domingo, 31 de agosto de 2008

BlogDay 2008

Sinceramente, estou meio-completamente perdida. Mas achei ótima essa proposta do BlogDay e, como meu blog Palavras de Papel foi indicado no Informação Virtual, decidi participar. Enfim:

Blog Day 2008

BlogDay foi criado com a idéia de que os blogueiros deveriam ter um dia dedicado a conhecer outros blogs, de outros países e focos de interesse. Nesse dia, cada blogueiro recomenda cinco blogs para seus visitantes, de modo que eles possam conhecer diversos blogs e expandir seu universo de leitura e conhecimento.


Os blogs que recomendo são alguns que sempre visito e de que gosto bastante:

- Solstícios: Prosa poética escrita com muito talento por alguém que domina as palavras como poucos.

- Calcinhas no Box: Textos bem-humorados e sarcásticos do cotidiano de duas amigas cruéis e perversas.

- Onabru urbanO: Projeto literário com vários autores, em que cada um desenvolve um personagem diferente, construindo várias histórias que, de vez em quando, se encontram.

- HenriqueM: Um verdadeiro artista e sua exposição de textos, pensamentos e sarcasmo.

- Zeggs: Blog que reúne piadas curtas e frases engraçadas, como pequenas "pílulas de humor".


Aproveito a oportunidade para agradecer a Rodrigo do Informação Virtual pela indicação.

sábado, 30 de agosto de 2008

Relato de um assassino


É preciso ter sangue frio. Ser calculista e, acima de tudo, não se deixar abalar por sentimentalismos inúteis. As emoções não devem existir; pena, compaixão, arrependimento. A única coisa que se permite sentir pela vítima é desprezo. Talvez um prazer insano durante o ato, típico daqueles que estão acostumados a tirar vidas.
É o que sinto agora, enquanto corto cada parte de seu corpo, separando os pedaços, retalhando. É mais interessante quando é violento, sangrento. Você agoniza, mas não morre. Ainda. A lâmina afiada torna a investir contra o seu corpo, repetidamente, com força, com insistência. Minha expressão continua impassível, mesmo quando cravo os dentes na pele, estraçalhando a carne. O sangue continua a jorrar e espalha-se pelo chão, manchando tudo em volta com um curioso tom de vermelho-berrante.
Um sorriso amargo surge em meu rosto. Sei que está morrendo. Quero que esteja; preciso que esteja. Apesar disso, sinto ainda o pulsar da vida dentro do corpo frágil. Cerro os dentes. Não sei mais o que fazer.
Matar você em mim tem sido uma tortura. Juro que dói mais em mim que em você.

"You know she's a little bit dangerous"

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Até onde a vista alcança


Prédios, ruas, casas, outdoors. Uma mistura de criações de diferentes artistas. Quase exposições de um museu exibidas aos olhos curiosos e iluminados pelos holofotes amarelos dos postes, que já passam da hora de apagar. O cenário é um céu confundindo-se entre o azul e o laranja, enquanto uma luz se forma, completando uma obra da mais pura arte; a mais bela e antiga de todas.

Lá onde o céu, agora amarelo, começa a cegar os olhos, ainda se vê uma faixa azul abaixo dele. Um azul dourado, como se tentasse copiar o brilho de cima, com um sucesso apenas parcial. E, ao competirem o céu e o mar pela maior beleza, quem ganha são os ávidos olhos, que não perdem um segundo dessa bela vista.

O sol espreguiça-se, antes de acordar. Logo, o mundo acordará também, por causa dele. E eu ainda nem dormi.


* Conheça o projeto literário Palavras de Papel.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Espectadora

De repente, ouço um barulho. Fiquei quieta, não queria que ninguém atrapalhasse o santuário de solidão que eu tinha construído naquela madrugada. Mas parece que eu não era a única que não conseguia dormir. Olhei pra perto da porta e consegui ver quem era. Henrique e seus fascinantes olhos negros. Mas não estava sozinho. Flávia estava pendurada pescoço dele, puxando-o para si. Eles estavam em trajes de banho e iam para a piscina. Comecei a me sentir mal. Deveria ter ido dormir, como todo mundo, em vez de ficar curtindo a usual insônia. Agora teria que esperar e ser obrigada a assistir ao romance dos dois.

Flávia pulou na piscina e Henrique fez o mesmo. Mergulharam e ela o abraçou, mas ele soltou-se sutilmente e nadou para o outro lado. Ela logo o alcançou e prendeu-o contra a borda. Os corpos estavam molhados e unidos. Os gestos dela deixavam claras suas intenções e ele não me pareceu querer recusar. Afinal, ela era tudo o que ele poderia querer, não? Era tudo o que um homem poderia querer.

Ela estava de costas para mim e Henrique de frente para ela. Falavam baixo, sussurrando. Como crianças. Ou amantes. Meu coração pareceu perder um compasso e eu comecei a sentir minha respiração faltar. Antes que pudesse presenciar algo que não me interessava nem um pouco, aproveitei um instante em que eles estavam distraídos e corri para dentro da casa. Antes de fechar a porta, porém, não consegui evitar e arrisquei um olhar para trás. Não tenho certeza, mas tive a impressão de ver dois olhos muito negros me fitarem. Preferi não pensar; entrei no quarto depressa e, debaixo do meu cobertor, respirei fundo.

E comecei a chorar.


* Conheça também o projeto Palavras de Papel.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Menininha

— Oi.

Com o susto, os olhos úmidos da menina se arregalaram e procuraram nervosamente a origem da voz. Vinha do outro lado da cerca, de onde aparecia somente a cabeça de um menino de cabelos lisos despenteados e olhos cinzentos. Ela não gostava de chorar na frente das pessoas e ficou com vergonha do seu espectador.

— Quem é você?

— Sou seu vizinho. Meu nome é Lucas.

Ela não disse nada. Com os olhos, procurou sua babá, que havia desaparecido, antes do surgimento da cabeça inconveniente por cima da cerca-viva.

— Qual é o seu nome?

Ela voltou a olhar para ele, sentindo-se um pouco contrariada, tanto pela insistência do garoto, quando pelo sumiço da babá.

— Cecília.

— Seu irmão está doente, não é?

Os olhos de Cecília encheram-se de água e ela mordeu o lábio, fazendo força para não chorar.

— Não, ele está bem — ela disse, com grosseria.

Lucas ficou confuso.

— Não foi o que a minha mãe disse.

— Ele só está dormindo — Cecília apressou-se a explicar. — Ele vai acordar logo.

E com a escassa sabedoria de sua pouca idade, Lucas entendeu. E teve pena.

— Claro que vai.

— Ele sempre dorme muito, é normal.

— Ele deve gostar muito de você.

— Não sei, ele gosta de esconder minhas bonecas.

— Ah, aposto que é só de brincadeira. Pode perguntar à sua mãe, ela vai dizer.

O bico que Cecília fazia para não chorar ficou maior.

— Minha mãe não fala.

Lucas inclinou a cabeça pro lado.

— Ela é muda?

— Ela não fala nada desde que Nathan começou a dormir.


"Menininha, você e eu sabemos

Que as tristezas vêm e vão e só as cicatrizes ficam

Você voltará a dançar outra vez

E a dor terá fim."


* Conheça também o projeto Palavras de Papel.


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Pescador de Estrelas

- Fisgou!

- Agora puxa! Recolhe a linha!

- Calma, está pesada.

- Vai! Você vai deixá-la escapar!

- Ela está se debatendo muito.

- Puxa logo de uma vez!

- Não, senão parte a linha.

- Está demorando, ela vai se soltar.

- Não vai, não. Logo ela cansa de resistir.

- Ainda acho que a gente devia ter usado a rede.

- Sem graça. Cadê seu espírito esportivo?


Passamos a vida a perseguir estrelas. Alguns tentam o caminho mais fácil; outros vão pelo mais difícil e trabalhoso. Há um certo valor naqueles que lutam arduamente por seus sonhos. A maneira de conquistá-los, quem escolhe é você.


"Aonde vá, vá para ser estrela

E onde quer que eu esteja

Vou ver o teu sinal."


* Conheça também o projeto Palavras de Papel.

sábado, 9 de agosto de 2008

Um de nós

Da minha janela, vejo um balanço, no playground do parque. Aquele lugar me traz recordações, belas recordações. Há uma semana não vou até lá e, desde então, é a primeira vez que boto a cabeça pra fora da janela para observar. Não consigo evitar uma lágrima teimosa. Apenas mais uma, das tantas que já derramei, nesses últimos dias.

Foi naquele parque que nos conhecemos. Eu estava sentada no balanço, amarrando os cordões dos meus tênis, quando o vi passar, com seu cachorro. Notei que, quando o animal latiu para mim, ele me olhou, apenas com o canto dos olhos, e sorriu para si mesmo. Era orgulhoso, percebi. Eu também era. Mas Mike, o simpático cãozinho, não desistiu e latiu mais uma vez, chamando a atenção do dono para mim. E foi assim que nos conhecemos.

Começou bem, agradável, divertido; mas foi definhando, como uma rosa quando arrancada do pé. Depois de um mal entendido, nenhum de nós quis se explicar, nem ir atrás do outro para que se explicasse. Tornou-se doentio; cada um competindo pelo prêmio de maior orgulho. Não houve vencedor.

Quando a coisa vai mal, alguém tem que tomar alguma providência. Foi assim que eu dei um fim a essa encenação toda: um de nós teve que ir.


One of us is lonely

One of us is only waiting for a call...

Sorry for herself, feeling stupid, feeling small

Wishing she had never left at all

(ABBA - One of Us)


* Conheça também o projeto Palavras de Papel.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Um olhar

Não era noite, não era uma festa. Sequer era um dia incomum. Havia acordado com muito sono e cumpria minha rotina, como sempre. No lugar onde eu chegava, as pessoas não se olhavam, nem conversavam. Não havia muitas pessoas; ainda era cedo. Era uma sala de espera. Fria e branca. Estéril. Desinteressante.

Eu saía do corredor, quase correndo, atrasada, pensando no pouco tempo que teria para tomar banho e chegar ao trabalho. Percorri a sala até a metade, quando vi um olhar, por trás de uma folha de jornal. Um olhar desconcertante. Continuei andando, sem conseguir desviar o olhar e sem tampouco conseguir enfrentar. Abri a porta e saí para a rua.

Ostentava minha rotineira cara de sono e não estava bem vestida. Usava uma velha roupa de ginástica e os cabelos precariamente presos numa trança. Olheiras, cara lavada. Sem adereços. Um guarda-chuva, uma agenda e um celular na mão. E aquele olhar no pensamento.

Não me apaixonei, nem parei ou voltei para ver se algo acontecia. Mas admito que fiquei pensando e revivendo aquela cena. Ninguém nunca me olhara daquela maneira antes.


* Conheça também o projeto Palavras de Papel.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Sonho de Consumo

Numa conversa, das poucas sérias que tenho com meu irmão, surgiu o assunto "sonho de consumo". Estávamos no carro, indo para casa, quando eu vi um New Beetle passando e comentei que era o sonho de consumo de um amigo nosso. Fiquei pensando e acabei descobrindo que não tenho nenhum. Sonho de consumo, digo. Também não tenho nenhum New Beetle, mas enfim...

Comecei a pensar o quanto é superficial a pessoa ter um sonho de consumo. Por que ela não pode apenas ter um "sonho"? No mundo em que estamos hoje, é comum ter sonhos de consumo, enquanto os sonhos de verdade são deixados de lado em função de tarefas menos prazerosas que vão lhe trazer mais dinheiro. Tudo para conseguir meios de ter os tais sonhos de consumo.

Meu irmão concordou comigo e depois de discutir bastante, disse o seguinte:

- Eu tenho 3/4 do meu único sonho de consumo.

Eu estranhei, pensei mil coisas e acabei perguntando:

- É? Por que 3/4?

- Porque 1/4 eu já comi.

Eu olhei pra minha mão, onde estavam 3/4 de um sonho de padaria que ele pediu que eu segurasse, enquanto dirigia. Definitivamente, não dá pra falar sério com meu irmão.


* Conheça também o projeto Palavras de Papel.