
terça-feira, 3 de maio de 2016
Flores

terça-feira, 1 de setembro de 2009
Em frente
Todos os dias, a caminho de casa, passava pela frente da casa dele. Era uma bonita casa e ela a conhecia bem, por fora e por dentro, tantas foram as vezes em que estivera lá. Lançava um olhar por puro hábito e, quando percebia que estava novamente olhando naquela direção, desviava o olhar, praguejando. Quase sempre ia para casa sozinha, então passava o resto do caminho inteiro amaldiçoando-se.
É um costume bem comum, o de olhar na direção de lugares conhecidos. Você deve fazer isso e eu confesso que também faço. É como um sinal de reconhecimento. Mas, para esse lugar específico, ela não gostava de ficar olhando. Para ela, era como um sinal de fraqueza, como se desejasse vê-lo. O fato é que realmente desejava vê-lo, mas não podia admitir, nem para si mesma. Tudo estava acabado e já há tanto tempo. Não tinha sentido ficar desejando ver uma pessoa que já não mais fazia parte da sua vida. Nem deveria.
Afinal, o que faria se o encontrasse? Enfrentaria e diria tudo o que estava engasgado? Viraria o rosto, ignorando? Não via vantagem em nenhuma das opções. Estava acabado, afinal. Por que ficava se martirizando, remoendo lembranças passadas, alimentando esperanças vãs? Gostaria de não precisar passar por aquela rua, mas então teria que pegar um caminho mais longo e esquisito. E por uma bobagem.
Como de hábito, resmungou baixinho e começou a interminável sessão de maldições a si própria, quando se lembrou de que, desta vez, não estava indo para casa sozinha. Um amigo do trabalho a acompanhava.
— Hein? Falou alguma coisa, Elisa? — seu acompanhante perguntou.
— Não, não. — Ela sentiu-se um pouco constrangida. — Desculpe, estava só pensando alto.
— Ah.
De repente, o amigo apontou algo do outro lado da rua, o oposto de onde estavam os pensamentos dela, e disse, sorrindo largamente:
— Olha lá, Elisa. Não é lindo?
Era um muro. Quando ela começava a se perguntar o que teria de tão interessante num simples muro, ele puxou-a pela mão para atravessar a rua. O muro estava cheio de desenhos em grafite e inscrições. Encantada pelas cores, ela começou a se perguntar como nunca vira aquele muro antes. A resposta formou-se claramente diante dos seus olhos, na forma de uma citação em letras desenhadas, escrita no muro: “Enfrente sem olhar para trás.”
Deste então, todos os dias, a caminho de casa, Elisa admirava um muro de inspirações. E não mais olhava para trás.
Foto por Kaka
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Flores

Naquela manhã, foram tulipas. Tulipas brancas, frescas e totalmente fora de estação. Elisa não entendia tanta coisa ali que o fato de alguém ter encontrado tulipas num dia como aquele chegava a ser irrelevante. O que realmente a deixava admirada e confusa era esse alguém saber que ela adorava tulipas brancas mais que qualquer outra coisa.
Precisas como um relógio, as flores sempre chegavam pontualmente às sete. E, desde que começaram, nunca pulavam um dia. Ontem, vieram rosas brancas; anteontem, vermelhas. Sempre foram rosas, até aquele dia. Se ela se esforçasse, poderia até pensar em um punhado de pessoas que lhe pudesse ter feito aquele agrado, mas terminava sem se decidir por nenhuma. E essa era sua grande frustração: era incapaz de determinar com clareza quem poderia ser esse seu admirador.
— Mais flores, hein? — perguntou-lhe o seu vizinho de porta, ao chegar carregado de compras e vê-la parada no corredor, o ramalhete nas mãos.
— Sim, tulipas.
— Estou vendo. São iguais àquelas de plástico que ficam em cima da sua mesa.
Não lhe havia ocorrido tal semelhança. O vizinho encontrou as chaves da própria casa no bolso e enfiou na fechadura.
— Então, ainda não descobriu quem mandou?
— Não. É impossível. Pensei em todas as pessoas que conheço, mas nenhuma delas demonstra nenhuma atenção especial comigo.
— Nenhuma?
— Nenhuma.
— Bom, com certeza você está deixando escapar alguém.
— Talvez. Quem sabe eu sequer conheça essa pessoa.
— Você acha?
— Acho. Não sei. Bom, preciso entrar agora.
— OK. Qualquer coisa, sabe que é só chamar.
— Sei, sim, obrigada. Você é um amigão. Não sei o que faria sem você.
Disse isso e entrou.
A partir daquele dia, Elisa não recebeu mais flores.
Imagem: © Corbis
sábado, 25 de julho de 2009
Nunca para ela
Inglaterra, século dezenove. Um casal encontrava-se numa colina verde, ao romper da aurora, ambos sem conseguir dormir. Sorriam, olhavam-se, tocavam-se. Não esperavam aquele encontro, mesmo que parecesse ter sido marcado previamente. E beijaram-se apaixonadamente, causando um leve suspiro. Eles jamais ouviram esse suspiro, que veio do fundo no peito de uma terceira pessoa, que os observava.
Ela estava sentada num sofá, contemplando atentamente o desenrolar confuso da história dos dois namorados, confiando na possibilidade de um final feliz. E o final feliz começava a se delinear na esperada cena do beijo que ambos, enfim, compartilhavam. Torcia fervorosamente por aquele casal havia anos, que, na verdade, correspondiam a exatamente duas horas e trinta minutos. E parecia que, finalmente, eles se acertavam.
Não era o primeiro casal cujo relacionamento progredia perante seus olhos; só naquele dia podia contar quatro. E, junto com as donzelas, ela se apaixonara por cada herói, com cada gesto, cada palavra. Daquela vez, ele fazia bem o seu tipo; moreno, olhos cor de mel, alto, forte. No final, ela nutria até certa dose de ciúme do par tão perfeito; mas, podia se conformar, pois seu amor estaria nos braços de alguém que, sabia, amava-o também. E, assim, ficava satisfeita, mesmo que se sentisse vazia.
O som do telefone interrompeu seu devaneio, como um balde de água gelada:
— Oi, Elisa, sou eu. Estava preocupado com você, nunca mais a vi.
— É… Não tenho saído muito.
— Será que… Gostaria de dar uma volta, tomar alguma coisa?
— Na verdade, estou meio ocupada agora.
— Ah… Certo. Marcamos outra hora, amanhã talvez…?
— É, pode ser. Olha, preciso desligar.
Sim, pois naquele momento começava outro romance. Desta vez, se passava na Irlanda, terra desconhecida e romântica. Seus olhos atentos refletiam aquela luz azulada e uma lágrima, também azul, brotava de seus olhos e começava a rolar por sua face.
— Eu te amo. — Uma voz masculina vinda da tela fez-se ouvir, numa declaração solene e apaixonada.
Mas não para ela. Nunca para ela.
