quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um mundo em duas palavras

Ele era o tipo de pessoa que só dizia o necessário. Ela, pelo contrário, falava tanto que dizia até mesmo o que não devia. Eram diferentes, ao mesmo tempo em que se completavam. Os intermináveis monólogos dela preenchiam os momentos de silêncio em que ele tentava não pensar nos próprios problemas. E ria das queixas dela, das histórias, do sarcasmo. Sorria, quando devia estar aborrecido com os acontecimentos do dia. Engraçado que nunca tinha sido um bom ouvinte, mas descobrira que a voz dela o acalmava como nenhum outro tranquilizante.
Ela sabia que ele não era de muitas palavras, mas não porque não tivesse o que dizer. Sabia, porque ele opinava algumas vezes, quando discordava de uma colocação qualquer, ou quando falava sobre alguma coisa que precisava ser resolvida. Mas geralmente deixava que ela falasse. Ela nunca tinha certeza se ele estava realmente ouvindo, mas seus olhos eram sempre atentos. Ele sabia que ela descarregava as preocupações falando, que conseguia um alívio momentâneo, mesmo que não pensasse realmente tudo o que deixava escapar. E, por isso, ele ouvia. Sem mudar de assunto, sem interromper.
Às vezes, ela achava que o chateava com a falação constante. Certo dia, encontrou-o com olhar tão distante que, no nervosismo de tentar fazê-lo sorrir, desandou a falar demais. Depois, considerou que devia ter perguntado se ele queria dizer algo. Sabia que ele era uma pessoa de poucas palavras, mas falaria com ela, se precisasse. Certo?
Neste dia, torturou-se tanto que jurou por tudo ficar calada por um mês inteiro. Então percebeu um pequeno bilhete grudado na geladeira, escrito em post it amarelo. Apenas duas palavras:
Elas bastavam.

"More than words to show you feel
That your love for me is real"*
*Música: More than words

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Eu não sou daqui

Olho pros lados

e tenho certeza.

Dúvida:

Será que

somente eu vejo?

Se não sou diferente

Por que

ninguém mais

parece enxergar?

Por que,

sem mais,

tudo passa?

Nenhum grito,

nenhuma palavra

Sinal de fumaça

Sou

certamente

de outro lugar

de outro planeta

Ou do mar...


"Minha vida é diferente da sua
Estou aqui de passagem
Este mundo não é meu"

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Velório

De todas as pessoas que esperaria ver ali, ela era a última. Ela, a quem tanto fizera sofrer. Ela, a quem ele tanto amou. Ela, dos olhos escuros e misteriosos, calmos, quase frios. Quase. Em alguns momentos, ele sabia, podiam ser aço fundido, cor-de-fogo, incandescente. Cor de chocolate quente meio amargo.
Podia vê-la agora, apertando os lábios, torcendo as mãos. Ela, das mãos nervosas, quando tentava dizer alguma coisa importante. Nunca foram bons com as palavras, entendiam-se melhor sem elas. Agora, não tentava dizer nada; ao menos, não com palavras. Ao menos, não com a voz. Gostaria de poder ouvir aquela voz mais uma vez, não a de todas as outras que ali estavam.
Imaginava que suas outras mulheres iriam. E foram, em sua maioria. Inclusive antigas namoradas, velhas amigas, ex-esposas, a viúva… E ela; ninguém lhe notava a presença, ali no canto da sala, por trás da aglomeração. Estava um pouco afastada, mas não se escondia. E, o mais incomum: não sorria. Ela, do sorriso fácil e do choro difícil. Das lágrimas que inchavam os olhos antes de cair. E agora caíam. Por sua culpa.
De todas as pessoas que esperaria ver ali — de todos os amigos, parentes, amantes, ela era a última. Ela, com quem nunca se casara. E ninguém parecia sofrer mais que ela; aquela a quem ele somente amou, todos aqueles anos. Sempre soubera, apenas nunca lhe dissera. Agora, era tarde demais.

"And there's nothing but silence now"*
Imagem por: stock.xchng
Música: Our farewell

quarta-feira, 14 de abril de 2010

1/2 ambiente




"As folhas que caem no rio

Terminam nas águas do mar."



Eu sinto falta da natureza, de como ela era antes de ser tão maltratada. Sinto falta do verde que conheci, um dia; mesmo que então já fosse raro. Falta das árvores que foram derrubadas para a construção de um prédio, no lugar da minha antiga casa. Elas, que sempre atrapalharam o progresso, mas que todo mundo se esquece de que estavam aqui antes de nós.

Tenho saudade de brincar ao sol sem me queimar, de esquecer que o sol é fogo, de pensar que ele é apenas uma fonte natural de calor. Sinto falta de passar protetor solar somente para ir à praia e não para sair do carro e andar dez metros até a porta do trabalho. Sinto falta de não temer o sol.

Também sinto falta do ar puro que respirei, um dia. Da água, que azulava o nosso planeta. De olhar pro céu à noite e ver estrelas. Poucos são os lugares onde ainda as conseguimos ver. Sinto falta da chuva fina no inverno e do calor no verão, ao invés desse tempo maluco, das tempestades e enchentes em qualquer época do ano. Sinto falta da imprevisibilidade previsível.

Há quem diga que estamos acabando com o planeta. Não, acabamos com a nossa própria vida. Então, num futuro muito próximo, o mundo ficará livre de nós. E só então estará em paz.


"E vai chover quando o sol se cansar
Para que flores não faltem."

Imagem por: stock.xchng

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Outra vida

Foi quando, no fundo de uma gaveta, encontrei uma fotografia antiga. Talvez não tão antiga, mesmo que parecesse ser de uma época muito distante, de tanto que a vida mudara, desde então. Os rostos da foto eram felizes, coloridos, sorrisos e olhos brilhantes. Tão diferente de hoje. A sensação era de que, se tirasse uma foto hoje, ela seria toda em preto e branco.

Segurei aquela fotografia por um momento e observei-a. Não senti nada diferente. O aperto no peito, a dor, o coração sangrando já estavam aqui. As lembranças não me invadiram como um turbilhão; elas já rondavam a minha cabeça exaustivamente, como desde sempre. A esperança não voou pela janela quarto adentro, verde e ansiosa por atenção; ela nunca fora embora, mesmo na hora em que tudo o mais se acabou e ela pareceu perdida.

Era outra vida. Lembrava-se bem do olhar tão adorado, tão inesquecível. Também dos maravilhosos momentos. Da aurora da felicidade. Do escurecer da partida. Do abrir-se da ferida, que assim permaneceria durante muito tempo. Peguei a foto com as duas mãos e, sem pena, rasguei-a em pedaçinhos, abandonando-os no fundo da lixeira. Não precisava de fotos para me lembrar de que, um dia, fora feliz.


"In my heart lies a memory
To tell the stars above
Don't forget to remember me, my love"

Imagem: stock.xchng