domingo, 16 de agosto de 2015

Página em branco*

O que antes me inspirava, hoje me causa medo: a página em branco, o papel que não será preenchido com nada. Torna cada vez mais real o vazio, a ausência de vida dentro de um corpo. A página de vida em branco. Pavor de parar em frente a um papel e me perder na ausência de linhas, na necessidade vã de expressão, nas minhas próprias ideias. Volta, inspiração. Não me deixa aqui sozinha, sem pensamentos bonitos, ou mesmo feios; sem sentimentos felizes ou miseráveis. Sem sentir. Sem palavras.

Saudade de escrever em qualquer pedaço de papel, no guardanapo do bar, no post it do escritório. Saudade de julgar-me livre. De compor uma letra de música sem muito esforço, sem parar para sentir, ou me perceber sentindo. Saudade de não precisar sentir, mas sentir tudo intensamente e deixar transparecer sem saber, em cada letra desenhada. Saudade de ter palavras na ponta da língua. Do lápis. Dos dedos. Do coração.

Saudade dele. Do causador da página em branco.




"Saudade... Quero arrancar essa página da minha vida."

Imagem: GettyImages


*Texto escrito em novembro de 2010

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Às mulheres que não amam as mulheres

Faz algum tempo que estou enrolando para escrever um texto sobre feminismo e sobre tudo que venho sentindo e aprendendo, nos últimos tempos. Eu sempre tive uma tendência feminista, mas aceitava o machismo como uma característica imutável da sociedade. Aceitava em mim, em algumas maneiras de pensar; aceitava nos outros, talvez porque não quisesse ser chata, extremista, ou porque não pensava muito nessas coisas. Mas então, um dia, você se depara com o julgamento que oprime, com as atitudes que invadem, com o machismo que mata. E você, sendo mulher, homem ou qualquer outra coisa, percebe que está apenas sendo conivente, apoiando tudo isso. E, sendo mulher, entende que poderia estar no lugar de qualquer uma dessas pessoas.

Há menos de um ano, eu aprendi uma palavra chamada sororidade, que é a mesma coisa que fraternidade, só que entre mulheres. Frater é irmão e sóror, irmã. São mulheres que se uniram em busca de um objetivo em comum. E nessa união, não falo só de agir como um time, mas como uma família. É comum a gente ouvir que "amizade entre mulheres é diferente, sempre existe competição" e isso é mais um absurdo que a sociedade enfiou na nossa cabeça e nós acabamos acreditando. A sociedade, as novelas, as músicas. Não sei você, mas as minhas amigas não competem entre si; elas têm orgulho umas das outras por suas conquistas, são sinceras, se apoiam e se amam. É esse amor que venho procurando na minha vida, hoje. Nunca falo em feminismo como uma luta contra os homens, mas contra a sociedade machista e em benefício de todos. Depois que você começa a reparar, passamos a encontrar o machismo em lugares que nunca pensamos encontrar. Aí você escuta que "mas você também vê machismo em tudo". Não sou eu que vejo; ele sempre esteve ali. Assim como a homofobia, ou o racismo. Eles existem, mas ninguém vê, porque é "normal". Porque eles sempre estiveram ali.

Sororidade

Aí você vê mulheres lutando pelo direito de poder sair na rua sem ser incomodada com uma cantada, sem ter medo de que invadam seu espaço e passem a mão, sem ter medo de ser confundida com um pedaço de carne que está ali para ser comido. E você desdenha. Você, mulher, alega que nada que elas façam vai mudar a sociedade. Hoje, você pode votar, você pode trabalhar, pode morar sozinha, mas continua dizendo que a sociedade não pode ser mudada. Aí você vê uma mulher usando roupa curta e desdenha. Você vê uma mulher gorda e desdenha. Você reclama que estão fazendo protesto contra os comerciais que objetificam o corpo da mulher. Você reclama que alguém não achou graça de uma piada que diz que mulher não sabe dirigir e você também pergunta a uma amiga por que ela veio dirigindo, se o namorado estava disponível. Você pergunta por que ela paga a conta, se o namorado pode pagar. Você tem pena de mulheres que estão solteiras, porque mulher sozinha é encalhada, é porque ninguém quer. Ou porque é "exigente demais". Você condena uma amiga porque ela não quer ter filho, mas condena também se ela tiver e não souber criar direito: "por que teve, então?". Você também condena o aborto, porque, se a mulher fez besteira, tem que arcar com as consequências. Você odeia as amigas do seu namorado: "são todas putas". Você odeia as ex-namoradas deles também. Se ele as traiu, foi culpa delas, nunca dele. Ele nunca faria isso com você, porque você é diferente. Você entende homens que traíram as namoradas, porque homens são assim mesmo, enquanto chama de puta as mulheres que traíram seus namorados. Homens são vítimas de seus instintos, mulheres apenas são fracas ou putas. Se você xinga uma mulher, chama de puta, porque  liberdade sexual é condenável. Quando homens são imbecis, são filhos da puta, porque tem que o atingir xingando outra mulher. Ou chamando de "viado", comparando-o a uma mulher. Você chama feminista de "feminazi", comparando uma luta legítima, que nunca matou ninguém (pelo contrário!), a uma ideologia em que pessoas inocentes foram e ainda são assassinadas.

Amiga, você é machista. E não há nada mais triste que uma mulher machista, uma mulher que aceita obedientemente uma posição de inferioridade em relação aos homens. Mesmo que você não sinta essa inferioridade, que chame de outra coisa. O problema é que essa não é uma luta só sua; há pessoas que sofrem todos os dias com isso e você está prestando um desserviço a todas elas. É hora de repensar esses julgamentos, exercitar a nossa sororidade. Amemos mais as mulheres; nossas amigas, as amigas dos nossos amigos, as amigas dos nossos namorados. Até mulheres desconhecidas, na rua. Podemos nos ajudar a conquistar o nosso espaço. Aceitar os erros das outras, porque algum dia podem ser os nossos. Não é fácil, eu sei bem, porque vivemos numa sociedade que prega exatamente o contrário. Porque convivemos com pessoas que não pensam assim. Porque há até pessoas que dizem que machismo não existe, que você está exagerando. É um exercício diário. Mas podemos espalhar essa ideia e abraçar esse amor. O que temos a perder? Você vai ser mais crítica com o mundo, mas menos com as mulheres que a cerca. Você vai ganhar muitas amigas. Também vai encontrar apoio onde menos espera.


Amiga, machismo mata, todos os dias. E você pode estar sendo cúmplice apenas por não se importar, ou dizer que ele não existe.

Imagens: Flickr - Creative Commons

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Café*

Já o tinha visto entrar e sentar-se ao balcão, do outro lado do café. Parecia bem ocupado e passou os últimos quinze minutos falando ao celular, alternando-se entre alterado e paciente, aborrecido e delicado. Às vezes, fazia gestos vagos com as mãos e andava um pouco pelo recinto, depois voltava para o banco em que estivera sentado. Inicialmente, tinha apenas me despertado a curiosidade; depois observá-lo passou a ser um passatempo, uma distração agradável, naquele começo de dia de trabalho.

Era moreno, alto, não muito magro nem gordo demais, mesmo que não desse pra perceber ao certo por baixo daquele terno. Possuía um nariz reto, onde se amparava um par de óculos por sobre dois expressivos olhos azuis. Os cabelos eram castanhos claros e estavam um pouco compridos e desalinhados, como alguém que acabara de acordar. Mesmo assim, era surpreendentemente bonito. E quando, ao final do telefonema, ele sorriu e disse adeus, o sol lá fora me pareceu um pouco pálido, de repente.

Não sei quanto tempo fiquei ali, do outro lado do balcão, enxugando o mesmo copo, enquanto contemplava aquela bela figura. Pareciam-me horas, talvez dias. Então, ele levantou os olhos para mim, enquanto tirava alguns papéis de uma pasta, e eu fui obrigada a voltar o olhar para o copo.

— Com licença! Você poderia me servir um café?

Assustei-me com o som da voz dele. Depois percebi o quanto eu estava sendo estúpida; era óbvio que ele entrara no café para ser atendido.

— Certamente. Só um minuto, sim?

Ele não respondeu, nem eu esperava resposta. Abandonei a agradável distração e voltei ao trabalho. Peguei o pacote com o pó de café e comecei a despejar na cafeteira, enquanto passava distraidamente os olhos pelo balcão, à procura de uma xícara limpa. Arrumei a xícara e olhei o relógio, calculando quanto tempo faltava para sair a próxima fornada de biscoitos. Só mais alguns minutos. Os clientes costumavam gostar dos biscoitos. Enquanto esperava, lembrei-me de que precisava comprar farinha para fazer mais e providenciar...

— Por que tudo é tão complicado?

Desta vez, assustei-me com razão. Olhei para ele, com olhos arregalados, o pote de biscoitos quase vazio na mão, e não soube o que dizer. Devo ter feito uma verdadeira cara de idiota, pois ele apressou-se em se justificar.

— Desculpe. Você não tem nada a ver com isso. Eu estou um pouco aborrecido hoje.

— Não, tudo bem — apressei-me a dizer.

Ele me despertou uma ligeira curiosidade, agora de uma outra maneira. De repente, parecia ter algo mais por trás da beleza, dos olhos azuis e do terno escuro. E eu me vi esperando alguma explicação.

— Acho que estou enlouquecendo. Às vezes me pego falando sozinho. Agora mesmo, estou falando sozinho, pois não acredito que você esteja mesmo interessada ou prestando alguma atenção ao que eu digo.

— Ora, eu estou, sim.

Ele me olhou e deu um meio sorriso.

— Você é muito gentil.

— Obrigada.

— Quer dizer que estava mesmo prestando atenção?

— Acho que você está se sentindo sob pressão. Talvez um café não seja uma boa ideia. Não prefere um chá?

— Não gosto de chá. Mas aceito companhia enquanto tomo meu café. E um biscoito.

— Como quiser.

— Você não acha a vida complicada?

— Eu não disse isso.

— É, acho que não.

Era um tom de desdém que, de alguma maneira, me pareceu sarcasmo. Será que ele me considerava uma tola que não tinha preocupações? Pela primeira vez, tomei coragem e olhei-o nos olhos.

— Que desilusão tão grande o fez se revoltar com a vida dessa maneira?

Ele levantou as sobrancelhas por um momento, depois riu.

— Não é o que você está pensando.

— Não pode saber o que eu estou pensando.

— Você certamente está pensando que eu tenho algum problema com mulheres.

Imediatamente pensei na conversa que ele estivera tendo ao celular. É, ele sabia o que eu estava pensando.

— E não tem?

— Não. Bem, não nesse sentido.

— Ah... Está bem.

Não me convenceu. Bem, mas quem era eu para julgá-lo? Servi o café e outro cliente me chamou, do outro lado do balcão. Desculpei-me e fui atendê-lo. Quando desocupei outra vez, o cliente simpático já tinha ido embora. Suspirei e voltei ao trabalho.
 

* Texto escrito em 2009
 Imagem: Flickr - Creative Commons

sexta-feira, 5 de junho de 2015

E, no final de tudo, acabamos sozinhos. Passamos a vida inteira procurando pessoas para aglomerar à nossa volta, pessoas com quem nos relacionar, pessoas com quem casar, tendo filhos, mantendo relações... Isso tudo para ter alguma companhia em todos os momentos. Mas sábio é quem consegue entender a delícia de se bastar. Não digo fugir da convivência do mundo, mas poder se sentir bem em sua própria companhia. Amar-se e entender-se o suficiente para se sentir bem com os próprios pensamentos. E só então encontrar pessoas com quem dividir esses pensamentos.

Porque, no final de tudo, acabamos sozinhos. O que só entendemos nessa hora é que, por menos que estejamos sós, o fato é que nós sempre estivemos.

"É a certeza da eterna presença
da vida que foi, da vida que vai"

Imagem: GettyImages

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Resenha: A Hora da Estrela

Alguns comentarão "como assim você nunca leu A Hora da Estrela antes?" É verdade, eu li outros dois livros de Clarice Lispector, mas ainda não tinha lido este. Por nada, só não tinha encontrado para pegar emprestado e nunca lembrava de comprar. Fui adiando, como tantos outros livros na nossa vida. Eis que chegou a hora.

Várias pessoas me disseram que este talvez fosse o melhor livro dela. Certamente o mais famoso, adaptado para o cinema e tudo mais. Mas preciso dizer que não gostei. Esperei mais. A narrativa já era minha conhecida, a dos outros dois livros que eu li dela. Desta vez, quem conta a história é um narrador chamado Rodrigo S. M., narrador observador, que conta em terceira pessoa a história de Macabéa. A personagem principal é uma nordestina, alagoana, simples e que não tem muita coisa de especial. O narrador não faz parte da vida dela, é apenas um observador que resolveu por algum motivo contar a história dela.

Mais da metade do livro consiste em Rodrigo se explicando por que escreve e por que resolveu escrever justamente sobre Macabéa. Enquanto não escreve, ele demonstra o desdém típico da classe média carioca pela humilde imigrante nordestina. Eu entendi o motivo por trás disso, mas não torna o livro menos chato. Eu adoro a escrita de Clarice Lispector; mas, gente, é mais da metade do livro só, digamos, enrolando para não contar a história. Eu sei que a ideia era Macabéa só ser importante na hora certa e Rodrigo ser um personagem secundário, apesar de narrador, com sua história e caráter a serem descritos. Mesmo assim, nada disso me ajudou a gostar do livro. Para mim, ele só para de se arrastar da metade pro final.

Depois de ler obras lindas como Perto do Coração Selvagem e Laços de Família, eu confesso que fiquei decepcionada. Mas eu tive que ler para saber disso. É um livro curto, pelo menos. E nunca é desperdício ler as belas palavras de Clarice.

"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?"

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Essa é uma resenha para o mês de abril do Desafio Literário do Tigre de 2015, do blog da Tadsh: um livro escrito por uma mulher. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.