurdo! Vou reclamar lá.

— Espera, escuta a história:


"Aparece hoje aqui na porta de casa um cara numa bicicleta e só estava o Fred* e o André* aqui. O Fred, todo desconfiado, vai atender, e o cara pergunta:

— Aqui é a rua X?

— É sim, por quê?

— Tem um Bruno aí?

— Tem, mas ele não está.

— É que tem um pacote aqui pra ele.

Eram 21h00. O Fred vai lá na porta, nem leva a chave para não abrir o portão, e pergunta se tem o nome completo, para ter certeza de que é o Bruno daqui mesmo.

Daí o cara:

— Ah sim, peraí. Segura aqui. — E passa um livro pro Fred segurar, enquanto ele lê o nome no pacote. O Fred nem olha qual era o livro, preocupado com o que o cara vai fazer.

— “Bruno de Tal”.

— Ah, é esse mesmo.

O cara, então, passa o pacote, que já estava aberto e explica:

— Então, foram entregar esse pacote na minha casa.

— Onde você mora?

— Na rua Y — que é outra rua daqui, cujo nome não tem nada a ver. — E na minha casa também tem um Bruno. Ele abriu o pacote e só depois percebeu que não era pra ele.

E o Fred abismado. O cara continuou:

— Então, quando o Bruno chegar, você dá três avisos pra ele:


1. Quem entregou o pacote era um vogon muito burro... Se bem que eles já são burros mesmo... Mas esse era muuuuito burro.

2. Quando eu vi o pacote, eu pensei que era um aquário, mas era um livro.
3. Quando ele for viajar, não se esqueça de levar a toalha.


— Tá. Qual é o seu nome?

— Eu sou o Carlos*. Você entendeu os recados?

— Sim... Vogon burro, pensou que era um aquário e não esquecer a toalha.

Depois que o Fred pegou o livro de volta é que ele viu o nome: “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. O cara posicionou a bicicleta e acenou:

— Até mais! E obrigado pelos peixes."


Eu pensei bem e decidi que não vale a pena ligar para reclamar. Como disse Bruno, valeu a diversão.


* Os nomes foram trocados por motivos que não vem ao caso.

sábado, 5 de setembro de 2009

No meio do caminho tinha um galo

Na antiga casa em que eu morava, quando criança, havia várias árvores frutíferas, espalhadas pelo terreno enorme. Uma delas, a de manga rosa, que eu plantei quando bem pequena, era uma das minhas preferidas. As mangas dela eram as melhores. Pelo terreno, ainda havia um campo de vôlei, um parquinho, um jardim, uma casa de bonecas e… um galinheiro. Por alguma coincidência do destino (ou espiritice-de-porco de quem planejou), o pé de manga rosa ficava dentro desse último: do galinheiro.

A história começou quando, da janela do meu quarto, eu a avistei: enorme, suculenta, madurinha. A manga. Ela estava num galho meio alto, mas não seria difícil subir e pegar. De fato, subir não foi difícil; já descer… Saí pro quintal com a idéia fixa de colhê-la custasse o que custasse, já lembrando que a mangueira ficava no meio do bendito galinheiro. Bom, eu não tinha medo de galinhas, afinal; praticamente havia crescido no meio delas, por causa daquele galinheiro, que meus pais tinham inventado de manter ali.

Entrei no território das galinhas, então. Elas me olharam, cacarejaram e se afastaram. Galinha é um bicho burro e eu não vou fingir que acho que me reconheceram. Ainda bem, porque certa vez, no auge da minha ingenuidade infantil, eu despejei o resto do meu almoço pra elas comerem e elas, obviamente, comeram. Era frango desfiado.

Continuando, fui em direção ao primeiro galho da árvore e dei o impulso inicial para subir. Era aquele tipo de galho, que toda árvore tem, que você obrigatoriamente tem que pisar nele para subir ou descer. Então, eu fui subindo, subindo, até alcançar a minha desejada manga. Peguei e fui começando a descer, galho por galho, até chegar naquele galho inicial. Foi quando me deparei com um galo, empoleirado nele, me olhando com cara de poucos amigos.

You wanna fight?

Galinhas são geralmente inofensivas, a não ser que você queira pegar um ovo ou os filhotes delas. Mas galos são bem pouco pacatos. Este, especificamente, tinha a fama de ter ferido todos os machos que já pintaram por aquele galinheiro e de ter dado uma surra nos gatos que porventura entravam para comer os pintinhos. O que seria de mim, pobre criança sem esporões, encarando uma criatura como aquela? Só me restava esperar que ele saísse do galho, para que eu pudesse descer e comer minha manga.

Foram se passando os segundo, minutos… E minutos para uma criança é bastante tempo, ainda mais em cima de uma árvore. Meus pés começaram a adormecer, de me equilibrar naqueles galhos cheios de titica, e o galo não cedia terreno. Olhava-me com a mesma cara, como se me desafiasse pra briga. Comecei a me desesperar; percebi que ele não ia sair dali. Vai ver, ele tomara conhecimento do meu crime que provocara o canibalismo entre os seus e quisesse me punir por aquilo. Comecei a tremer de medo e, quanto mais me agitava, mais ele parecia ficar satisfeito.

Até que não aguentei mais: analisei a altura a que estava e calculei o impacto da queda. Era alto, mas era melhor que encarar o rei-galo. Fechei os olhos, pulei e caí sentada no chão batido, melecando minha roupa de titica de galinha. Mas não me importei, saí correndo o mais rápido que pude das terras do reino.

Quando fechei a porteira, arrisquei uma última olhada pro sujeito. Ele ainda olhava para mim, agora com o ar de “escapou, né, covarde?”. Covarde, sim, mas inteira. E, como que para comprovar minha teoria de que ele só estava montando guarda por minha causa, ele farfalhou as asas e desceu. E saiu andando tranquilamente em direção aos fundos do galinheiro.

E eu? Eu fui curtir minha preciosa manga. Estava uma delícia.


Imagem: stock.xchng

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sexta-feira

“Caramba, como fazer tudo isso num só dia?”, era meu pensamento naquela manhã de sexta-feira. Mas, como não podia me atrasar, tratei de começar logo. Tomei banho, fiz o café voando e saí pro trabalho, só pensando em pegar a fila do banco na hora do almoço. E ainda almoçar depois. Ou antes.

Foi depois, em dois minutos, num almoço engolido. Voltei pro trabalho ainda mastigando. Pensei no chá de panela que teria que ir, mais tarde. Não tinha como dar um jeito de sair mais cedo do trabalho, então pegaria o trânsito das 18h e chegaria um pouco atrasada mesmo.

OK, bastante atrasada. Duas horas depois, estava eu com o presente nas mãos, me preparando psicologicamente para as brincadeiras sem graça. Por sorte, ou mais provável, pelo meu atraso mesmo, elas já tinham acabado. Ficaram só aqueles grupinhos de fim de festa rindo e fofocando. A parte boa. Falei com as pessoas, fiz um lanche e tratei de sair logo pra um jantar de aniversário, num restaurante. Talvez ainda não fosse tão tarde.

Era bem tarde. As pessoas brincaram, perguntando se eu ia jantar ou tomar café da manhã. Ainda comi alguma coisa, conversei com as poucas pessoas que ainda estavam por lá, antes de ir todo mundo embora. Inclusive eu, que ia, abençoadamente, para casa.

Finalmente, em casa. Tomei um banho, coloquei uma roupa confortável e sentei-me na minha cadeira. Liguei o computador, olhei o e-mail, vi os comentários no blog, os últimos tweets. Tamborilei com os dedos na mesa e suspirei:

“Saco. Plena sexta-feira e nada para fazer.”


Imagem: stock.xchng

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Poliglota

Eu nunca disse que as pessoas aqui de casa eram normais. Na verdade, para ninguém ter falsas esperanças, sempre conto histórias confirmando que são bem pouco mentalmente sãs. Dessa maneira, é até aceitável que quem conviva conosco seja um tanto diferente também. É o caso do meu cachorro, Willy, um yorkshire tamanho mínimo, de pelos caramelos e pretos, com alguns fios brancos típicos da idade, e focinho gelado.

Quando adotamos Willy, ele parecia um cachorrinho normal. Talvez até fosse, vai saber. Ele chegou bem jovem, assustado, como se por instinto já soubesse que havia algo bizarro por aqui. Em poucos dias, como qualquer cachorro comum, ele aprendeu a latir. Foi quando percebeu que aquela era uma língua bastante inútil numa casa de humanos e, sem nada melhor para fazer, começou uma busca incessante por outros dialetos.

Pouco tempo depois, Willy estava miando. Sabe Deus onde, mas ele também adquiriu o costume de lamber as patas e se engasgar com bolas de pelos. Mas não havia gatos nesta casa e Willy ficou triste por ter feito tanto esforço para nada. Ele, então, aprendeu a arrulhar, ficar empoleirado na barreira que separa a sala da cozinha e a gostar de se equilibrar em lugares altos. Mas, ainda, ele não encontrou ninguém com quem pudesse trocar duas palavrinhas e, mais uma vez, voltou à sua procura pelo idioma apropriado.

Hoje, Willy tem seis anos — mesmo que sua estatura seja a mesma de sempre — e fala pelo menos umas dez línguas, que vai de mugido a algo parecido com lamúria de almas do outro mundo. E meu irmão jura que há algum tempo o ouve falar “ossinho”, sempre que tem frango pro almoço.


Willy, triste, quando ainda não sabia falar “ossinho”.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Má educação

Se existe uma coisa que me irrita mais que gente me cutucando, é gente mal educada. Cara, como eu odeio gente mal educada! Penso que deveria haver uma instituição — como o manicômio é para os loucos — para se mandar as pessoas deficientes em educação doméstica. Só então nós, pobres pessoas escravas da boa educação, não precisaríamos mais sofrer caladas com certas situações irritantes.

Outro dia, eu estava lá no consultório, quando entra uma penca de crianças barulhentas na minha sala para passar para a que fica ao lado. Como só uma divisória separa as duas salas, tive que ser submetida àquela poluição sonora. Na verdade, não ligo muito quando são barulhinhos inocentes de crianças hiperativas, porém educadas. Não era o caso. Havia duas crianças menores e inquietas, mas a menina que seria atendida tinha uns doze anos, perfeitamente capaz de se controlar. E as duas senhoras que supervisionavam aquela visão do inferno não estavam supervisionando coisa nenhuma. Pelo contrário, elas contribuíam para a falação, conversando entre si por cima das vozes das crianças. Amigos, em pleno consultório odontológico.

A melhor parte da história é que eu estava com um paciente, no meio de um procedimento delicado, que não podia ser interrompido. Então, aparece a minha auxiliar, com a pergunta:

— Doutora, quer alguma coisa?

Eu não tive dúvida:

— Sim, quero que esse pessoal sem educação cale a boca.

Quem me dera tivesse falado alto o suficiente para não só o meu paciente rir, mas as tão distintas damas ficarem envergonhadas e mandarem suas crias se comportarem. Porém, suspeito de que, se tivessem me ouvido, a falta de educação chegaria ao seu auge e eu ouviria um alto e claro “vem calar”.