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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Produtividade e a quarentena

Acho que, nesses tempos de quarentena, a parte mais difícil está sendo, para todo mundo, manter uma relativa produtividade. No meu caso, por exemplo: eu sou dentista, em meu período integral. Não estou podendo trabalhar, o que compromete todo o meu orçamento. Mas tirando essa parte problemática, pensei que pelo menos eu poderia utilizar o tempo livre forçado para escrever. Escrevi? Quase nada.


Imagem: Flickr - Reprodução
Dei uma ajeitada no meu projeto do NaNoWriMo, um romance fantástico (ou uma fantasia romântica?), que estava parado desde dezembro. Dei uns retoques no ship, que não estava me agradando, consertei umas inconsistências que ficaram lá por culpa da correria do NaNo, que a gente não pode voltar para consertar na hora. E não avancei nada.

Fora isso, escrevi uma flashfiction de mil palavras. Essa conquista, eu devo ao meu maravilhoso Coven de Escrita, que lançou o desafio relâmpago de escrever um conto naquele momento em que estávamos todas online. Determinamos o tema (quarentena), o cenário (um prédio em que ninguém entra e ninguém sai), os personagens (moradores aleatórios desse prédio) e escrevemos uma flashfiction cada. Provavelmente nunca vamos publicar isso, mas foi divertido como exercício.

Além disso, eu contratei Fernanda, amiga linda e integrante do Coven, dona do blog Bookworm Scientist além de editora, revisora e preparadora (sim, são muitas qualidades para uma pessoa só) para editar meu livro Um Encontro. Faz tempo que quero torná-lo publicável por alguma editora, sem ser por autopublicação, mas não tinha coragem nem mesmo tempo de revisá-lo. Bem, agora estamos revisando. E tendo que reler tudo, reformar capítulos, retalhar outros e morrer de vergonha de coisas que eu escrevi há mais de quatro anos. Mas amando o processo. Inclusive recomendo o trabalho de Fernanda a quem se interessar, ela é uma linda em todos os sentidos.

Aí você me pergunta: mas você começou esse texto dizendo que não estava conseguindo produzir. Eu acho que o problema é que estamos tão acostumados a um ritmo de produção acelerado que não percebemos o quanto conseguimos produzir de pouquinho, apesar da situação complicada pela qual estamos passando. Eu, pelo menos, não tinha ideia até terminar este texto.

Então, o negócio é tentar manter a sanidade, do corpo e da mente.

Fiquem em casa, quem puder.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Qualquer coisa


Necessidade. Como aquela de ir ao banheiro, depois de uns copos de cerveja. A urgência que nos faz usar mesmo aquele banheiro químico dos carnavais de rua. Sinto-a em todos os segundos que passo sem escrever. Já fazem longos segundos. Longos dias. Longos meses.

Todo artista tem uma necessidade quase primitiva de criar. O escritor não é diferente. Mas criar nunca é fácil. Exige tempo, exercício, constância. As ideias não faltam, a inspiração não some, mas se perde a noção para reconhecê-las, alcançá-las e transformá-las em algo. Isso se adquire com prática. Como qualquer exercício.

Este é um exercício. O início de um, com pouco peso e quase nenhuma intensidade. Um ato de escrever qualquer coisa, pegar o papel e sair discorrendo. Metalinguagem ajuda. Escrever essas linhas já ajuda. É um começo. Tudo precisa de um ponto de partida.

Começar. Prosseguir. Nunca parar.

Porque preciso escrever. Qualquer coisa serve.


Imagem: GettyImages

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Momentos e música*

Uma vez, alguém me disse: "não associe uma música a alguém" e eu sempre soube que essa pessoa tinha razão. Mas é difícil; a gente termina associando tudo nessa vida e eu sou dessas que associa tudo a música. Então basicamente esse é um desafio que eu nunca cumpri. E esse é um dos motivos pelos quais eu choro por tudo, por nada. Esse e o fato de eu ser mole mesmo. O problema é que, por já ter nela meio intrínseco esse componente emocional, a música meio que preenche as lacunas de sentimento que falta. Aí a gente traz para junto, para dentro, para a vida. Associa. Perde e chora.

Uma vez, aconteceu de eu gostar muito de uma pessoa que me emprestou um CD. Só que a pessoa não gostava tanto assim de mim e isso foi bem ruim. Foi embora, mas as músicas do CD ficaram. Passei muito tempo para conseguir dissociá-las da pessoa, ainda mais porque elas só falavam em sentimentos fortes, amor e perda. Consegui, enfim, desligar as músicas da pessoa, mas elas ficaram irrevogavelmente ligadas àquele momento.

Hoje, eu sinto um grande carinho pelas músicas. Hoje, elas não machucam. Acho que ligar música a momentos faz essa coisa de associar música a pessoas daquele momento ser mais suportável. Momentos criam saudades saudáveis, fazem parte da nossa vida e, mesmo que doa, a dor ameniza e a lembrança fica. A música fica e adquire um sabor melancólico. A música fica com o momento e permanece. E os momentos são nossos. As pessoas, elas não são de ninguém.
"And the songbirds are singing

like they know the score"


Imagem: Flickr - Creative Commons
Música: Songbird
*Texto publicado em 2014

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um cAUso

Dizem que cachorros sentem as nossas emoções e agem de acordo com elas. Ouvi uma pessoa falar sobre isso hoje e lembrei de um episódio que aconteceu comigo, há alguns anos.

Fazia apenas alguns dias que Willy, meu yorkshire, tinha acabado de morrer. E eu fui visitar meu primo, que tinha um cachorro. Por acaso, ele também era um yorkshire e já tinha esbarrado com o meu em algumas ocasiões, na praia. Na mesma hora eu lembrei de Willy e fiquei bem triste. Existe uma espécie de vazio que um bichinho deixa na gente e não é facilmente preenchido.

Eu conhecia o cachorrinho do meu primo e sabia que ele tinha uma personalidade bem diferente de Willy, que era amigável com estranhos. O york dele era manso, mas não era de fazer festinha ou ser carinhoso com quem não era o dono.

Só que, neste dia, algo aconteceu. Eu estava sentada numa cadeira e o cachorro olhou para mim, que tentava fazer um carinho nele, já sabendo que seria ignorada. Então, ele pulou no meu colo. E suportou o carinho por algum tempo, até que desceu. Meu primo ficou confuso, dizendo que não era do feitio do cachorro. Mas ele foi o primeiro a entender:

- Cães sentem quando a gente está triste - ele disse. - Eles entendem.

E é verdade, ele entendeu. Entendeu o vazio que havia e que ele podia aliviar me dando um segundo do carinho dele.

E ele me deu.

Willy

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Um fim, uma dor

Não sou boa com finalizações. Nunca fui. Não ser boa não significa que eu não consiga, significa apenas que eu não lido bem. É um filme que acaba, um livro que chega à ultima página, uma vida que inexiste. É um amor, um relacionamento, uma partida. Um adeus. Nunca aprendi a dizer esse adeus. Nunca me foi ensinado. Na escola não nos ensinam a lidar com a perda. Não tem no currículo acadêmico, nem no da vida.

Mas a gente vai aprendendo sozinha, autodidata, no passar dos anos, e às vezes se torna mais fácil. Menos dolorido até. Mas sempre é triste, sempre incomoda, sempre o vazio. É o encontro do novo desconhecido, ou a volta para aquele início que é quase uma continuação sem continuidade. O desconhecido, novo ou velho. A nova vida com a ausência. Muito aprendizado, vindo daquilo que agora falta. A falta que dói e fere. E o medo que me faz temer despedidas.

Não sou boa com finalizações, não sei lidar. O fim é mais um início e iniciar é exaustivo. A vida inteira: um fim, um início, um ciclo sem fim. Não tem disposição, falta boa vontade. Falta tudo. Precisa empurrar, pegar no tranco. No tranco, no barranco, ladeira abaixo, caída no asfalto, machucada pela queda e sem coragem de levantar. Para um novo início. Mas sem energia.

Sem coragem de finalizar, com medo da queda. Com medo do recomeço.
"Time telling me to say farewell"

--
https://www.facebook.com/groups/blogsup/

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Ser ausência

De repente, você está cansado de tentar. De dar tudo, não dever nada, mas não receber o mesmo em troca. Aí você resolve dar menos e o resultado é que recebe menos ainda. Até resolver não dar nada e ter o nada à sua espera, em retribuição. Apenas um estranhamento: "o que houve?"

O problema é esse: nunca houve. E você nem se enganava sobre isso.

De repente, não resta nada. E o que lhe resta é dar sua ausência. Se nada acontece assim, nada nunca aconteceria.

"Ser ausência em vez de insistência"

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Escorrendo pelos dedos

Madrugada. Aquele momento surreal em que eu começo a divagar sobre algumas coisas meio sem sentido. Os pensamentos são sempre os mesmos: a instabilidade da vida, a mutabilidade, a inevitabilidade. Explico. São três da manhã e eu não vou dormir. Não posso dormir; amanhã é um outro dia e, quando eu acordar, este momento que eu estou vivendo vai ter acabado. E eu vou tê-lo "gastado" dormindo.

Ninguém entende quando eu digo que tenho ciúme de momentos, não exatamente de pessoas. Minha visão de vida, de uns tempos para cá, virou uma coisa meio carpe diem. Não tem muito a ver com 'colher o dia' porque o amanhã pode nunca chegar; tem mais a ver com 'tudo muda a hora toda' e eu estou mudando neste exato momento. Então, tenho que viver este momento, porque amanhã eu não vou ser eu anymore. Incomoda-me quando minhas pessoas estão se divertindo e eu estou perdendo. Mesmo que eu também esteja me divertindo em outro lugar. Eu quero estar em todos os lugares, ao mesmo tempo, com todo mundo. Tirando o melhor de cada momento, porque aquele momento específico nunca vai acontecer de novo. Porque eu não vou acontecer de novo.

Não é um pensamento estranho, este de que nada daquilo nunca mais vai se repetir? Aquele sentimento, aquelas pessoas, aquela atmosfera? Nós podemos tentar, mas nunca vai ser o mesmo que agora. Nós nunca vamos ser os mesmos que agora. É como as águas de um rio; ele pode estar sempre lá, mas as águas que agora correm nele não são as mesmas de ontem. Não são as mesmas de um segundo atrás. Assim são as pessoas e os momentos.

É por isso que não gosto de desperdiçar momentos. É por isso que às vezes durmo depois de amanhecer. Ou volto para casa às dez da manhã do outro dia. Porque eu olho para aquela cena, aquele momento à minha frente, e percebo o quanto ele é frágil e está escorrendo pelos meus dedos a cada segundo que passa. Aquele momento é único, nunca mais vou vivê-lo de novo. E aquele momento merece ser vivido em toda sua intensidade, sem meios-termos, sem meias risadas, meias verdades. Completamente.

Não posso ir embora, não posso dormir. Amanhã este momento vai ter acabado. E este momento é precioso demais para ser deixado tão facilmente.






"I try to capture every minute, the feeling in it
Slipping through my fingers all the time"

domingo, 24 de abril de 2016

Castelos de areia

É incrível como, quando nós crescemos, esquecemos de coisas que sabíamos quando crianças. Peguei-me pensando nisso, quando me deparei com uma imagem no Instagram @afeminista com uma citação que falava sobre sororidade. A citação em questão dizia "Paremos de foder com a vida umas das outras". A frase não usa palavras comportadas, mas não espelha menos que a realidade. O que mais existe, hoje em dia, são mulheres fodendo com a vida das outras; chamando outras de vadias por algum motivo idiota, apontando os defeitos, rindo da maneira que a outra se veste. E cobiçando o namorado, noivo, marido alheio. Traindo outras mulheres.


Quando eu era criança e chegava a algum lugar cheio de gente, eu sempre procurava alguma menina para brincar. O lugar, antes hostil, imediatamente se tornava mais agradável, porque agora eu tinha uma cúmplice. Não importava o que o resto do mundo estava fazendo, agora nós podíamos inventar nossas próprias brincadeiras, contar histórias fantásticas, fingir sermos outras pessoas, subir em goiabeiras, construir castelos de areia. E reconstruir sempre que eles fossem derrubados pelas ondas ou pisados só de maldade por algum moleque. Naquela época, ninguém nos podia alcançar.

Então, nós crescemos e nos foi dito que amizade entre mulheres não existe, que é marcada por inveja e competição. Era sempre uma tentando derrubar a outra. Tínhamos que ser a mais bonita, a mais inteligente, a mais magra. Tínhamos que não apenas ser interessantes para os homens, mas ser a mais interessante, mesmo que para isso passássemos por cima de alguém. Por cima de outra mulher. Por cima do nosso amor próprio.

Sendo que nada disso é verdade, Não precisamos agradar ninguém, a não ser a nós mesmas. E toda a cumplicidade que tínhamos com as mulheres da nossa infância, é essa que precisamos lutar para recuperar. Porque somos as nossas maiores aliadas. Imaginem um mundo onde mulheres não se julguem e não se condenem. Um mundo em que mulheres se recusem a fazer mal às outras por causa de homem, um mundo em que não seriam traídas. Um mundo em que mulheres não fodam com a vida das outras. Não usamos palavras comportadas, porque não nos interessa ser "moça direita" para outras pessoas. Seremos quem nós quisermos, para nós mesmas. Não digo que vamos conseguir erradicar o mal totalmente, mas o quanto não poderíamos diminuir isso somente se nos respeitarmos? Se nos dissermos todos os dias que ninguém passará por cima da nossa sororidade?

Nós não somos apenas amigas, somos irmãs. Unidas somos mais fortes. E uma vez que mais mulheres amarem umas às outras, poderemos construir o nosso mundo, o nosso castelo. E, desta vez, ele não será de areia.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

The last thing that made me cry

For I'm so easy to laugh and far more easy to cry, the last thing ever that made me cry was a music. Instead of sad films and things involving dogs, not always musics alone make me cry. The only music that ever has make me cry before, out of nowhere, was Slipping Through my Fingers, by ABBA. I say "out of nowhere" because crying with songs in relationship ends and because they make you remember of your deceased grandmother doesn't count. I'm talking of crying with just the song. And still today I cry listening to this ABBA song.

This time, the music was a Simon and Garfunkel song: Wednesday Morning, 3AM. I still don't know what has really taken me down, if it was the lyrics or the melody. That happens, sometimes, the melody reaches me more than the lyrics.



I have to remember not to listen to this song when I'm down.


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Como eu sou muito besta para rir, mas mais besta ainda para chorar, a última coisa que me fez chorar foi uma música. Ao contrário de filmes tristes e coisas que envolvam cachorros, nem sempre músicas por si só me fazem chorar. A única música que já tinha me feito chorar antes, assim do nada, foi Slipping Through my Fingers, de ABBA. Falo "do nada" porque chorar com músicas em finais de namoro ou porque fazem lembrar sua falecida avó não conta. Estou falando de chorar pela música apenas. Ainda hoje eu choro com essa música de ABBA.

Desta vez, a música em questão foi uma de Simon and Garfunkel: Wednesday Morning 3AM. Ainda não sei se o que me derrubou foi a letra da música ou a melodia. Acontece isso, às vezes, da melodia me atingir muito mais que a letra.

Tenho que me lembrar de nunca escutar num momento down.

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Essa é uma postagem para a blogagem coletiva do Blogs Up International, com o tema: The last thing that made me cry.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O maior e melhor


Se você não aguenta sol, calor e multidão, definitivamente o carnaval de Recife e Olinda não é para você. Mas se você, assim como eu, acha que certas coisas valem a pena, deveriam estar aqui no carnaval. Deveriam vir ver pessoalmente, porque não dá para descrever o que acontece. No momento, eu estou a um passo da insolação, na base da água de coco e do caladryl. Mas, como eu disse, há coisas que valem a pena. E para participar — não ver; participar — do carnaval daqui, tudo vale a pena.

O nosso problema, dos recifenses, é que, além de muito bairristas, nós sempre queremos ser os maiores ou melhores. É o maior shopping do Brasil (já foi, mas deve ter perdido o posto), a maior avenida em linha reta da América Latina. Até das coisas ruins já vi gente abrir a boca para falar, com certo orgulho. E nós temos o maior bloco de rua do mundo: o Galo da Madrugada.

Essa semana, eu li uma postagem de um amigo que comparava o Galo a um monumento histórico. Com a pequena diferença de que os monumentos são perenes e o Galo, com toda a sua excentricidade recifense, é reconstruído todo ano de uma maneira diferente, apenas para o carnaval. O maior monumento montado e desmontado a cada ano; o maior ponto turístico móvel instantâneo; o maior bloco de rua, com mais gente pulando e gastando a sola do sapato pelo asfalto, com mais bonecos coloridos com cabeça de papel marché, com mais gente fantasiada das maneiras mais criativas, sem precisar pagar nada para brincar. O maior Galo do mundo, que atrai pessoas de todos os lugares a cada carnaval. Para depois sumir e renascer, como uma fênix, todos os anos.

Este ano, eu fui ver o Galo. E é lindo. Não fui para camarote, porque carnaval do Recife e Olinda se pula no chão. Passei mal com o sol, me queimei, desidratei. Mas valeu a pena, porque sempre vale. Depois, fui para Olinda, porque a festa tem que continuar, nas ladeiras, nos outros blocos, com outras cores. Sou mesmo bairrista. Somos bairristas e nenhum lugar, para nós, nunca será melhor que aqui. Tenho um orgulho imenso do meu Recife, do nosso carnaval.

O melhor carnaval do mundo.

Imagem: Bruno Silva

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Para você que não precisa do feminismo

Você acorda cedo todos os dias, se arruma, faz maquiagem, escolhe a roupa, sai para o trabalho. Pega seu carro ou o metrô, enfrenta o trânsito, lida com clientes ou chefe chato. Às vezes, lida também com assédio. De colegas, clientes, chefe, desconhecidos no elevador ou no caminho para o escritório. Nada de novo. Almoça em qualquer restaurante barato, volta para o escritório, trabalha mais um pouco. Sai do trabalho direto para a academia, come qualquer coisa antes da aula de pilates. Hora do anticoncepcional, não pode esquecer. Chega em casa, toma banho, tira a maquiagem, passa cremes no corpo, seca o cabelo, faz um lanche de baixas calorias. Fica em frente à televisão ou no computador, até o cansaço levar a melhor.

"Eu não preciso do feminismo por nenhuma razão"

Você é mulher. Brasileira, solteira, livre. Pagando suas contas ou não, sua vida não é fácil. Mas não é nem perto de ser tão difícil quanto era há cinquenta anos. Ou mesmo vinte. Ou, pasme, dez. Hoje, você pode trabalhar fora de casa, votar, dirigir. Talvez ninguém cobre que você saiba cozinhar ou passar roupa. Você pode discutir ideias. Pode não casar, muito menos com alguém que você não quer. Pode até sair sozinha. Só vai ouvir umas dez recomendações de alguém, antes disso. Ou, se não ouvir, vai sair assim mesmo, com o medo habitual de ser encurralada em algum beco escuro por algum estuprador. Com o medo de beber em algum bar e colocarem algo em sua bebida. Medo de dirigir e o carro quebrar no meio do caminho, deixando-a vulnerável. Medo de se relacionar com algum doido que seja violento. Medo de tirar fotos íntimas e elas vazarem. Medo de usar uma roupa mais curta e ficarem falando. Medo de ficar com vários caras e virar assunto na cidade. Mas você está acostumada com esses medos, não é?

Então, você conhece um cara legal e começa a namorar. Você não precisa ter mais medo, porque agora você sai acompanhada, ele não é violento e você confia nele. Um dia, ele resolve sair sozinho e você pergunta para onde e com quem, só de curiosidade. E ele a acusa de estar tentando controlar a vida dele. Você, para ser uma namorada legal, deixa a pergunta para lá. Aí ele começa a receber mensagens constantes de uma menina que você não conhece. Você acha estranho e pergunta quem é. Não é uma grande coisa perguntar. Ele diz que você está doida por estar desconfiando dele sem que ele nunca tenha feito nada. Mulher é sempre doida, desconfiada. Não é nele que não confia, é nas outras mulheres. Ele a acusa de ter amigos também e ele não fica no pé. Você começa a achar que está mesmo ficando doida. Você pede que ele avise quando chegar em casa, para você não ficar preocupada. Ele diz que não tem necessidade disso, que faz tudo por você e você só fica desconfiando, perguntando besteira e controlando os passos dele. Você começa a ficar com dificuldade de lembrar das vezes que foi livre e despreocupada e começa a se achar uma péssima namorada. E começa a perguntar menos, incomodar o mínimo, sorrir ao máximo. Mesmo sem motivos. Mas, ainda assim, ele sempre diz que você era mais legal no começo do namoro. Aí o namoro acaba e você não sabe onde errou. A gente nunca sabe, mas sabe que foi a gente. Até pensar direito e descobrir que esteve sofrendo lavagem cerebral. Na próxima vez, você não vai deixar isso acontecer.

Você vai a uma reunião de família, a tia pergunta por que você não tem namorado. Com certeza, você está sendo exigente ou tem algo errado com você. Não pode continuar solteira, ninguém é feliz sozinho. Você vai morrer sozinha, amargurada, sem filhos. A prima diz que vai apresentar um amigo muito legal a você. Você não pode mais se dar ao luxo de escolher muito, afinal já passou da idade. E mulher tem prazo de validade. Mas você nem queria muito; só queria alguém que fosse companheiro, soubesse conversar, tivesse o mínimo de coisas em comum, desse valor às suas opiniões. E, se não fosse muito machista também, seria bom. Mas isso é uma raridade, você não pode esperar isso de ninguém. Então, você fica só, eternamente procurando, tentando ou esperando; entre saídas com amigos, ficadas desinteressadas e maratonas de séries no Netflix.

Você não precisa do feminismo. Não mesmo. Você é uma mulher numa a sociedade machista, tem que se acostumar. E ela já foi mais machista; há países onde mulher nem pode trabalhar, escolher marido ou se vestir do jeito que quer. Aqui nem é tão ruim, você só precisa nadar a favor da corrente. Não dá para se revoltar contra tudo também. Você só vai ser uma chata, extremista, do contra. Para quê? Nenhum homem vai querer uma pessoa assim.

Sua vida realmente não é fácil. Verdade. Mas isso deve ser normal. Afinal, a vida de ninguém é fácil.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Choices and changes

Não é estranho quando você não encontra muitas coisas que você gostaria de fazer na vida. Quando você para e pensa que só há aquele caminho a seguir, que aquele é seu objetivo, seu destino. E não pensa em mais nada. Acho que esse é o curso natural das coisas, a maneira como todas as pessoas pensam ou sentem. Isso não é estranho. Estranho é quando você consegue pensar em pelo menos cinco coisas que você gostaria de fazer, cinco caminhos diferentes a percorrer. Todos lindos, todos diferentes, e você tem que escolher um. Cada um mais cheio de desafios que o outro.

Eis que você, finalmente, escolhe um. Porque, na vida, a gente precisa escolher e cada escolha é aquele famoso paradoxo: você escolhe uma coisa e deixa as outras irem. E a gente precisa ser feliz com o que escolhe. Exceto quando, depois de muito tentar, não consegue.

Então, sempre há tempo para voltar atrás. E acho que é isso: estou voltando.

"Turn and face the stranger"

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Good vibes

Estava lendo um texto sobre pessoas que trazem más vibrações. Ao longo da vida, mudei várias vezes meu pensamento sobre a maneira de encarar pessoas ao meu redor. Há muito tempo, eu achava que a gente tinha que se dar bem com todo mundo, não dizer "não" à companhia de ninguém e perdoar tudo e todos. Ou pelo menos, tentar. Depois de um tempo nessa filosofia, senti que ela se virava contra si mesma, enquanto eu acabava atraindo e me esforçando mais pela companhia de pessoas difíceis que pelas fáceis. E virava refém delas. E, de repente, coisas avulsas na minha vida que tinham tudo para dar certo, acabam dando errado. Porque, a gente não percebe, mas algumas pessoas podem sugar toda a sua energia, sua alegria e força de vontade, e realmente nos trazer para baixo. Não são de todo pessoas ruins, são apenas "vibes" com as quais você nem sempre consegue lidar.

Ao deixar para trás todas essas pessoas, percebi que voltei a aceitar as coisas de uma maneira mais simples e tudo começou a ficar mais fácil. Não a vida, mas o modo de lidar com ela. É válido, sim, ter boa vontade e bom humor e tentar olhar as pessoas de maneira menos crítica, sem o impulso de encontrar defeitos em todos. O que não é válido é deixar pessoas que nos fazem mal reinarem em nossas vidas e continuarem por perto fazendo estragos. Então, bem-vindos ao meio termo: olhar tudo sem o olhar crítico, mas apenas se aproximar de pessoas que nos fazem bem, que nos fazem crescer. Você não vai guardar rancor de ninguém, só não é obrigado a lidar com todo mundo. E não será uma pessoa ruim por isso.

A maior lição que eu tirei disso tudo nem foi essa, a de me afastar de pessoas que me fazem mal. Foi que tudo que eu não quero da vida é ser uma dessas pessoas, um sugador de energia, um dementador. O que eu quero são pessoas que têm orgulho de mim e das minhas conquistas, não pessoas que duvidam e digam que eu não sou capaz. E eu também quero ser a pessoa que apoia as escolhas dos meus amigos, a pessoa que vibra e propõe um brinde, no final. A pessoa com muitos defeitos e chatices, mas que eles querem por perto, porque traz algo bom. Eu quero ser essa pessoa.

Aí você me diz que pessoas felizes são chatas. Antes de tudo, vale dizer que há pessoas que fingem ser felizes e fáceis, mas não são. Assim como há as pessoas que estão quietas e sérias, mas que estão em paz. Não demora muito para saber a diferença entre elas. Então, a todos aqueles que, mesmo assim, desprezam as pessoas felizes, só posso dizer que lamento. Vocês não fazem nenhuma falta da minha vida.

"Imagine there's no heaven"

Imagem: Flickr - Creative Commons

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Primeiras palavras

Escrevo histórias. Invento personagens e situações. Às vezes, coloco ali minhas experiências, no papel, na tela do computador. É fácil escrever sobre o que se entende, mas é muito complicado entender-se o suficiente para escrever sobre si. Então, na maioria das vezes, apenas quero me desvencilhar de mim mesma e ser outra pessoa. Se possível, bem diferente; por mais que me entenda, hoje, muito mais do que um dia me entendi. Lendo um livro, a gente pode conseguir essa viagem, de ser várias pessoas ao mesmo tempo. Agora, imagina poder escrever nossos próprios livros, com tudo aquilo que queremos ler. Esse é o meu propósito, meu objetivo.

Há algum tempo, comecei a escrever meu primeiro livro. Na verdade, sempre começo vários primeiros livros, mas pela primeira vez estou terminando um. Provavelmente, ele nunca será publicado; nenhum deles. Se é que vou terminar os outros. Mas a sensação de realização que acompanha o desenrolar de uma narrativa é única.

Acho que nunca estive num momento mais produtivo. Deve ser por isso que este blog anda meio abandonado. Peço perdão. Mas está valendo a pena. Quem sabe, um dia, vocês me leiam por aí. Vamos torcer.

https://www.flickr.com/photos/pedrojesusfotografia/13414753665/




Imagem: Flickr - Creative Commons

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Às mulheres que não amam as mulheres

Faz algum tempo que estou enrolando para escrever um texto sobre feminismo e sobre tudo que venho sentindo e aprendendo, nos últimos tempos. Eu sempre tive uma tendência feminista, mas aceitava o machismo como uma característica imutável da sociedade. Aceitava em mim, em algumas maneiras de pensar; aceitava nos outros, talvez porque não quisesse ser chata, extremista, ou porque não pensava muito nessas coisas. Mas então, um dia, você se depara com o julgamento que oprime, com as atitudes que invadem, com o machismo que mata. E você, sendo mulher, homem ou qualquer outra coisa, percebe que está apenas sendo conivente, apoiando tudo isso. E, sendo mulher, entende que poderia estar no lugar de qualquer uma dessas pessoas.

Há menos de um ano, eu aprendi uma palavra chamada sororidade, que é a mesma coisa que fraternidade, só que entre mulheres. Frater é irmão e sóror, irmã. São mulheres que se uniram em busca de um objetivo em comum. E nessa união, não falo só de agir como um time, mas como uma família. É comum a gente ouvir que "amizade entre mulheres é diferente, sempre existe competição" e isso é mais um absurdo que a sociedade enfiou na nossa cabeça e nós acabamos acreditando. A sociedade, as novelas, as músicas. Não sei você, mas as minhas amigas não competem entre si; elas têm orgulho umas das outras por suas conquistas, são sinceras, se apoiam e se amam. É esse amor que venho procurando na minha vida, hoje. Nunca falo em feminismo como uma luta contra os homens, mas contra a sociedade machista e em benefício de todos. Depois que você começa a reparar, passamos a encontrar o machismo em lugares que nunca pensamos encontrar. Aí você escuta que "mas você também vê machismo em tudo". Não sou eu que vejo; ele sempre esteve ali. Assim como a homofobia, ou o racismo. Eles existem, mas ninguém vê, porque é "normal". Porque eles sempre estiveram ali.

Sororidade

Aí você vê mulheres lutando pelo direito de poder sair na rua sem ser incomodada com uma cantada, sem ter medo de que invadam seu espaço e passem a mão, sem ter medo de ser confundida com um pedaço de carne que está ali para ser comido. E você desdenha. Você, mulher, alega que nada que elas façam vai mudar a sociedade. Hoje, você pode votar, você pode trabalhar, pode morar sozinha, mas continua dizendo que a sociedade não pode ser mudada. Aí você vê uma mulher usando roupa curta e desdenha. Você vê uma mulher gorda e desdenha. Você reclama que estão fazendo protesto contra os comerciais que objetificam o corpo da mulher. Você reclama que alguém não achou graça de uma piada que diz que mulher não sabe dirigir e você também pergunta a uma amiga por que ela veio dirigindo, se o namorado estava disponível. Você pergunta por que ela paga a conta, se o namorado pode pagar. Você tem pena de mulheres que estão solteiras, porque mulher sozinha é encalhada, é porque ninguém quer. Ou porque é "exigente demais". Você condena uma amiga porque ela não quer ter filho, mas condena também se ela tiver e não souber criar direito: "por que teve, então?". Você também condena o aborto, porque, se a mulher fez besteira, tem que arcar com as consequências. Você odeia as amigas do seu namorado: "são todas putas". Você odeia as ex-namoradas deles também. Se ele as traiu, foi culpa delas, nunca dele. Ele nunca faria isso com você, porque você é diferente. Você entende homens que traíram as namoradas, porque homens são assim mesmo, enquanto chama de puta as mulheres que traíram seus namorados. Homens são vítimas de seus instintos, mulheres apenas são fracas ou putas. Se você xinga uma mulher, chama de puta, porque  liberdade sexual é condenável. Quando homens são imbecis, são filhos da puta, porque tem que o atingir xingando outra mulher. Ou chamando de "viado", comparando-o a uma mulher. Você chama feminista de "feminazi", comparando uma luta legítima, que nunca matou ninguém (pelo contrário!), a uma ideologia em que pessoas inocentes foram e ainda são assassinadas.

Amiga, você é machista. E não há nada mais triste que uma mulher machista, uma mulher que aceita obedientemente uma posição de inferioridade em relação aos homens. Mesmo que você não sinta essa inferioridade, que chame de outra coisa. O problema é que essa não é uma luta só sua; há pessoas que sofrem todos os dias com isso e você está prestando um desserviço a todas elas. É hora de repensar esses julgamentos, exercitar a nossa sororidade. Amemos mais as mulheres; nossas amigas, as amigas dos nossos amigos, as amigas dos nossos namorados. Até mulheres desconhecidas, na rua. Podemos nos ajudar a conquistar o nosso espaço. Aceitar os erros das outras, porque algum dia podem ser os nossos. Não é fácil, eu sei bem, porque vivemos numa sociedade que prega exatamente o contrário. Porque convivemos com pessoas que não pensam assim. Porque há até pessoas que dizem que machismo não existe, que você está exagerando. É um exercício diário. Mas podemos espalhar essa ideia e abraçar esse amor. O que temos a perder? Você vai ser mais crítica com o mundo, mas menos com as mulheres que a cerca. Você vai ganhar muitas amigas. Também vai encontrar apoio onde menos espera.

♡

Amiga, machismo mata, todos os dias. E você pode estar sendo cúmplice apenas por não se importar, ou dizer que ele não existe.

Imagens: Flickr - Creative Commons

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Só

E, no final de tudo, acabamos sozinhos. Passamos a vida inteira procurando pessoas para aglomerar à nossa volta, pessoas com quem nos relacionar, pessoas com quem casar, tendo filhos, mantendo relações... Isso tudo para ter alguma companhia em todos os momentos. Mas sábio é quem consegue entender a delícia de se bastar. Não digo fugir da convivência do mundo, mas poder se sentir bem em sua própria companhia. Amar-se e entender-se o suficiente para se sentir bem com os próprios pensamentos. E só então encontrar pessoas com quem dividir esses pensamentos.

Porque, no final de tudo, acabamos sozinhos. O que só entendemos nessa hora é que, por menos que estejamos sós, o fato é que nós sempre estivemos.

"É a certeza da eterna presença
da vida que foi, da vida que vai"

Imagem: GettyImages

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Coisas que eu fiz nesse carnaval

- Fui direto de Olinda pro Recife Antigo.
- Dancei frevo até ter cãibra.
- Comi salsichão de almoço.
- Tirei selfie com dois Spider Men e um Superman
- Passei mal de calor.
- Abri uma roda de ciranda gigante no meio da Praça do Arsenal.
- Abri uma roda menor dentro dessa roda gigante com duas menininhas, para elas não serem pisoteadas.
- Fiz xixi só duas vezes em um dia só, mesmo bebendo cerveja o dia todo. Desidratei ou não?
- Construí um dispositivo para fazer xixi em pé.
- Caí de uma escada.
- Arrumei vários hematomas e só me lembro desse da escada.
- Dancei um ritmo de música que até hoje não sei o que é.
- Tomei Heineken em Olinda.
- Tomei duduroskas de tangerina, maçã verde e limão.
- Dancei brega.
- Tomei picolé/paleta mexicana de kiwi.
- Quase bati num idiota que quis me beijar à força.
- Encontrei na ladeira um amigo de Fortaleza que eu nem sabia que estava aqui.
- Fiquei bêbada.
- Escorreguei numa ladeira, mas não caí.
- Conheci gente muito massa.
- Comi escondidinho de charque.
- Dancei com uma amiga que estava de muleta.
- Fiquei presa na multidão do Marco Zero.
- Quase tive que entrar no meio de uma briga, para segurar um amigo.
- Segurei vela.
- Seguraram vela.
- Fui pro carnaval com um grupo e voltei com outro.
- Me perdi do grupo.
- Tomei milk shake.
- Tive dores em músculos da perna que nem sabia que eram capazes de doer.
- Comi churrasco.
- Comi vinagrete agridoce.
- Vi um arco-íris.
- Falei besteira.
- Tomei chuva.
- Gargalhei.
- Cortei o pé.
- Não me lembro de como voltei pra casa.
- Estive com as melhores pessoas do mundo. As minhas pessoas. E é disso que o carnaval é feito. Das melhores pessoas. Não importa o lugar, o calor, a chuva, a multidão, os idiotas. Só as pessoas.

"A gente ri, a gente chora e joga fora o que passou"

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Um pouco de confiança

Aí você faz um comentário e é criticada. OK, estamos em uma sociedade, temos regras, temos o politicamente correto, estamos susceptíveis a críticas. Mas é um saco quando isso ocorre entre os seus. Penso que, entre os seus, você pode ser quem você quiser. Falar mal de alguém, ser chata de manhã quando acorda, reclamar dos pais e reclamar da vida, que talvez nem seja tão ruim assim. Mas você está entre os seus, você sabe que vão entender seus motivos, suas reclamações, sua situação. Mas quando não é bem assim, a crítica vem e é pior que qualquer outra. Porque você se importa.

Todo mundo tem problemas e a gente sempre tenta fazer o melhor. Mas nem sempre a gente consegue; nem sempre a gente pode lidar com todas as situações da melhor maneira. Nem sempre a gente precisa. Tem hora que a vontade é de chutar o primeiro balde que aparecer e mandar tudo pra merda. É aceitável até. Ninguém precisa suportar tudo sendo uma lady. Ninguém é santo. E, mesmo que você queira fazer o certo, nem sempre você sabe com o que ele se parece.

O que eu sempre espero é um pouco de confiança. Ninguém precisa agir como você gostaria, você só espera que sim. Acontece que as pessoas têm outras vivências, outros valores, outros objetivos. Elas não lhe prometeram nada, você que teceu expectativas demais. Você tem que esperar apenas que elas façam o melhor que podem, que deem o melhor delas. E você precisa confiar, não julgar. Nem mostrar como faz. Nem interferir, achando que só você sabe o que é bom. Confiar.

Confiança está em falta. Mesmo entre os seus.

Imagem: Flickr - Creative Commons

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Frio

Nas crenças mais comuns, o inferno é definido como um lugar abafado, com altas fogueiras e insuportavelmente quente;  fogo, lava e essas coisas todas que queimam. O inferno, como o lugar para onde as pessoas ruins vão quando morrem, lugar de punição, tristeza e dor. Quando o dia está muito quente, as pessoas o comparam ao inferno. Em cidades quentes, o calor é quase odiado; as pessoas não conhecem o frio insuportável. E apenas o calor é dos infernos.

Eu, mesmo morando a vida toda numa cidade quente, penso que o inferno deve ser um lugar escuro e frio. Um frio congelante, que imobiliza os ossos e nos impede de pensar em qualquer coisa que não seja na dor. Porque a dor é fria, a solidão é escura. Se você já sentiu dor e tristeza profundas na vida, deve ter percebido que não se experimenta nenhuma forma de calor, de nenhuma maneira. Não receber uma resposta esperada, atenção de alguém esperado, é chamado "gelo". Uma pessoa sem emoções boas é fria. A fome extrema provoca o frio. A tristeza é fria. Independente do clima lá fora, dentro é frio, cruelmente frio, profundamente frio. Você treme, se cobre, toma banho escaldante, se abraça com a bolsa de água quente e o frio continua lá, inalterado. Profundo. Isso é o inferno. O frio que não vai embora, que faz doer. A dor que traz mais frio.

Dias claros, ensolarados, calorentos também não são os meus preferidos, pelo contrário. Ir à praia não é uma grande coisa; tomar sol não é uma das minhas prioridades na vida. Prefiro sempre dias chuvosos e aconchegantes, em que se fique deitado lendo e vendo filmes. Calor irrita, traz mosquitos, faz suar e querer distância das pessoas. Mas calor não é triste.

Frio é triste. A dor é escura e congelante. O sofrimento machuca como uma pedra de gelo em contato com a pele. A morte é fria. Uma pessoa quente ainda tem vida. Culturalmente, o inferno vai continuar sendo um lugar quente, abafado, claro, fogueiras e piscinas de lava. Mas meu inferno particular sempre será frio. O frio que oprime e não vai embora. O frio dos infernos.

"You better hide for her freezing hell"


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Das coisas que não importam

Há as coisas que não entendo e há as coisas que decidi não entender. E a maior parte do que se passa pela minha cabeça vive oscilando entre essas duas opções. As dúvidas nunca são estáveis; muitas vezes também até acho que entendo. Mas só me engano. Percebi que algumas coisas não são feitas para serem entendidas; ao menos não com o que eu tenho nas mãos, não com a minha breve vivência.

E uma delas tem oscilado mais do que o normal entre o "entendimento", o "não entendimento" e o "não importa". Por fim, fico sempre com o "não importa". Porque não importa mesmo. Não mereço. Não sou obrigada a pensar sobre isso. Não sou obrigada a permanecer em nenhum lugar, se não quiser. E o fato é que, depois de tudo o que eu passei nesses últimos anos, não deveria nem me dar o direito de estar em qualquer situação em que possa escolher não estar.

Você é o que você deseja ser. Se não é, você pode passar a vida tentando. Eu sempre tentei ser aquilo que desejei, apesar de ter duvidado de mim várias vezes. Claro, todo mundo erra. Já me vi em várias situações em que jurei nunca estar e acabei pagando a minha língua. Mas cometer erros é uma coisa. Ser um erro, saber disso e aceitar, acostumar-se com isso, arrumar justificativas para sê-lo, não. Não faço. Entendo a luta, nunca a derrota. Então, não importa. Não entendo. Não preciso entender.

Sério, não preciso. O que preciso mesmo é encontrar gente que também não entenda.


"How many times will it take for me to get it right?"