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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Momentos e música*

Uma vez, alguém me disse: "não associe uma música a alguém" e eu sempre soube que essa pessoa tinha razão. Mas é difícil; a gente termina associando tudo nessa vida e eu sou dessas que associa tudo a música. Então basicamente esse é um desafio que eu nunca cumpri. E esse é um dos motivos pelos quais eu choro por tudo, por nada. Esse e o fato de eu ser mole mesmo. O problema é que, por já ter nela meio intrínseco esse componente emocional, a música meio que preenche as lacunas de sentimento que falta. Aí a gente traz para junto, para dentro, para a vida. Associa. Perde e chora.

Uma vez, aconteceu de eu gostar muito de uma pessoa que me emprestou um CD. Só que a pessoa não gostava tanto assim de mim e isso foi bem ruim. Foi embora, mas as músicas do CD ficaram. Passei muito tempo para conseguir dissociá-las da pessoa, ainda mais porque elas só falavam em sentimentos fortes, amor e perda. Consegui, enfim, desligar as músicas da pessoa, mas elas ficaram irrevogavelmente ligadas àquele momento.

Hoje, eu sinto um grande carinho pelas músicas. Hoje, elas não machucam. Acho que ligar música a momentos faz essa coisa de associar música a pessoas daquele momento ser mais suportável. Momentos criam saudades saudáveis, fazem parte da nossa vida e, mesmo que doa, a dor ameniza e a lembrança fica. A música fica e adquire um sabor melancólico. A música fica com o momento e permanece. E os momentos são nossos. As pessoas, elas não são de ninguém.
"And the songbirds are singing

like they know the score"


Imagem: Flickr - Creative Commons
Música: Songbird
*Texto publicado em 2014

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cedo demais*

Ele era um cara legal. Ela sabia bem disso. Era educado, inteligente, sensível e tudo o que uma garota poderia querer. Mas era cedo, muito cedo para se envolver com alguém ainda, apesar de sua melhor amiga viver dizendo que não era assim tão cedo. OK, já fazia quase um ano. Um longo ano, de sofrimento eterno, dor e frio. Mas o que era um ano, o que era uma década, ou mesmo um século, para curar a decepção de uma vida?

Ele ligara mais cedo e a chamara para sair. Ela tentara recusar, mas simplesmente não tinha mais desculpas. Não era como se não estivesse interessada; sabia que se interessaria bastante, em condições normais. Mas, naquele momento, não tinha vontade de sair com ninguém, não conseguia se animar com nada mais. Não tinha forças para perseguir nenhum sonho, nenhum ideal. Faltava ânimo para sair daquele buraco em que se tinha enterrado.

Mas, então, fizera um esforço e saíra com ele. Era o que todo mundo exigia: um esforço da parte dela, uma tentativa de melhorar. E ela foi lá e fez: jantaram, conversaram, riram e ele a deixara em casa, no final da noite. Ele era mesmo um cara legal. O esforço, porém, esvaíra o resto das suas energias e ela voltara para casa esgotada. Lágrimas silenciosas começaram a deslizar por seu rosto no exato momento em que, depois de dizer adeus, fechara a porta do carro dele. Não era a hora, ela dissera. Talvez nunca seria.

Ele poderia ser o amor da sua vida. Poderia ser o companheiro ideal, o escolhido, o certo; mas era cedo demais. Ela não sabia quanto tempo levaria. E ele não esperaria para sempre.

"I'll be there as soon as I can
But I'm busy mending broken pieces
of the life I had before"

Imagem: Flickr - Creative Commons
*Texto publicado em janeiro/16

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Um mundo em duas palavras

Ele era o tipo de pessoa que só dizia o necessário. Ela, pelo contrário, falava tanto que dizia até mesmo o que não devia. Eram diferentes, ao mesmo tempo em que se completavam. Os intermináveis monólogos dela preenchiam os momentos de silêncio em que ele tentava não pensar nos próprios problemas. E ria das queixas dela, das histórias, do sarcasmo. Sorria, quando devia estar aborrecido com os acontecimentos do dia. Engraçado que nunca tinha sido um bom ouvinte, mas descobrira que a voz dela o acalmava como nenhum outro tranquilizante.

Ela sabia que ele não era de muitas palavras, mas não porque não tivesse o que dizer. Sabia, porque ele opinava algumas vezes, quando discordava de uma colocação qualquer, ou quando falava sobre alguma coisa que precisava ser resolvida. Mas geralmente deixava que ela falasse. Ela nunca tinha certeza se ele estava realmente ouvindo, mas seus olhos eram sempre atentos. Ele sabia que ela descarregava as preocupações falando, que conseguia um alívio momentâneo, mesmo que não pensasse realmente tudo o que deixava escapar. E, por isso, ele ouvia. Sem mudar de assunto, sem interromper.

Às vezes, ela achava que o chateava com a falação constante. Certo dia, encontrou-o com olhar tão distante que, no nervosismo de tentar fazê-lo sorrir, desandou a falar demais. Depois, considerou que devia ter perguntado se ele queria dizer algo. Sabia que ele era uma pessoa de poucas palavras, mas falaria com ela, se precisasse. Certo?

Neste dia, torturou-se tanto que jurou por tudo ficar calada por um mês inteiro. Então percebeu um pequeno bilhete grudado na geladeira, escrito em post it amarelo. Apenas duas palavras:



Elas bastavam.

"More than words to show you feel
That your love for me is real"
 
Texto publicado em 2010.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Flores


Naquela manhã, foram tulipas. Tulipas brancas, frescas e totalmente fora de estação. Elisa não entendia tanta coisa ali que o fato de alguém ter encontrado tulipas num dia como aquele chegava a ser irrelevante. O que realmente a deixava admirada e confusa era esse alguém saber que ela adorava tulipas brancas mais que qualquer outra coisa.

Precisas como um relógio, as flores sempre chegavam pontualmente às sete. E, desde que começaram, nunca pulavam um dia. Ontem, vieram rosas brancas; anteontem, vermelhas. Sempre foram rosas, até aquele dia. Se ela se esforçasse, poderia até pensar em um punhado de pessoas que lhe pudesse ter feito aquele agrado, mas terminava sem se decidir por nenhuma. E essa era sua grande frustração: era incapaz de determinar com clareza quem poderia ser esse seu admirador.

— Mais flores, hein? — perguntou-lhe o seu vizinho de porta, ao chegar carregado de compras e vê-la parada no corredor, o ramalhete nas mãos.
— Sim, tulipas.
— Estou vendo. São iguais àquelas de plástico que ficam em cima da sua mesa.
Não lhe havia ocorrido tal semelhança. O vizinho encontrou as chaves da própria casa no bolso e enfiou na fechadura.
— Então, ainda não descobriu quem mandou?
— Não. É impossível. Pensei em todas as pessoas que conheço, mas nenhuma delas demonstra nenhuma atenção especial comigo.
— Nenhuma?
— Nenhuma.
— Bom, com certeza você está deixando escapar alguém.
— Talvez. Quem sabe eu sequer conheça essa pessoa.
— Você acha?
— Acho. Não sei. Bom, preciso entrar agora.
— OK. Qualquer coisa, sabe que é só chamar.
— Sei, sim, obrigada. Você é um amigão. Não sei o que faria sem você.
Disse isso e entrou.
A partir daquele dia, Elisa não recebeu mais flores.

Imagem: © Corbis
Texto postado em 2009

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Insensível

Longe de sentir o amor que tentei sugerir todo o tempo, senti apenas tédio. Olhei teu rosto, vi tuas lágrimas e não senti nada. Não menti, admiti a verdade: não te amo mais. Não te amava mais há muito tempo. Não pude esconder nada, naquele momento. Acuse-me de tudo, menos de ser insincera. Pudeste ler tudo em meu rosto e, ao perceberes minha expressão indiferente, terminaste indo-te embora. E eu, que não te amo, permaneci ali.

De longe, te vi lamber as feridas e tentar superar a dor. Aquela que tu sentiste e foi ínfima demais para me alcançar. A que surge quando o amor acaba, pondo fim a promessas e expectativas, planos e "felizes para sempre". A causadora da lágrima que cutucou o meu ombro, disse "adeus" e caiu aos meus pés.

Naquela despedida, eu estava distante. Sabia que me amavas e eu te feria. E de onde estava, só queria que tudo acabasse logo e me deixasse só, com meus pensamentos. Não tardou, tive meu desejo satisfeito: fiquei completamente sozinha, eu e meu coração de pedra.

E eu, que não mais te amava, chorei.

"And in her eyes, you see nothing
No sign of love behind the tears cried for no one"
--
Essa é uma postagem do tema 251. Seu primeiro término do projeto 642 coisas sobre as quais escrever.

Texto escrito em 2010.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Novo amigo

— Oi.
— Oi. Quer brincar comigo?
— Quero, mas acho que não pode.
— Por quê?
— Minha mãe disse que não pode.
— Ah. É que estou aqui sozinho faz tanto tempo! Queria alguém para brincar comigo.
— Eu queria brincar com você. Você parece legal.
— Posso ser seu melhor amigo, se você deixar.
— Mesmo?
— Claro! Podemos brincar de várias coisas: de pega-pega, esconde-esconde... Também podemos brincar de jogar uma bola, eu vou buscar e devolvo para você.
— Parece divertido.
— É muito divertido! Podemos fazer isso todos os dias.
— Não sei... Não sei se minha mãe vai gostar.
— Pergunta a ela.
— Tá, espera.

O menino saiu saltitando pela rua, atrás da mãe, que já havia andado um pouco durante o tempo em que ele observava a caixinha no canto da calçada. O pedido à mãe foi breve; a resposta, mais breve ainda. Ele voltou a olhar a solitária caixa na calçada, agora tristemente, dizendo adeus ao amigo que não levaria para casa. O novo amigo, que havia prometido tanto sem dizer nada. Fitava-o apenas, com seu expressivo olhar de cachorro.
 
 
Texto postado em 2012
Imagem: Flickr - Creative Commons

sábado, 12 de março de 2016

Investigação

Com todas essas evidências, não há mais dúvidas de que minhas suspeitas tinham mesmo fundamento. Esta investigação é inteiramente sigilosa e ninguém pode sequer desconfiar da natureza dos meus questionamentos, ao entrevistar os suspeitos ou conseguir mais pistas. Portanto, terei que continuar procedendo com todo o cuidado possível ou terei sérios problemas.

Ontem, adquiri a prova decisiva: a certeza do fato consumado. Interceptei uma chamada entre a principal suspeita e seu cúmplice, em que confessavam sua participação no caso. Resta agora saber onde o bagulho está escondido. Mas isso é apenas questão de tempo, pois já tenho uma vaga ideia do local onde o meliante costuma guardar seus ganhos.

Lupa em mãos, encontrei pegadas de lama no chão de madeira. O tamanho e o tipo do calçado condizem com o do suspeito. Há impressões digitais por todo o lugar, então procurei não me preocupar com elas. Apenas segui as pegadas, que terminaram num aposento acarpetado, mal iluminado. Entrei, olhando para os lados. Um barulho de água corrente veio de um banheiro anexo; sem dúvida o suspeito limpando evidências de seu corpo. Segui em direção ao móvel escuro, do lado oposto ao banheiro.

Eu tinha que ser rápido; arrastei uma cadeira, tentando não provocar nenhum som alto demais, e subi. Tinha que estar em algum lugar por ali. Pus a mão em cima do armário e toquei em algo liso. Meu toque fez ruído no pacote. Agarrei-o com ambas as mãos e conferi, afastando um pouco o papel que o cobria. Sim, era ele mesmo. Eu estava certo. Havia solucionado o caso. Coloquei-o de volta no lugar, guardei a cadeira e saí correndo do quarto.

---

— Querido, aposto que você vai adorar o seu presente de aniversário!
O menino olhou pra mãe, a carinha sorridente esbanjando orgulho.
— O jogo Scotland Yard? Claro que vou adorar!
— Hein? — A mãe arregalava os olhos, incrédula. — Mas será possível? Como você sempre descobre o que vai ganhar?
O dar de ombros dele foi exageradamente arrogante:
— Elementar, cara mamãe.


Texto publicado pela primeira vez em 2009.

Imagem: Flickr - Creative Commons

sábado, 5 de março de 2016

A janela

Aqui, do outro lado do mundo, trancado num cubículo frio e úmido, meu olhar se mantém fixo na única luz presente — uma janela acesa, no meio da escuridão. O único ruído audível é o dos meus dedos alcançando as teclas de um piano sem som. Apenas palavras são possíveis naquele angustiante contato; palavras silenciosas. Mas quase sinto a textura das suas mãos, quase sinto tocar seu rosto e ouvir seu riso fácil. E através daquela janela iluminada, posso ver seus olhos, numa foto tirada recentemente.

Levanto-me, abro um livro. Está escuro demais para ler. Olho o violão, mas desisto. Faltam-lhe duas cordas. Volto à janela e encaro seus olhos outra vez. Faço-lhe uma pergunta, mas a resposta não vem. Espero, assim como você sempre me esperou. Como anda sua vida? Seus amigos ainda devem insistir que não temos futuro; você deve estar cansada disso. Será que ainda espera? Você sabe que foi a necessidade que nos manteve separados, todo esse tempo, com tanto mar entre nós. As pessoas dizem para desistir, que a saudade tende a diminuir com o tempo. Bem, não a minha. Mas nada posso dizer quanto a sua.

A resposta não chegou. Talvez a rede tenha caído. Se eu tivesse outra coisa para fazer, talvez a angústia não me invadisse daquela maneira. Angústia e dúvida. Esperarei você voltar. E, um dia, atravessarei esse tanto de mar só para vê-la, apenas mais uma vez. Mesmo que você não queira mais me ver. 





"Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar…
Sei também quanto é preciso
Navegar, navegar…"







Texto publicado pela primeira vez em 2009

terça-feira, 1 de março de 2016

Conselhos

— Quem é ele?
— Um amigo.
— Só amigo? Do jeito que vocês dançavam, parecia muito mais.
— Ora, francamente...
— Sabia que o cara tem namorada?
— Sabia. E já disse que somos amigos.
— Vi o jeito que você olhava para ele.
— Não tenho que dar explicações a você. Não sou mais sua namorada.
— Estou falando como amigo. Não queria ver você sofrer.
Ela suspirou e baixou a guarda.
— Desculpa. Mas é sério, não tenho nada com ele.
— Ele faz seu tipo.
— Não faz. Ele é bonito demais.
— Está querendo dizer que eu não sou bonito?
Ela riu.
— Você não tem jeito, sabia?
Ele riu também.
— Sabia. Então, dança a próxima comigo?

Imagem: Flickr - Creative Commons

Texto publicado em 2010

domingo, 24 de janeiro de 2016

Acordando acordes

Sempre que ouvia os primeiros acordes do violão, ela corria para a varanda. Morava ao lado, a uma parede de distância; não podia vê-lo. Mesmo assim, sentava-se no chão frio e acompanhava o dedilhar das notas, quase visualizando a figura sentada numa cadeira, braços em volta do violão, olhos fechados, o som produzido desenhando uma paz evidente em sua expressão.

Podia imaginar os dedos longos tocando cada corda com firmeza, sentindo a tensão de cada uma, como se fizessem amor. Parecia conhecer cada acorde, cada som, como se o violão fosse parte dele. Tocava cada compasso como se os dedicasse a alguém. E ela gostava de sonhar que era pra ela. Que cada declaração feita pela melodia era pra ela.

Declarações, mas nem sempre havia letra. Era como um exercício, que ele repetia vez após outra. Estava claro que queria memorizar a sequência, mas parecia que tinha intenção de fazer o ar da noite decorar também. Ela não era o ar da noite, mas sabia tudo de cor. E continuava ali, invisível. Só queria que ele soubesse...

E ele, abraçado ao seu violão, alheio ao fato de que povoava os pensamentos de alguém sentado muito próximo, cantava um sentimento que não conhecia. Não sonhava com esse amor eterno de que falava a canção, só queria encontrar alguém que entendesse sua música. 

"Se, algum dia, eu vier ao clarão do luar
Cantando, e aos acordes de uma canção te acordar..."

Texto publicado em junho de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2016

Mentiras

Era mentira, eu bem sabia. Quanto mais ele falava, mais eu tinha certeza. Começou com uma história frouxa sobre problemas no carro, depois seguiu com uma lembrança vaga de ter se esquecido de abastecer. Arrematou com a desculpa da chuva. Sempre a chuva. Coitada da chuva.

Eu olhava aqueles olhos, que não mais sequer desviavam dos meus ao inventar acontecimentos, e cogitava há quanto tempo vinham tentando me enganar. Nunca conseguiram. Conhecia-os desde sempre; reconhecia-os no menino travesso da minha infância, que mentia pra mãe, pro pai, pra avó, pra professora. Naquela época, já ensaiava as histórias que diria, encontrava provas para incrementar, testemunhas para comprovar. Naquele tempo, eu era cúmplice das histórias, ria com elas, ajudava a criar. Éramos amigos. Acabei gostando dele assim. Desse jeito, mentiroso, impossível. Não sabia que passaria de companheira de aventuras à pessoa feita de idiota.

E eu fui idiota, desde o começo. Jamais o imaginei diferente, apenas não pensei nas consequências. Quanto à mentira, não foi a primeira e não seria a última. E sempre que, ao fim de tudo, ele dizia "te amo", eu pensava "não ama". Mas sorria. Quem o podia culpar? 
 
"He can only be if you believe what he tells you"
Imagem: stock.xchng

Postado pela primeira vez em junho de 2010

domingo, 16 de agosto de 2015

Página em branco*

O que antes me inspirava, hoje me causa medo: a página em branco, o papel que não será preenchido com nada. Torna cada vez mais real o vazio, a ausência de vida dentro de um corpo. A página de vida em branco. Pavor de parar em frente a um papel e me perder na ausência de linhas, na necessidade vã de expressão, nas minhas próprias ideias. Volta, inspiração. Não me deixa aqui sozinha, sem pensamentos bonitos, ou mesmo feios; sem sentimentos felizes ou miseráveis. Sem sentir. Sem palavras.

Saudade de escrever em qualquer pedaço de papel, no guardanapo do bar, no post it do escritório. Saudade de julgar-me livre. De compor uma letra de música sem muito esforço, sem parar para sentir, ou me perceber sentindo. Saudade de não precisar sentir, mas sentir tudo intensamente e deixar transparecer sem saber, em cada letra desenhada. Saudade de ter palavras na ponta da língua. Do lápis. Dos dedos. Do coração.

Saudade dele. Do causador da página em branco.




"Saudade... Quero arrancar essa página da minha vida."

Imagem: GettyImages


*Texto escrito em novembro de 2010

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Café*

Já o tinha visto entrar e sentar-se ao balcão, do outro lado do café. Parecia bem ocupado e passou os últimos quinze minutos falando ao celular, alternando-se entre alterado e paciente, aborrecido e delicado. Às vezes, fazia gestos vagos com as mãos e andava um pouco pelo recinto, depois voltava para o banco em que estivera sentado. Inicialmente, tinha apenas me despertado a curiosidade; depois observá-lo passou a ser um passatempo, uma distração agradável, naquele começo de dia de trabalho.

Era moreno, alto, não muito magro nem gordo demais, mesmo que não desse pra perceber ao certo por baixo daquele terno. Possuía um nariz reto, onde se amparava um par de óculos por sobre dois expressivos olhos azuis. Os cabelos eram castanhos claros e estavam um pouco compridos e desalinhados, como alguém que acabara de acordar. Mesmo assim, era surpreendentemente bonito. E quando, ao final do telefonema, ele sorriu e disse adeus, o sol lá fora me pareceu um pouco pálido, de repente.

Não sei quanto tempo fiquei ali, do outro lado do balcão, enxugando o mesmo copo, enquanto contemplava aquela bela figura. Pareciam-me horas, talvez dias. Então, ele levantou os olhos para mim, enquanto tirava alguns papéis de uma pasta, e eu fui obrigada a voltar o olhar para o copo.

— Com licença! Você poderia me servir um café?

Assustei-me com o som da voz dele. Depois percebi o quanto eu estava sendo estúpida; era óbvio que ele entrara no café para ser atendido.

— Certamente. Só um minuto, sim?

Ele não respondeu, nem eu esperava resposta. Abandonei a agradável distração e voltei ao trabalho. Peguei o pacote com o pó de café e comecei a despejar na cafeteira, enquanto passava distraidamente os olhos pelo balcão, à procura de uma xícara limpa. Arrumei a xícara e olhei o relógio, calculando quanto tempo faltava para sair a próxima fornada de biscoitos. Só mais alguns minutos. Os clientes costumavam gostar dos biscoitos. Enquanto esperava, lembrei-me de que precisava comprar farinha para fazer mais e providenciar...

— Por que tudo é tão complicado?

Desta vez, assustei-me com razão. Olhei para ele, com olhos arregalados, o pote de biscoitos quase vazio na mão, e não soube o que dizer. Devo ter feito uma verdadeira cara de idiota, pois ele apressou-se em se justificar.

— Desculpe. Você não tem nada a ver com isso. Eu estou um pouco aborrecido hoje.

— Não, tudo bem — apressei-me a dizer.

Ele me despertou uma ligeira curiosidade, agora de uma outra maneira. De repente, parecia ter algo mais por trás da beleza, dos olhos azuis e do terno escuro. E eu me vi esperando alguma explicação.

— Acho que estou enlouquecendo. Às vezes me pego falando sozinho. Agora mesmo, estou falando sozinho, pois não acredito que você esteja mesmo interessada ou prestando alguma atenção ao que eu digo.

— Ora, eu estou, sim.

Ele me olhou e deu um meio sorriso.

— Você é muito gentil.

— Obrigada.

— Quer dizer que estava mesmo prestando atenção?

— Acho que você está se sentindo sob pressão. Talvez um café não seja uma boa ideia. Não prefere um chá?

— Não gosto de chá. Mas aceito companhia enquanto tomo meu café. E um biscoito.

— Como quiser.

— Você não acha a vida complicada?

— Eu não disse isso.

— É, acho que não.

Era um tom de desdém que, de alguma maneira, me pareceu sarcasmo. Será que ele me considerava uma tola que não tinha preocupações? Pela primeira vez, tomei coragem e olhei-o nos olhos.

— Que desilusão tão grande o fez se revoltar com a vida dessa maneira?

Ele levantou as sobrancelhas por um momento, depois riu.

— Não é o que você está pensando.

— Não pode saber o que eu estou pensando.

— Você certamente está pensando que eu tenho algum problema com mulheres.

Imediatamente pensei na conversa que ele estivera tendo ao celular. É, ele sabia o que eu estava pensando.

— E não tem?

— Não. Bem, não nesse sentido.

— Ah... Está bem.

Não me convenceu. Bem, mas quem era eu para julgá-lo? Servi o café e outro cliente me chamou, do outro lado do balcão. Desculpei-me e fui atendê-lo. Quando desocupei outra vez, o cliente simpático já tinha ido embora. Suspirei e voltei ao trabalho.
 

* Texto escrito em 2009
 Imagem: Flickr - Creative Commons

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Distração*

No balcão do bar, ela chorava e ninguém entendia o que se passava. Fora largada ali mesmo por causa do seu mais insistente defeito. Mais incômodo.

Era recorrente: de repente, no meio de uma conversa qualquer, ela simplesmente se distraía com o som de um passarinho, ou de uma melodia ambiente. Era estranha a relação que ela tinha com a música. Nunca aprendera nenhum instrumento. Nunca teve talento para canto. Ela apenas tinha um apreço pela música que era acima do normal. E estaria tudo bem, se não interferisse na sua vida.

O problema era que, às vezes, estava realmente fazendo coisas importantes, quando se distraía com algum acorde. Às vezes, estava ouvindo uma ordem de seu chefe e o celular de alguém começava a tocar. Música. Perdia o resto da explicação. Terminava cometendo um punhado de erros, sem nem perceber. Agora, tinha sido o namorado, que começara uma briga quando, enquanto contava algo de seu dia, percebeu que ela não mais prestava atenção. E foi embora, deixando-a sozinha.

Ela sofria, enquanto considerava. Os namoros nunca duravam. Agora, no bar, uma ou duas doses de whisky depois, ela chorava a recente decepção. Então ouviu o som, o mesmo que a distraíra momentos antes. Não era mais música; naquele seu nível de tristeza, parecia mais que isso. Era lindo. À medida que as notas prosseguiam, sua tristeza ia diminuindo. E ela soube: havia um motivo pelo qual a música a distraía tanto. Nunca encontrara nada tão lindo quanto ela; nem a voz do chefe, nem o ex-namorado. Nem a dor era tão linda. Esqueceu-os.

"We've been together for such a long time now
Music and me"

Imagem: Be Quiet

--
*Texto publicado pela primeira vez em fevereiro de 2011

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Relato de um assassino*

É preciso ter sangue frio. Ser calculista e, acima de tudo, não se deixar abalar por sentimentalismos inúteis. As emoções não devem existir; pena, compaixão, arrependimento. A única coisa que se permite sentir pela vítima é desprezo. Talvez um prazer insano durante o ato, típico daqueles que estão acostumados a tirar vidas.

É o que sinto agora, enquanto corto cada parte de seu corpo, separando os pedaços, retalhando. É mais interessante quando é violento, sangrento. Você agoniza, mas não morre. Ainda. A lâmina afiada torna a investir contra o seu corpo, repetidamente, com força, com insistência. Minha expressão continua impassível, mesmo quando cravo os dentes na pele, estraçalhando a carne. O sangue continua a jorrar e se espalha pelo chão, manchando tudo em volta com um curioso tom de vermelho-berrante.

Um sorriso amargo surge em meu rosto. Sei que está morrendo. Quero que esteja; preciso que esteja. Apesar disso, sinto ainda o pulsar da vida dentro do corpo frágil. Cerro os dentes. Não sei mais o que fazer.

Matar você dentro de mim tem sido uma tortura. Dói mais em mim que em você.

"I've learned to live half alive"

*Texto publicado pela primeira vez em 2008 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Nostalgia*

Anos depois, nos encontramos. Eu o avistei primeiro, conversando e rindo com um punhado de amigos, do outro lado da calçada. Fazia tempo, então demorei um pouco reconhecendo os traços, analisando a postura, a risada familiar. Era o mesmo som claro e descontraído de que eu me lembrava. Mas eu só tive certeza quando nossos olhares se cruzaram.

Nesse instante, senti tudo voltar. Tudo; nossos planos, nossos sonhos, as noites em claro falando ao telefone. Começávamos sussurrando, para não acordar nossos pais. Levando bronca deles a cada gargalhada alta que saía sem querer. Nunca fomos muito silenciosos, nenhum dos dois. Competíamos pela hora de falar, cada um querendo contar as novidades do dia, mesmo querendo saber do outro. E, na disputa sem sentido, acabávamos aumentando o volume da voz sem perceber. Daqui a pouco, estávamos berrando e gargalhando em plena madrugada.

Nunca fomos discretos. Éramos impossíveis, assim diziam no colégio. Achamos divertido, na época. Nossos sonhos combinavam, assim como nossos temperamentos. Adorávamos a vida, a aventura. Acreditávamos plenamente na felicidade que conquistaríamos juntos. E conquistamos, por algum tempo.

Vi você sorrir tantas vezes, naqueles dias, e vi você sorrir agora, anos depois. Era o mesmo sorriso, embora melancólico agora. Era também o mesmo sorriso que eu sabia tomar forma em meus lábios. Sorrisos de quem tem muita história e nenhum assunto. Foi recíproco, não tentamos nos falar. Apenas nos olhamos, nos reconhecemos e fomos embora. Cada um pensando em como teria sido.

"Já faz tempo, eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
 Essa lembrança é o quadro que dói mais"

Imagem: GettyImages
Música: Como nossos pais

*Texto publicado pela primeira vez em 2010.

domingo, 18 de novembro de 2012

Para recordar: Um mundo em duas palavras

Duas pessoas diferentes. Duas pessoas que se completam.


Um conto sobre palavras: não ditas, a dizer, faladas até a exaustão. Palavras escritas. Um conto sobre convivência, defeitos e compreensão. Um conto sobre amor. Um amor real, não aquele dos contos de fada. Um amor que resiste ao tempo. Um amor que existe. Um amor em que eu acredito.


Comentem. Compartilhem. Amem.

Imagem: Flickr

domingo, 11 de novembro de 2012

Para recordar: Relato de um assassino

Houve aquele dia em que você quis matar alguém. Talvez não tenha pensado nisso seriamente, ou não teve realmente vontade de matar; apenas sentiu muita raiva. Ou talvez tenha tido tanta vontade que até calculou as melhores maneiras de cometer o assassinato, maneiras de fazer sofrer, de fazer sumir... Mas não o fez.

Esse conto é sobre alguém que fez.



Curtam. Comentem. Compartilhem.


domingo, 4 de novembro de 2012

Para recordar: Distração

Nessa vida, a gente lida com todo tipo de pessoas. Provavelmente, você já se deparou com aquelas bem distraídas, que perdem o foco por besteira; por causa de uma muriçoca que porventura pouse em seu braço e, então, interrompe a conversa, sem cerimônia nenhuma, para dar um tabefe na dita-cuja (guilty! o/ matar muriçoca é irresistível).


Mas existem aquelas pessoas que só se distraem com coisas específicas, algo que as interesse de verdade. Neste conto, há alguém assim:


Bom devaneio.

domingo, 28 de outubro de 2012

Para recordar: Mentiras

A capacidade de acreditar nas próprias mentiras. Fico pensando no quanto as pessoas, às vezes, não precisam de outras para serem enganadas. Quantas vezes mentem para si mesmas, para se sentirem bem, ou para conseguirem fazer coisas com que, normalmente, não concordariam? E se perdoam depois, por se convencerem de que agiram certo? A honestidade, porém, deveria começar dentro da gente.



Texto do dia:

E você? Já foi honesto consigo mesmo hoje?