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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um cAUso

Dizem que cachorros sentem as nossas emoções e agem de acordo com elas. Ouvi uma pessoa falar sobre isso hoje e lembrei de um episódio que aconteceu comigo, há alguns anos.

Fazia apenas alguns dias que Willy, meu yorkshire, tinha acabado de morrer. E eu fui visitar meu primo, que tinha um cachorro. Por acaso, ele também era um yorkshire e já tinha esbarrado com o meu em algumas ocasiões, na praia. Na mesma hora eu lembrei de Willy e fiquei bem triste. Existe uma espécie de vazio que um bichinho deixa na gente e não é facilmente preenchido.

Eu conhecia o cachorrinho do meu primo e sabia que ele tinha uma personalidade bem diferente de Willy, que era amigável com estranhos. O york dele era manso, mas não era de fazer festinha ou ser carinhoso com quem não era o dono.

Só que, neste dia, algo aconteceu. Eu estava sentada numa cadeira e o cachorro olhou para mim, que tentava fazer um carinho nele, já sabendo que seria ignorada. Então, ele pulou no meu colo. E suportou o carinho por algum tempo, até que desceu. Meu primo ficou confuso, dizendo que não era do feitio do cachorro. Mas ele foi o primeiro a entender:

- Cães sentem quando a gente está triste - ele disse. - Eles entendem.

E é verdade, ele entendeu. Entendeu o vazio que havia e que ele podia aliviar me dando um segundo do carinho dele.

E ele me deu.

Willy

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O maior e melhor


Se você não aguenta sol, calor e multidão, definitivamente o carnaval de Recife e Olinda não é para você. Mas se você, assim como eu, acha que certas coisas valem a pena, deveriam estar aqui no carnaval. Deveriam vir ver pessoalmente, porque não dá para descrever o que acontece. No momento, eu estou a um passo da insolação, na base da água de coco e do caladryl. Mas, como eu disse, há coisas que valem a pena. E para participar — não ver; participar — do carnaval daqui, tudo vale a pena.

O nosso problema, dos recifenses, é que, além de muito bairristas, nós sempre queremos ser os maiores ou melhores. É o maior shopping do Brasil (já foi, mas deve ter perdido o posto), a maior avenida em linha reta da América Latina. Até das coisas ruins já vi gente abrir a boca para falar, com certo orgulho. E nós temos o maior bloco de rua do mundo: o Galo da Madrugada.

Essa semana, eu li uma postagem de um amigo que comparava o Galo a um monumento histórico. Com a pequena diferença de que os monumentos são perenes e o Galo, com toda a sua excentricidade recifense, é reconstruído todo ano de uma maneira diferente, apenas para o carnaval. O maior monumento montado e desmontado a cada ano; o maior ponto turístico móvel instantâneo; o maior bloco de rua, com mais gente pulando e gastando a sola do sapato pelo asfalto, com mais bonecos coloridos com cabeça de papel marché, com mais gente fantasiada das maneiras mais criativas, sem precisar pagar nada para brincar. O maior Galo do mundo, que atrai pessoas de todos os lugares a cada carnaval. Para depois sumir e renascer, como uma fênix, todos os anos.

Este ano, eu fui ver o Galo. E é lindo. Não fui para camarote, porque carnaval do Recife e Olinda se pula no chão. Passei mal com o sol, me queimei, desidratei. Mas valeu a pena, porque sempre vale. Depois, fui para Olinda, porque a festa tem que continuar, nas ladeiras, nos outros blocos, com outras cores. Sou mesmo bairrista. Somos bairristas e nenhum lugar, para nós, nunca será melhor que aqui. Tenho um orgulho imenso do meu Recife, do nosso carnaval.

O melhor carnaval do mundo.

Imagem: Bruno Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Coisas que eu fiz nesse carnaval

- Fui direto de Olinda pro Recife Antigo.
- Dancei frevo até ter cãibra.
- Comi salsichão de almoço.
- Tirei selfie com dois Spider Men e um Superman
- Passei mal de calor.
- Abri uma roda de ciranda gigante no meio da Praça do Arsenal.
- Abri uma roda menor dentro dessa roda gigante com duas menininhas, para elas não serem pisoteadas.
- Fiz xixi só duas vezes em um dia só, mesmo bebendo cerveja o dia todo. Desidratei ou não?
- Construí um dispositivo para fazer xixi em pé.
- Caí de uma escada.
- Arrumei vários hematomas e só me lembro desse da escada.
- Dancei um ritmo de música que até hoje não sei o que é.
- Tomei Heineken em Olinda.
- Tomei duduroskas de tangerina, maçã verde e limão.
- Dancei brega.
- Tomei picolé/paleta mexicana de kiwi.
- Quase bati num idiota que quis me beijar à força.
- Encontrei na ladeira um amigo de Fortaleza que eu nem sabia que estava aqui.
- Fiquei bêbada.
- Escorreguei numa ladeira, mas não caí.
- Conheci gente muito massa.
- Comi escondidinho de charque.
- Dancei com uma amiga que estava de muleta.
- Fiquei presa na multidão do Marco Zero.
- Quase tive que entrar no meio de uma briga, para segurar um amigo.
- Segurei vela.
- Seguraram vela.
- Fui pro carnaval com um grupo e voltei com outro.
- Me perdi do grupo.
- Tomei milk shake.
- Tive dores em músculos da perna que nem sabia que eram capazes de doer.
- Comi churrasco.
- Comi vinagrete agridoce.
- Vi um arco-íris.
- Falei besteira.
- Tomei chuva.
- Gargalhei.
- Cortei o pé.
- Não me lembro de como voltei pra casa.
- Estive com as melhores pessoas do mundo. As minhas pessoas. E é disso que o carnaval é feito. Das melhores pessoas. Não importa o lugar, o calor, a chuva, a multidão, os idiotas. Só as pessoas.

"A gente ri, a gente chora e joga fora o que passou"

terça-feira, 22 de julho de 2014

Fato aleatório sobre mim #1

Eu amo hambúrguer e batata frita

Numa conversa com uma amiga, no meu consultório:
— Ontem, eu ia sair. Um amigo me ligou e chamou para ir ali comer um hambúrguer com batata frita.
— Você não foi?
— Não, eu estava me sentindo mole, com dor de dente.
— Mas era hambúrguer com batata frita! Eu iria para qualquer canto por um hambúrguer com batata frita.


Mesma conversa, pouco depois:
— Encho tanto teu saco com esses dentes, né?
— Que nada. E isso que eu te passei vai resolver.
— Se resolver, sei nem o que eu faço.
— Me paga um hambúrguer com batata frita.

Imagem: Flickr - Creative Commons

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Teorias

A teoria é a seguinte: se você não tem medo de rã, uma rã nunca grudará na sua coxa ou nas suas panturrilhas; Se você não tem medo de lagartixa, uma nunca passará por cima do seu pé; Se você não tem medo de barata, uma nunca subirá pela sua perna, entrará na sua roupa ou passeará em cima de você quando você estiver dormindo. Eu tenho medo de barata. Sim, uma já subiu pela minha perna. Sim, uma já sapateou em cima de mim enquanto eu dormia. E tantos eventos felizes mais.

Esses episódios aconteceram na época em que eu morava em uma casa e, além do fato de ser menos seguro que um apartamento, este é um dos principais motivos pelos quais eu não tenho a mínima vontade de voltar a morar em uma casa, com jardim, quintal, árvores e insetos.

O primeiro episódio foi quando eu saía do banho. O banheiro era famoso por servir de morada para uma família particularmente numerosa de baratas, mas eu pensei que a cosquinha na perna era um fio solto da toalha. Só que ele estava subindo, subindo...

O segundo episódio foi numa época em que o mosquito da dengue estava bombando e minha mãe terminou colocando cortinado (mosquiteiro, como dizem alguns) em todas as camas da casa. Eu me sentia muito segura usando aquela cápsula contra insetos, até o dia em que, de alguma maneira, uma barata conseguiu entrar. Acordei no meio da madrugada me coçando. Quando acendi a luz, ela estava lá, bela e cascuda, passeando pelos buraquinhos, do lado de dentro do cortinado. Saí da cama muda, rápida e o mais discretamente possível para não assustar a nojenta e ela não pular de novo em cima de mim, e fui acordar meu irmão. Exigi a morte dela. Se fosse uma lagartixa ou uma rã, eu ia pedir somente pra ele jogar no quintal. Mas barata tem que ser esmagada (descarregar o tubo de Raid em cima dela não funciona, ela fica com as patinhas asquerosas pro ar se mexendo) para eu poder voltar a ser feliz de novo. Menos uma no mundo. Eu teria tomado um banho antes de voltar dormir, mas, como eu disse anteriormente, o banheiro era o reino das baratas e eu estava traumatizada. Acho que não dormi o resto da noite.

Hoje, eu vi uma barata albina e manca. E você? Você aí, que nunca teve medo de barata, já viu uma barata albina e manca? Não, né?

Imagem: GettyImages

segunda-feira, 28 de março de 2011

Subconsciente


Estava no intervalo do almoço da especialização e, como sempre, o pessoal decidiu ir a um bar para comer um camarão ao alho e óleo e tomar cerveja. Já fui avisando que a gente tinha aula à tarde e que eu não ia beber porque queria prestar atenção. Claro que todo mundo protestou, mas eu fui firme, dessa vez.

Quando já estavam me apelidando de "voz da consciência", passou uma garçonete. Chamei, antes que alguém pedisse alguma coisa:

— Moça, tem suco de quê?
— Aham. Uma Skol, OK — ela respondeu, anotando e concordando com a cabeça. E saiu, antes que eu dissesse alguma coisa. Ficou todo mundo olhando, sem entender.

Foi a primeira vez que ouvi meu subconsciente falar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Culto

Tinha acabado de chegar com meu pai ao culto ecumênico de formatura da minha prima, filha do irmão dele. Chegamos bem atrasados e perdemos grande parte dos sermões, ficando apenas com as considerações finais dos palestrantes religiosos convidados. Permanecemos de pé, um pouco atrás, e eu comecei a tentar entender o assunto abordado. Eis que vejo um rosto familiar entre os palestrantes.

— Ei, painho. Vê como aquele pastor parece com tio Tato.

Tio Tato é o irmão dele, pai da minha prima formanda.

— É...

Silêncio. Ou melhor, o padre falava para os formandos alguma coisa sobre a importância da profissão deles para o mundo. Eu olhei o pastor com mais atenção.

— Ô, painho... Tio Tato é pastor?

— Acho que é.

A mulher do cerimonial começa a cantar uma música de igreja ao microfone. Olho pro meu pai com a maior cara de "¬¬".

— Painho. Aquele é tio Tato.

Pior mesmo foi, depois de tudo terminar, fingir que achamos lindo e inspirador o sermão a que nem sequer tínhamos presenciado. Eu, sem saber onde enfiar a cara e ensaiando a minha melhor expressão de "pff, lógico que eu vi e achei perfeito", na mais perfeita rasgação de seda. Nem desconfiaram. Eu espero.


Imagem: GettyImages

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Peixe-boi

Estava tomando água de coco na beira da piscina, à sombra de um coqueiro, na praia, numa vida beeem difícil. Ao longe, só vejo meu primo, depois de tomar umas, correndo pela praia e gritando:

— Peixe-boi! Peixe-boi!

— Hein?

— Um peixe-boi no mar! Logo ali!

Corri para ver, né? Não é todo dia que a gente vê um peixe-boi numa praia que mal aparece peixe normal. Praticamente o pessoal todo do condomínio foi atrás, para ver o dito-cujo. Chegamos à beira da praia, todo mundo procurando de um lado pro outro do mar, até que meu primo aponta:

— Olha ali!

— Onde?

— Aquela coisa escura ali.

Meu tio entrou no mar, para ver mais de perto. Não era peixe-boi nenhum; era um bolo enorme de sargaço. Alga seca. Bêbado é uma merda mesmo.

Imagem daqui

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

House M.D.

Estava tentando fazer um planejamento complicado de um caso de ortodontia, sem nenhum sucesso. Não vou entrar em detalhes muito técnicos, porque quase ninguém vai entender mesmo, mas, basicamente, estava tentando achar uma maneira, um aparelho ou uma modificação de aparelho para fazer determinado movimento dentário. E eu, revirando meus livros e revirando a internet, não encontrei nada. Estava já puxando os cabelos, quando resolvi deixar pra lá e entrar no GTalk, para conversar.
Eis que encontro a Helô:
—... Pois é, eu já tava ficando de saco cheio, sabe, aí vim aqui desestressar. Não tava aguentando mais.
E ela:
— Aí agora é a hora que eu digo qualquer besteira e você tem uma ideia genial pro seu problema, como em House. Eu sou seu Wilson!
Meu problema nunca foi a falta de amigos com senso de humor.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Se eu cair, conto até dez

Fazia tempo que espiava as apresentações alheias, sem coragem de tentar de novo. Um mundo de pares de pés cobertos por sapatilhas cor-de-rosa, saias volumosas e arranjos de cabelo perfeitos, confundindo-se em pas de bourrée, glissade, gran jeté e demi plié. Então, reverence. E fim do espetáculo. Ela não queria apenas ficar admirando a dança dos outros. Na verdade, tinha saudade da época em que conseguia, com um mínimo de esforço, se equilibrar na ponta dos pés.

Talvez fosse preguiça. Preguiça de começar tudo outra vez, de aprender tudo outra vez. De reconhecer as próprias limitações e trabalhar duro para superá-las. Ou falta de paciência, vai saber. Ou a consciência errônea de que já fazia tanto tempo que estava naquela inércia que não mais poderia trazer de volta a dança para sua vida.

Mesmo assim, tomou coragem. Com collant, meias, sapatilhas, voltou a dançar. Bem mal, por enquanto. Mas sempre progredindo. Porque, mesmo longe, mesmo sem dançar, a alma de bailarina sempre estivera ali, escondida no fundo do seu coração.

Este ano, eu voltei a dançar.


#MemeDasAntigas: Dia 17/12 – Em 2010 eu consegui...

domingo, 12 de dezembro de 2010

#Fail

O ano de 2010 começou da seguinte maneira: a festa de reveillon foi fantástica, como sempre é em Neverland, apesar de ter chovido bastante. O problema foi o almoço, quando eu inventei de comer um peru de Natal com fio de ovos estragado. Percebam, do Natal. Eu não sabia que era tão velho. Claro que não deu muito certo.

Lá por volta das seis da noite, eu comecei a passar mal. Quando meu pai, enfim, resolveu me levar para um hospital no Recife, a uma hora dali, a praia toda já estava sabendo e, como todo mundo acha que tem uma veia para a medicina, eu já tinha tomado todos os tipos de remédios, chás milagrosos e soros caseiros. E vomitado tudo.

Pior era a dor. Fui passando mal a viagem toda; meu estômago contraía sem ter nada mais para expulsar. Tive que ser carregada para uma cadeira para tomar soro e, depois de desmaiar na cadeira (não apaguei de verdade, mas não conseguia ficar ereta), fui levada para uma cama gelada e sem cobertor. Eu estava desidratada, então sentia mais frio que o normal. A cada enfermeiro que passava, eu mendigava um lençol. Seria até cômico, se não fosse trágico. Ou não fosse comigo.

Dois tubos de soro e eu tentei ir embora, mas voltei a desmaiar. Mais furos e mais um tubo de soro e, depois, fui liberada. Eram três da manhã. Aí você pensa: o que se pode esperar de um ano que começa assim?


#MemeDasAntigas: Dia 12/12 – Meu pior* dia de 2010

*Este não foi O PIOR dia de 2010, mas não quis escrever sobre coisas tristes.

Imagem: GettyImagens

domingo, 15 de agosto de 2010

Figura de linguagem

Numa conversa no MSN com ZeH, sobre figuras de linguagem (não me perguntem como chegamos a falar sobre isso; só o histórico do messenger sabe), começamos a discutir sobre as figuras de que lembrávamos e procurar outras mais malucas. Dos resultados da pesquisa, as melhores foram "epizêuxis", "matiazite", "lítotes" e "zeugma". E, como em toda pesquisa inútil, nem me lembro mais pra que servem. A única lição que tiramos dessa história foi que, de acordo com figuras como o "barbarismo" e o "idiotismo" não mais se comete erros de português, faz-se uso de figuras de linguagem.

Em algum ponto da conversa, saímos do tema e passamos a reclamar da vida, como de praxe:

— Agora é moda se sentir deslocado. Um estranho na terra.

— É. A pessoa olha pro seu próprio umbigo, olha pro mundo e pensa: "esse mundo tá errado".

— Se antes a ideia era se adequar, agora cool é ser diferente, único.

— Chama-se "umbiguismo".

— É. Só mais uma figura de linguagem.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Crédito ou débito?

Estava pagando a conta, no fim de uma festa, e entrego o cartão ao caixa. Vem a pergunta:

— Crédito ou débito?

— Débito.

— Quer dividir?

— Quero. Você paga metade e eu, a outra metade.


Outro dia, estava no Drive Thru da McDonald's. Fiz o pedido, o cara disse o preço. A pergunta:

— Qual a forma de pagamento?

— Dinheiro mesmo.

— Crédito ou débito?

— Crédito. Pago amanhã, sem falta.


"A humanidade não deu certo" (Gordon, Rob)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Histórias de carnaval 2

(Primeira parte aqui.)


Carnaval é época de cantadas; das melhores àquelas bem ruins:

— Oi! Olha, eu não quero ficar com você hoje, tá? Só amanhã.

— Então, até amanhã!


— Oi, gata.

— Oi. — Ela aponta pro braço dele, que está com um band-aid. — O que é isso?

— Uma feridinha. — Ele aponta pros seios dela. — E o que é isso?

— Rapaz, se você não sabe, você tá fodido.


— Com licença.

— Sim?

— É que estou meio perdido. Esse lugar não tem nenhuma sinalização, a gente não tem idéia de pra onde vai ou por onde volta... E depois que toma umas, já viu, né.

— Verdade.

— Então, você pode me dar uma informação?

— Claro.

— Qual é o seu nome?


Devido a um calo inesperado, minha amiga acabou tendo que comprar um rolo de esparadrapo. Depois de usado somente no calo, o dito-cujo acabou por ficar passando de mão em mão, sem que ninguém quisesse segurá-lo durante as subidas e descidas das ladeiras. Eis que um amigo meu encontra a solução perfeita: um menino de uns dez anos, vendendo cerveja.

— Ei, boy! Troca uma cerveja nesse esparadrapo aqui? Tá novinho, só tem uma volta usada.

O garoto não respondeu, mas a cara dele foi impagável.


Mais uma vez no taxi, desta vez depois da folia. Fome do cão. Bêbado ensinando o caminho:

— Ei, moço, tem alguma comida aí na mala, pra gente?

— Rapaz, até uma hora atrás tinha uma jaca.

— Sério, uma jaca? Que ducarai! Pega lá pra gente!

— Não dá, deixei na casa da sogra.

O bêbado pegou ar:

— Porra, moço! Casa da sogra? Me estressei com o senhor. Fale mais comigo não.

— Sim, qual é o caminho mesmo?

— É na próxima rua à esquerda, mas fale mais comigo não.


O mesmo bêbado, depois da corrida:

— E aí, o senhor aceita pagamento em cerveja?

— Não, desculpe. Só dinheiro.

— Dez reais dá, o quê, três cervejas? Dou quatro e fica tudo certo.

— É que estou dirigindo, sabe como é.

— Olhe, eu prometo que esqueço até da minha jaca, que o senhor deu pra sogra.


No carnaval, sempre há muitas pessoas vestidas com fantasias diversas. E pessoas sem fantasia também; como um senhor, que estava de camiseta regata e tinha pêlos nos ombros estilo Tony Ramos, só que bem mais comprido. Do tipo que daria para fazer tranças.

— Aquele ali tá vestido de homem-velcro.

— Mas daqueles velcros bem gastos, né?


Mais histórias aqui.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Histórias de carnaval

Taxista, levando a gente pra folia, no típico #calordosinfernos:
— Eita, esqueci de perguntar. Querem que eu ligue o ar condicionado?
— Ar condicionado? Cara, era uma boa…
— Pois é, não tem.

A turma sentada no meio-fio, esperando algum transporte passar pra nos levar pra casa. É quando passam dois amigos com um celular, comentando:
— Porra, caraaa! Breno casou!
Minha amiga, se intrometendo, fala:
— Parabéns pra ele!
Os amigos prontamente voltam e estendem o celular pra gente:
— Fala aí com ele, fala!
A gente pega o telefone e, sem hesitar:
— SE FODEEEEEEEU!
Os caras, claro, amigos do peito que são:
— AEEEEEEE!! BRENO SE FODEU! BRENO SE FODEU!

Banheiro para mulheres, no carnaval, é sempre um suplício…
A menina bebeu todas. Tinha ido ao banheiro umas cinco vezes e já estava procurando outro, urgentemente, sem encontrar pelo caminho um que não pagasse (estava lisa) ou que estivesse em condições de, pelo menos, ter o chão pisado. Nada. O mais barato estava um nojo só.
No auge do desespero, ela reclama:
— PORRA, QUERIA TER UM PÊNIS!
Quem pode imaginar os comentários que a coitada ouviu depois dessa?

Dois amigos conversando:
— Olha lá, você viu?
— Vi o quê?
— O cara tá usando a cantada da jibóia.
— É? E como é?
— Ele pega, abraça com força e não larga até a mulher ceder.

Imagine a cena: o cara passando por uma das principais ruas, no fim da noite já, olhando pro chão. Poucas pessoas perceberiam a presença de uma singela moeda de um real, no meio dos paralelepípedos. Mas ele viu.
"Oba! Dá pra completar a cerveja."
Veja bem, uma moeda de um real num chão normal é uma coisa; uma moeda de um real no chão em pleno carnaval é outra bem diferente. Observando que ninguém dava por falta dela e sentindo que era seu momento de sorte, o sujeito prontamente se abaixa pra pegar, mas a moeda não sai. Insistente, tenta tirá-la dali com a unha. Quando percebe que está colada, ele olha em volta, desconfiado.
Um monte de gente já se estrebuchando no chão, de rir da cara dele. Poucas coisas são tão divertidas no carnaval que ver o povo pagando mico. Mesmo quem não tem intenção de pagar. Ele sai rindo, claro, sem graça. E nós ficamos lá, esperando a próxima vítima.

Meu amigo, gaiato, fazendo voz de criança:
— Ô, Mari! Por que o povo tá tomando cerveja de um jeito diferente? Olha! Eles botam a boca na latinha, sem virar, e sugam: shhhhhiup!
— É porque, nesse calor, a cerveja tá evaporando.

Leiam também a segunda parte.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Herbie returns

Meu carro, pelo menos o atual, nunca deu problemas. Nunca parou no alto de um viaduto, nunca emperrou o medidor de gasolina, nunca demonstrou a mínima revolta para com a vida. Até esse fim de semana, quando ele começou a mostrar um pouco da sua personalidade explosiva em situações de estresse. Não sei ainda o que houve, mas já o coloquei, sem pensar muito, na minha longa lista dos aparelhos voluntariosos.

Aconteceu que eu fui viajar com meu irmão para a praia, num município a uma hora de Recife. Já fiz esse percurso milhares de vezes e conheço bem a estrada, por isso a primeira metade da viagem ocorreu sem maiores intercorrências, a não ser pela chuva (que me fez pensar em algumas coisas depois. Primeira: que foi sorte o carro ter dado chilique só depois que estiou. Segunda: que diabos eu ia fazer na praia num toró daquele?).

Alguns quilômetros depois, o carro simplesmente estancou a 120 km/h. As luzes do painel se acenderam, o freio motor ficou impossível de pisar e era uma vez direção hidráulica. Sem entender nada, parei no acostamento e liguei o carro de novo. Nenhum problema. Andei alguns metros e ele parou outra vez. Liguei e fui acelerando loucamente, para não estancar, até um posto de gasolina mais próximo. Olhei a água, OK; óleo, OK; gasolina, OK. E — me poupem dos comentários machistas — acabou-se aí o meu conhecimento sobre motor de carros. Meu irmão entendia mais, como deve ser, mas não conseguiu fazer muita coisa, a não ser dar apoio moral e chamar alguns homens para olhar o motor do dito-cujo.

Depois de falar com um monte de "entendidos", que acabaram por não resolver porcaria nenhuma, decidi continuar a viagem acelerando o carro. Já mais consciente do problema, fui mais devagar, na faixa da direita, forçando absurdamente cada marcha. E ele foi empacando, coiceando, agonizando na pista. E lá se vai a viagem tranquila que eu tanto esperava.

Umas vinte estancadas, centenas de olhares de desprezo por parte dos carros que passavam ("só podia ser mulher!"), e trezentos palavrões depois (meus, não contei os dos outros), percebi que a enfermidade do carro tinha várias etapas, assim como qualquer doença que vai progredindo. De primeira, ele só estancava. Depois, dava uns sopapos, tossia, ameaçava parar; eu conseguia fazer andar assim mesmo, mas inevitavelmente parava algumas vezes. Então, ele começou a acelerar sozinho; eu tirava o pé do acelerador e o ponteiro de RPM chegava a 4. Na outra etapa, ele parou de acelerar, mesmo quando eu pisava fundo. No último estágio, o ponteiro do velocímetro começou a subir sem que a velocidade aumentasse. Só o que aumentava mesmo era o meu estresse.

No final, mesmo esperneando numa aceleração sem fim, o carro nos levou ao nosso destino. Terminamos voltando no outro dia, nas mesmas bizarras condições. Essa história toda me lembrou Herbie, o fusca voluntarioso. Se meu carro falasse, não sei o que me diria. Mas o que quer que fosse, eu o teria mandado para a PQP como resposta.


"Baby, you can drive my car
And maybe I'll love you..."

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sempre em frente

Estava passando por uma rua movimentada, nos confins da minha cidade, quando o vi. Era um senhor idoso; os cabelos bem brancos, raros em algumas partes da cabeça, corpo magro, rosto enrugado. Vestia uma roupa de fazer exercícios e um tênis com meias brancas. Não me chamaria maior atenção, não fosse o modo como ele caminhava. Andava curvado, ofegante, uma perna mancando ligeiramente, as mãos se movendo como se procurassem apoio. O mais incrível é que, mesmo assim, ele seguia em frente.

A calçada não era exatamente uma pista de cooper; cheia de buracos e mato crescendo em alguns locais, postes surgindo quando se menos esperava. Vi-o tropeçar uma vez e apoiar-se no primeiro poste que encontrou. Parecia extremamente cansado, como se a evidente carência de músculos na perna não fosse dar conta dos ossos e estes fossem se partir a qualquer instante. Mas não parava de andar.

Pensei nas vezes em que me senti cansada, depois de um dia de trabalho. Pensei nas tantas vezes em que me cansei da vida. Pensei até nos instantes em que a inspiração para criar me falta. A gente não consegue — nem precisa — estar feliz em todos os momentos. Aquele senhor não parecia feliz. Mas seguia sempre em frente.


"Anyway the wind blows
Doesn't really matter"

Imagem:
"Old man walking in a rye field" de Lauritz Ring

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pela janela


Passarinhos passeiam toda manhã, pela minha janela. Voejando, cantando, beijando as fartas flores cor-de-rosa da árvore ali em frente. Consigo sorrir àquela visão, mesmo sendo bem cedo, mesmo estando bem quente, com bastante trabalho a me esperar. Mas como me privar de sorrir, se eles parecem pedir para que eu sorria?
Vejo-os ali, empoleirados nas fiações do poste, como numa fila, como esperando que cada um tivesse sua vez junto às flores. E voam, um por um, de dois em dois, bando em bando, e todo o resto aguardando nos fios de energia. Numa barulheira animada, de quem espera horas e reclama: "vai logo, ô, tartaruga!", mas sem se incomodar realmente com a demora. Afinal, que pressa eles poderiam ter, se não tem trânsito para pegar, contas para pagar? E se o trabalho deles é apenas beijar aquelas flores? Eu penso… Talvez só estejam reclamando do intenso calor.
O sol que tem feito me levou a desejar chuva. A chuva veio, de fato, e os passarinhos foram-se embora. Não voltaram, nem quando a chuva se foi; a elegante árvore das flores cor-de-rosa foi derrubada, com o temporal. E, agora, toda manhã eu suspiro: onde estarão meus passarinhos?

"Quero ver você voando
Quero ouvir você cantando
Quero paz no coração"*
 *Música: Canta coração

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O pequeno

Quem escolheu seu nome foi meu irmão mais velho. Eu escolheria, se fosse menina. Sempre quis uma menina para brincar, mas veio ele. No início, eu não gostei, mas acabei acostumando. Só bem depois, percebi que gostava dele assim mesmo. Ou até porque não fosse menina e, por isso, a gente nunca brigasse muito. Nunca me dei muito bem com meninas mimadas; ninguém gosta de lidar com os próprios defeitos.

Era tão pequeno, mesmo quando eu também era bem pequena. Eu vivia com medo de que alguém não o segurasse direito e ele se quebrasse, então ficava sempre por perto. Nunca quebrou. Mas eu não tirava os olhos vigilantes dele, pensando que podia chorar a qualquer momento. Chorava pouco. Sempre foi mais forte que eu.

Enquanto crescia, tagarelava demais, mas trocava letras. Se dependesse da minha mãe, ele nunca falaria certo; ela achava lindo aquele vocabulário estilo Cebolinha. Eu fui sua professora, quando precisou de ajuda em português. Também fui eu quem lhe dei o primeiro livro. Se ele gosta de ler, um pouco (bem pouco) que seja, é por minha causa. E eu devo ter alguma culpa por ele ter passado tão bem no primeiro vestibular.

Hoje, ele faz 20 anos de idade. Está maior que eu, mas ainda insisto em chamá-lo de "meu irmão pequeno". Algumas coisas nunca mudam.


"Faça um sinal, cante uma canção
Do alto coração
Mais alto coração..."

Imagem:
stock.xchng

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Dia desses, mandei um livro de aniversário, comprado num site da internet, para um amigo meu de outra cidade. Bruno, meu amigo, veio me agradecer o presente. Eu fiquei aliviada por saber que o livro tinha chegado ao seu destino, pois eu achava que estava demorando demais.

— Oi, Ma! Obrigada pelo presente!

— Puxa! Até que enfim, pensei que não chegaria mais.

— E não chegou, na verdade.

— Hein?

— Aconteceu uma história muito estranha até o livro chegar aqui.

— Não chegou aí? Como assim, que absurdo! Vou reclamar lá.

— Espera, escuta a história:


"Aparece hoje aqui na porta de casa um cara numa bicicleta e só estava o Fred* e o André* aqui. O Fred, todo desconfiado, vai atender, e o cara pergunta:

— Aqui é a rua X?

— É sim, por quê?

— Tem um Bruno aí?

— Tem, mas ele não está.

— É que tem um pacote aqui pra ele.

Eram 21h00. O Fred vai lá na porta, nem leva a chave para não abrir o portão, e pergunta se tem o nome completo, para ter certeza de que é o Bruno daqui mesmo.

Daí o cara:

— Ah sim, peraí. Segura aqui. — E passa um livro pro Fred segurar, enquanto ele lê o nome no pacote. O Fred nem olha qual era o livro, preocupado com o que o cara vai fazer.

— “Bruno de Tal”.

— Ah, é esse mesmo.

O cara, então, passa o pacote, que já estava aberto e explica:

— Então, foram entregar esse pacote na minha casa.

— Onde você mora?

— Na rua Y — que é outra rua daqui, cujo nome não tem nada a ver. — E na minha casa também tem um Bruno. Ele abriu o pacote e só depois percebeu que não era pra ele.

E o Fred abismado. O cara continuou:

— Então, quando o Bruno chegar, você dá três avisos pra ele:


1. Quem entregou o pacote era um vogon muito burro... Se bem que eles já são burros mesmo... Mas esse era muuuuito burro.

2. Quando eu vi o pacote, eu pensei que era um aquário, mas era um livro.
3. Quando ele for viajar, não se esqueça de levar a toalha.


— Tá. Qual é o seu nome?

— Eu sou o Carlos*. Você entendeu os recados?

— Sim... Vogon burro, pensou que era um aquário e não esquecer a toalha.

Depois que o Fred pegou o livro de volta é que ele viu o nome: “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. O cara posicionou a bicicleta e acenou:

— Até mais! E obrigado pelos peixes."


Eu pensei bem e decidi que não vale a pena ligar para reclamar. Como disse Bruno, valeu a diversão.


* Os nomes foram trocados por motivos que não vem ao caso.