terça-feira, 30 de setembro de 2014

Tolerância

Nunca fui das pessoas mais tolerantes do mundo. Às vezes, até acho que uma leveza a mais na minha vida poderia me fazer algum bem, mas o fato é que nunca consegui. Não tenho nenhuma paciência para muitas das coisas comuns do dia a dia; de aturar pessoas, de ser simpática, de acordar sorrindo e dando bom dia, de ter encontros. Não tenho realmente problema para lidar com gente, só não é sempre que tenho paciência. E mesmo com todo o mau humor, não tenho muito problema com as pessoas gostarem de mim, mas sim em gostar das pessoas.

Vendo assim, muitos podem pensar que sou antissocial. Não sou. Ou pensarão que não tenho muitos amigos. Tenho. Ou que tenho dificuldade em dialogar. Não tenho. Sou normal, se você for olhar de fora. Olhando de dentro, ninguém é normal. Só você mesmo sabe as merdas com que tem que lidar todo dia para expor o que quer que deva ser exposto para o mundo. Eu sou muitas coisas, dentro e fora. E não tenho paciência com isso.

Ocorre que tem ficado pior. Você nunca pensa que pode ficar pior, mas fica. Você acha que passa, mas não passa. A paciência só volta quando algo dá certo, por milagre. Mas quando tudo dá errado, não sobra nada. Respiro. Quero ir embora. Bate o desespero. Só quero me manter por um tempo na minha pequena bolha de conforto, sem ser incomodada. As cobranças vêm e são cruéis. Desestabiliza.

Claro que toda intolerância deveria ser trabalhada. Eu venho sempre tentando. Mas, por ora, só queria ficar na minúscula bolha de conforto. Até quando sair dela se torne uma aventura, não mais um martírio.


Imagem: Flickr - Creative Commons


domingo, 28 de setembro de 2014

The vow

Acabei de assistir a um filme chamado Para Sempre (The Vow, 2012). Não esperava muito, não li sinopses, mas sabia que não era uma comédia romântica, e sim um romance meio melancólico. É a história de uma mulher que perde a memória depois de um acidente e termina não lembrando mais do próprio marido, tendo que reconstruir a vida sem saber se a memória vai voltar. O marido, apesar disso, não desiste dela e começa o plano de reconquistá-la de novo. É bem triste tudo isso, apesar de eu acabar gostando do filme. Mas, independente de ser o filme bom ou ruim, de eu ter gostado ou não, ele me fez pensar em algumas coisas, que nem são exatamente o que o filme tem intenção de fazer pensar. Não são mandamentos, nem constatações, apenas coisas que eu pensei ser importante escrever.

(1) Depois do acidente, a personagem só conseguiu retomar a vida dela, mesmo sem lembrar de nada, porque o marido sabia tudo sobre ela, da história dela antes de eles se conhecerem, do que aconteceu para ela ter mudado de cidade, brigado com os pais, mudado de profissão. Ela tinha uma pessoa que sabia tudo sobre ela, mesmo que ela não o reconhecesse. Fico pensando se alguém saberia tanto sobre mim dessa maneira, de modo a poder me dizer por que eu estou aonde estou hoje, caso eu perdesse minhas lembranças. E mais, se eu saberia tanto assim sobre alguma pessoa, para poder fazê-la se encontrar, caso ela não se lembrasse de mim.

Nunca acreditei em dividir tudo dessa maneira; sempre achei que as pessoas são seres individuais, que têm vidas à parte da outra, que não faz o menor sentido contar tudo, compartilhar tudo. Parecia mais dependência que um relacionamento de verdade. Hoje eu considerei que talvez eu estivesse errada. Fiquei pensando: se eu morresse amanhã, morreriam também todas as minhas memórias, tudo o que eu vivi, tudo o que eu acredito e tudo o que eu sempre quis dizer e nunca disse? Morreria minha história, porque ninguém saberia contar, porque fechei essas portas para todo mundo?

(2) Ele nunca desistiu dela, porque a conhecia a fundo e sabia o que nem ela sabia: que ela queria estar com ele. Será que alguém teria tanta certeza de mim, do que eu sinto, será que o que eu mostro todos os dias seria suficiente para alguém ter tanta fé em mim? E será que eu teria tanta certeza sobre alguém, mesmo quando a pessoa agisse mostrando o contrário?


(3) Ele decidiu reconquistá-la outra vez. Quantos estão dispostos a reconquistar a mesma pessoa todos os dias? O que eu mais vejo é gente tratar as pessoas que amam pior do que as outras, só porque a intimidade faz com que se acomodem e tenham certeza de que o outro não vai embora por qualquer arenga besta. É irônico quase. Ao invés de cultivar uma coisa boa, as pessoas mostram seu pior lado, porque sabem que o outro precisa aguentar. E de fato, precisa; mas não devia ser regra. É muito mais importante mostrar amor e vontade de tentar fazer dar certo todos os dias do que mostrar a parte ruim. Demonstrar com gestos que a pessoa é especial, importante, que foi escolhida entre tantas por ser a melhor pessoa do mundo, para você. Não por exclusão. É isso que faz a pessoa ter certeza de que você iria atrás dela, não importa o que acontecesse, mesmo que ela chutasse você para fora da vida dela. Porque você vale a pena.

Aí você pensa: ah, mas esse filme deve ser bom mesmo para fazer pensar tanto. O filme é bonzinho, para quem gosta do estilo (tem no Netflix, caso se interessem), mas acho que só estou num momento em que não está sendo difícil me fazer pensar sobre a vida, o universo e tudo mais. Coisas que você não pensa muito, quando está distraído com o seu próprio umbigo. E antes que digam "é só um filme", ele foi baseado num livro e numa história real.

Ainda tem a frase abaixo para fazer pensar; mas esse seria outro assunto, que prefiro falar depois, senão o post vai ficar imenso.

"My theory is that, these moments of impact, these flashes of high intensity that completely turn our lives upside down actually end up defining who we are." The vow

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Risos: Equal Rites

O título do livro em português é "Direitos iguais, rituais iguais", mas convenhamos que o título em inglês é muito mais legal; sem escancarar o trocadilho assim, de graça. Equal rites é o terceiro livro da série fantástica Discworld, de Terry Pratchett, autor de vários livros dessa mesma série (que já vai pra mais de 20, alguns sem tradução ainda para português), além de um livro genial em parceria com Neil Gaiman, o Belas Maldições.

Apesar de gostar bastante dos livros de Pratchett, sempre achei que ele enrolava demais descrevendo coisas engraçadas do mundo, criativas, mas sem muita importância, e deixava os livros arrastados. Os dois primeiros Discworld são, para mim, um exemplo de como alguém pode escrever tanto em cima de quase nenhuma história. Quando comecei a ler este terceiro e percebi que os personagens não eram os mesmos, já fiquei mais feliz. 

A história é sobre Esk, uma menina de 9 anos que herdou o bastão de um mago. O problema é que nunca houve na história do Discworld uma maga mulher. Havia bruxas, mas nenhuma maga. Apesar disso, a magia — que neste mundo é quase um ser vivo muito perigoso, algo meio radioativo, que não consegue ficar muito tempo contido num só corpo — começa a agir tão estranhamente em volta de Esk que a tutora dela, que queria fazer dela uma bruxa e tem muito preconceito contra magos, resolve levá-la para estudar na Universidade Invisível, onde ela se tornaria uma maga. Isso é, se ela fosse aceita.

Diferente dos outros dois livros, achei Equal Rites detalhado na medida certa, sem ser chato em nenhum momento, com um ritmo aceitável para um livro de fantasia e a ironia e criatividade características de Terry Pratchett. A personagem de Esk é muito interessante, mas queria dar ênfase à personagem da Vovó Cera do Tempo, a tutora dela, que se saía várias vezes com frases de sabedoria muito boas. Além do bastão de Esk, que tem a personalidade tempestuosa e perigosa parecida com a do baú, dos primeiros livros, e terminou sendo meu 'personagem' preferido.

O livro inteiro é bastante sarcástico, engraçado, sem ser bobo, assim como todas as coisas escritas por Pratchett. Por algum feliz motivo, ele foi comedido em falar sobre coisas de fora da história, mantendo-se firme no propósito de terminá-la sem sair muito da linha. Só foi ruim que eu perdi o timing do desafio e só consegui resenhar agora, mas era para o desafio de agosto. Enfim, antes tarde do que nunca.

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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog da Tadsh. O tema de Agosto é "Risos": ler e resenhar um livro que me faça rir. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.