quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Respirando...

Inspiro, expiro, aspiro. Suspiro.

Neste instante me sinto realmente o ser humano ínfimo que sou, incapaz de mover o mundo que jurei para conseguir o que desejo. Nessa hora consigo ser nada aos meus próprios olhos. E dificilmente mudarei esse conceito de mim para mim, se não tomar uma decisão agora. Se não lutar pelo que quero.

Afinal, que espécie de covarde me tornei? Sei que há instantes de incerteza na vida de todo mundo, mas este aqui já está durando tempo demais. Incerteza e inércia. Infelizmente, não combinam comigo.

Inspiro, expiro. Aspiro... Agora sem suspirar.


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sábado, 7 de novembro de 2009

Um sorriso inesperado

Admito, não tenho exatamente um humor de princesa pela manhã. É um período meio negro do dia, em que sou naturalmente séria e quieta, não muito propensa a risadas de qualquer tipo. Meu irmão diz que é porque meu segundo neurônio ainda não acordou e, sem o outro, um não dá conta de entender as piadas e respirar ao mesmo tempo. Eu digo que manhãs me tiram do sério, principalmente quando faz aquele sol e o disco amarelo em questão já começa o dia me fritando para o café da manhã, com a luz da fresta da janela bem em cima da minha cama. Com ou sem sol, sempre preferi dormir, nesse horário.

Depois vem o trânsito, os motoristas dirigindo cada vez pior; a sauna debaixo do jaleco, gorro, máscara e luvas, mesmo quando o ar condicionado está no máximo; os pacientes reclamando de qualquer besteira... Assim, são poucas as coisas que mudam meu humor sombrio, porém tolerante, da manhã. Uma delas é o sabiá que passa pela janela do meu consultório, enquanto estou atendendo. Mas o bom humor por causa do passarinho não dura tanto quanto esse que ocorreu hoje, causado por um sorriso.

Estava saindo da sala, quando me deparei com uma menina. Não daquelas crianças bagunceiras, que viram o recinto pelo avesso quando chegam; tinha por volta dos três anos e estava sentada quieta no colo do pai. Particularmente, não tenho muito jeito com crianças, ainda mais meninas, apesar de elas curiosamente gostarem de mim, de modo geral. De qualquer maneira, não costumo puxar conversa com elas, a não ser que estejam na minha cadeira de atendimento. Então, eu não disse nada, apenas ia passando.

Foi quando ela sorriu. E eu pensei que nunca tinha visto um sorriso tão verdadeiro quanto aquele, naquele momento. Não sei o que aconteceu, crianças sempre sorriem para mim e eu nunca cheguei a me surpreender com isso. Aliás, minha reação costumeira é de corresponder o sorriso, fazer uma gracinha para elas e depois voltar aos meus afazeres. Isso talvez seja pelo fato de elas nunca sorrirem apenas, mas começarem a falar, perguntar coisas, chamarem para brincar. É o normal; afinal, crianças são hiperativas por natureza.

Mas com ela foi diferente; ela não disse nada, não ficou tagarelando. Apenas sorriu. E coloriu a minha cinzenta manhã de sol.


You’ll find that life is still worthwhile
If you just smile

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fantasma

Vi-o em fotos algumas vezes, ao longo desses anos, e nunca entendi o fascínio que senti, quando adolescente. Até vê-lo hoje e sentir o mesmo magnetismo de outrora. Maldito! Como pode fazer com que me sinta aquela mesma adolescente idiota? Odeio essa sensação, por isso passei direto, fingi que não o vi e ele pareceu não me ver também. Melhor assim.

Não chegava a ser lindo de morrer; era apenas carismático. O que me deixava maluca era aquele ar despreocupado e desinteressado a ponto de ser irritante. Era exatamente assim: sempre passava dois metros adiante e não me via. A mim, parecia não querer me ver. Eu me sentia um grande nada de coisa nenhuma, ou ele me transformava em algo parecido, com a sua presença. Como agora, com a pequena diferença de que eu já aprendi a disfarçar melhor minha enorme frustração.

Sentei-me com meu almoço a uma mesa, no cantinho do restaurante, e me pus a comer, forçando-me a não mais dar importância ao sujeito. E assim seria, caso o destino tivesse pena de mim.

— Ei, que surpresa encontrá-la!

Não, isso não está acontecendo. Por quê? Em todo o tempo em que estudamos juntos, ele raramente se aproximava para falar comigo. Era sempre eu, eu e eu; não sei como meu ego nunca ficou em coma, depois de tão repetida e cruelmente pisoteado. Bem, talvez ele tenha ficado, mas se curou para sempre. Eu aprendera a lição. Virei o rosto para fitá-lo, sem pressa, tentando demonstrar apenas vaga surpresa:

— Hum. Oi. Tudo bem com você?

— Tudo, sim. Nossa, há quanto tempo!

— É, verdade.

Dez anos, para ser exata. Comemoro o fim daquela época como um aniversário, de quando deixei de ser idiota. Ele sentou-se na cadeira à minha frente.

— E você está ainda mais linda que nunca. O tempo lhe fez bem.

Sem dúvida, ainda é o mesmo. Indiferente ao resto do mundo, enquanto anda sozinho, mas olhando diretamente nos olhos quando fala com alguém. É intrigante como consegue fazer uma pessoa se sentir de especial a desprezada em poucos segundos.

— Obrigada.

— Que tem feito?

— Estudando, principalmente.

— É, você sempre foi responsável demais.

Ergui uma sobrancelha, sem vontade de responder àquela pequena crítica. Acho que eu seria desnecessariamente ácida. E foi bom, porque ele interpretou meu silêncio como uma censura. E era mesmo.

— Ei, não que isso seja uma coisa ruim.

— Dificilmente seria.

— Você continua a mesma de sempre, então?

— Com um pouco mais de ceticismo, sarcasmo, maturidade; essas coisas que acontecem com as pessoas em geral.

Ele riu. Fiquei pensando onde ele viu graça e logo tive minha curiosidade satisfeita:

— É, você não costumava ser tão irônica.

Eu era; apenas não sabia como funcionava. Na verdade... Bem, a quem estou tentando enganar? Eu não tinha nenhuma intenção de ser irônica com ele, naquela época, mesmo que soubesse como. Ironia afasta as pessoas, certo? E eu não queria afastá-lo. Pelo contrário.

— Lembro de que, uma vez, alguém me disse que você gostava de mim — ele comentou, com um risinho baixo.

Um risinho. Certo, será que eu consigo matar uma pessoa com uma faquinha de plástico? Porque sinto um forte impulso homicida prestes a se espalhar pelas minhas artérias.

— Mesmo?

Afinal de contas, que diabos ele quer com essa conversa? Me humilhar? Eu já não o havia feito o bastante, no passado?

— Sim, eu até fiquei pensando... Mas, sabe como é, não estava querendo nada sério. Coisa de adolescente.

— Ainda bem que essa fase não dura para sempre.

O olhar que ele me lançou foi curioso.

— Estamos falando de mim ou de você?

— Não sei, você escolhe.

— Escolheria falar de você, mas você nunca foi muito de se expor. Sempre foi um mistério.

RÁ! Essa foi boa! Eu, mistério? Eu era o mais imbecil dos seres, impressionada com cada sorriso, encantada com cada palavra que ele me dirigia. Misteriosa? Pois sim. Aposto que dava para ler cada mudança de humor no meu rosto. Aliás, acho que só o próprio não sabia que eu era apaixonada por ele. Até alguém contar, claro.

— Viu? Gostaria de saber o que está pensando.

Irritada e louca para encerrar a conversa, olhei o relógio de pulso:

— É que já deu a minha hora. Preciso ir.

A expressão dele foi de disfarçado desapontamento.

— Vai sumir de novo?

Se eu puder.

— A gente se vê.

Até fiquei me sentindo culpada, pois percebi que em nenhum instante eu sorri. O fato é que não aguentaria passar por tudo aquilo de novo. Fantasmas do passado só servem para isso mesmo; para nos assombrar. Espero que esse não volte mais.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O pequeno

Quem escolheu seu nome foi meu irmão mais velho. Eu escolheria, se fosse menina. Sempre quis uma menina para brincar, mas veio ele. No início, eu não gostei, mas acabei acostumando. Só bem depois, percebi que gostava dele assim mesmo. Ou até porque não fosse menina e, por isso, a gente nunca brigasse muito. Nunca me dei muito bem com meninas mimadas; ninguém gosta de lidar com os próprios defeitos.

Era tão pequeno, mesmo quando eu também era bem pequena. Eu vivia com medo de que alguém não o segurasse direito e ele se quebrasse, então ficava sempre por perto. Nunca quebrou. Mas eu não tirava os olhos vigilantes dele, pensando que podia chorar a qualquer momento. Chorava pouco. Sempre foi mais forte que eu.

Enquanto crescia, tagarelava demais, mas trocava letras. Se dependesse da minha mãe, ele nunca falaria certo; ela achava lindo aquele vocabulário estilo Cebolinha. Eu fui sua professora, quando precisou de ajuda em português. Também fui eu quem lhe dei o primeiro livro. Se ele gosta de ler, um pouco (bem pouco) que seja, é por minha causa. E eu devo ter alguma culpa por ele ter passado tão bem no primeiro vestibular.

Hoje, ele faz 20 anos de idade. Está maior que eu, mas ainda insisto em chamá-lo de "meu irmão pequeno". Algumas coisas nunca mudam.


"Faça um sinal, cante uma canção
Do alto coração
Mais alto coração..."

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sábado, 17 de outubro de 2009

Ao telefone

— Alô?

— Alô.

— Quem fala?

— Eu.

— Com quem quer falar, por gentileza?

— Com você.

— Comigo? Quem fala?

— Eu falo. Você fala também.

— Ora, eu tenho mais o que fazer! Com licença...

— Não, não desligue, por favor!

— ...

— Está aí ainda?

— Estou. O que você quer?

— Apenas conversar. Você se importa?

— Claro que me importo. Você não tem amigos?

— Até tenho. Mas eles não me entenderiam. Só tenho uma amiga que entenderia, mas ela não fala mais comigo. E eu preciso mesmo conversar com alguém.

— Por que eu?

— Sei lá, destino, acho. Você está ocupada?

— Estava estudando. Tenho prova amanhã.

— Eu tenho também. Mas não estou me importando.

— Acontece que eu estou me importando. Você pode até ser um irresponsável, mas eu não sou.

— Não pode parar apenas por uns minutos?

— Sobre o que você quer conversar?

— Problemas.

— Isso é óbvio. Já ouviu falar em alguém desesperado para conversar banalidades com alguém?

— Ora, não seja rabugenta.

— Então pare de enrolar e diga logo o que você quer!

— Se for escutar nessa má vontade, eu não quero mais.

— Ótimo! Adeus!

— Não! Não desligue! Está bem, eu falo. Mas prometa que não vai ser muito dura comigo.

— Não prometo nada.

— Puxa, você não cede um milímetro, hein?

— Ainda estou aqui, não estou? Então reclame menos e comece de uma vez essa história.

— Está bem! É o seguinte...

— ... Então?

— Calma. Estou pensando como começar.

— Ai, céus!

— Você está sentada?

— Não.

— Então sente, que a história é longa.

— Você quer testar mesmo minha paciência, não?

— Sentou? Então. Eu conheci uma garota...

— Logo vi.

— Hein? Como assim?

— Problemas com mulheres. Típico. Vocês homens são todos iguais mesmo.

— Quer que eu continue ou não?

— Eu não interrompi.

— Ah, não?

— Você fez uma pausa. Julguei que quisesse um comentário meu.

— Quando eu quiser um comentário, eu peço.

— Não precisa ficar nervosinho!

— Você que veio com o papo de que homens são todos iguais.

— É a verdade!

— Ah, não vou discutir isso com você agora.

— Então pare de besteira e continue logo essa história.

— Continuar… Você nem me deixou começar ainda! Nem sei mais onde estava...

— Eu ajudo. Você havia dito: “eu conheci uma garota”.

— Eu sei o que disse.

— Então por que perguntou?

— Eu perguntei?

— Claro que perguntou!

— Ah, não importa. Eu conheci uma garota…

— Você já disse isso.

— Dá para ficar calada?

— Não me mande ficar calada! Eu estou aqui fazendo um favor.

— Se você ficar quieta, mais cedo terminamos e mais cedo você volta aos seus livros.

— Ok. Vá em frente.

— Eu conheci uma gar...

— Tá, e daí?

— Faz algum tempo.

— Alguns meses?

— Alguns anos.

— Nossa! Esse tempo todo de amor platônico?

— Quem falou em amor?

— Sei lá, eu pensei...

— Não pense. Mulheres não foram feitas para isso.

— Olhe aqui...

— É brincadeira! É brincadeira!

— Se essa garota deixou você, posso entender por quê. Você é um machista!

— Já disse que estava brincando.

— Eu não tenho tempo nem paciência para brincadeiras.

— Tá, mal humorada! Essa garota tornou-se uma grande amiga. Mais que isso; ela se tornou minha melhor amiga.

— Ah! É aquela que não fala mais com você? Posso entender por quê, também.

— Vou ignorar seu comentário. É ela mesma. Minha melhor amiga.

— Quer dizer que aquela que ouviria seu problema, caso você não estivesse brigado com ela, é exatamente o problema?

— É, mais ou menos isso.

— Está vendo que eu sei pensar?

— Nossa, estou admirado!

— Sem ironias, por favor. Por que ela não fala mais com você?

— É um pouco complicado...

— Com certeza a culpa é sua.

— Vocês mulheres sempre se defendem.

— Afinal, o que houve?

— Bem... Eu tinha uma namorada...

— Tinha?

— Sim, tinha. Acabou.

— Ah, certo.

— E essa amiga não gostava dela.

— Assim, sem motivo?

— Eu achava que sim.

— E não era?

— Ela me traía.

— E sua amiga sabia?

— Ela que me disse.

— E você não acreditou.

— Eu gostava muito dela! Tive que vê-la com outro para cair a ficha. Foi terrível, se quer saber.

— Você é um idiota.

— Também não precisa humilhar!

— E você quer que eu diga que você está certo? Pensei que quisesse alguém que lhe dissesse a verdade. Além do mais, eu não sei agir de outra forma. Já deve ter muita gente passando a mão na sua cabeça por ter sido tão cruelmente traído.

— É verdade. Não sei onde estava com a cabeça, quando liguei para você.

— E, no final, a culpa foi sua mesmo, como eu pensava.

— Eu realmente não deveria ter ligado para você.

— Concordo plenamente. Mas já que ligou, o que quer de mim?

— Compreensão. Ajude-me.

— Em relação a quê?

— A tudo. A qualquer coisa.

— Em outras palavras, você quer uma amiga.

— Isso.

— E você quer uma amiga mal humorada?

— Sim.

— E sincera ao extremo, para apontar cada um dos seus erros?

— Não quero nada menos que isso.

— E vai aceitá-la assim, do jeito que ela é?

— De qualquer jeito.

— E não vai dar mancada com ela?

— Farei o impossível.

— Então admite, pelo menos uma vez na vida, que estava errado?

— Você não vai sossegar mesmo, não é?

— Admite?

— Admito.

— Então você tem uma amiga, Edu.

— Que alívio, Cris! Não sabe como é bom tê-la de volta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sem resposta


Todos os dias, no trabalho, gastava alguns bons minutos olhando para ele. Alguns pela manhã, alguns na hora do almoço, à tarde... Sempre que passava por ele, sentia que meus olhos eram incapazes de se desviar de tamanha beleza e carisma. Senti-me encantada desde a primeira vez em que o vi. Era... puramente lindo. Perfeito. E ele me olhava de volta, mas nunca dizia nada. Nem eu; acho que me sentiria meio boba.

Assim, sempre que nossos olhares se encontravam, temendo me sentir ainda mais ridícula, apenas murmurava um “bom dia” constrangido, quase para mim mesma. Ele não respondia, claro, pois era impossível poder ouvir. Mas eu ficava satisfeita, mesmo corando violentamente. Pelo menos ninguém testemunharia o quanto eu era idiota. Afinal, passar o dia sonhando com o impossível era mesmo idiota.

Até que, um dia, depois de uns bons meses de troca de olhares, tomei coragem e fui em direção a ele. Olhei ao redor e constatei que ninguém me observava. O mais rápido que pude, arranquei o cartaz do quadro de avisos, enrolei e enfiei embaixo do braço, voltando quase correndo para a minha mesa. Quando chegasse em casa, penduraria na porta do meu guarda-roupa e curtiria sozinha a minha loucura. Meu ridículo amor platônico.


"I know that you saw me
'cos I looked up to see your face"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Dia desses, mandei um livro de aniversário, comprado num site da internet, para um amigo meu de outra cidade. Bruno, meu amigo, veio me agradecer o presente. Eu fiquei aliviada por saber que o livro tinha chegado ao seu destino, pois eu achava que estava demorando demais.

— Oi, Ma! Obrigada pelo presente!

— Puxa! Até que enfim, pensei que não chegaria mais.

— E não chegou, na verdade.

— Hein?

— Aconteceu uma história muito estranha até o livro chegar aqui.

— Não chegou aí? Como assim, que absurdo! Vou reclamar lá.

— Espera, escuta a história:


"Aparece hoje aqui na porta de casa um cara numa bicicleta e só estava o Fred* e o André* aqui. O Fred, todo desconfiado, vai atender, e o cara pergunta:

— Aqui é a rua X?

— É sim, por quê?

— Tem um Bruno aí?

— Tem, mas ele não está.

— É que tem um pacote aqui pra ele.

Eram 21h00. O Fred vai lá na porta, nem leva a chave para não abrir o portão, e pergunta se tem o nome completo, para ter certeza de que é o Bruno daqui mesmo.

Daí o cara:

— Ah sim, peraí. Segura aqui. — E passa um livro pro Fred segurar, enquanto ele lê o nome no pacote. O Fred nem olha qual era o livro, preocupado com o que o cara vai fazer.

— “Bruno de Tal”.

— Ah, é esse mesmo.

O cara, então, passa o pacote, que já estava aberto e explica:

— Então, foram entregar esse pacote na minha casa.

— Onde você mora?

— Na rua Y — que é outra rua daqui, cujo nome não tem nada a ver. — E na minha casa também tem um Bruno. Ele abriu o pacote e só depois percebeu que não era pra ele.

E o Fred abismado. O cara continuou:

— Então, quando o Bruno chegar, você dá três avisos pra ele:


1. Quem entregou o pacote era um vogon muito burro... Se bem que eles já são burros mesmo... Mas esse era muuuuito burro.

2. Quando eu vi o pacote, eu pensei que era um aquário, mas era um livro.
3. Quando ele for viajar, não se esqueça de levar a toalha.


— Tá. Qual é o seu nome?

— Eu sou o Carlos*. Você entendeu os recados?

— Sim... Vogon burro, pensou que era um aquário e não esquecer a toalha.

Depois que o Fred pegou o livro de volta é que ele viu o nome: “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. O cara posicionou a bicicleta e acenou:

— Até mais! E obrigado pelos peixes."


Eu pensei bem e decidi que não vale a pena ligar para reclamar. Como disse Bruno, valeu a diversão.


* Os nomes foram trocados por motivos que não vem ao caso.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O acordar


Que lugar é este? Onde está a minha cama, meu quarto, minha casa? Meu despertador, onde está meu despertador, que não me acordou? O sol já está quase a pino e nem sinal do barulhinho irritante. Céus, perdi a hora! Será que me esqueci de programá-lo para tocar? É bem possível, ando tão distraída ultimamente... Tenho que levantar para fazer o café do meu marido. Onde será que ele está? E que raios de lugar é este?

É bonito, sem dúvida, com todo este verde em volta e este céu azul. Parece cenário de sonho. Um pouco claro demais para o meu gosto; dá a impressão de que se está mais perto do sol. Mesmo assim, não é quente. Nem frio. É até bem agradável, bem mais do que aquele meu apartamento abafado e bolorento. Eu ia começar a pintar as paredes, qualquer dia desses; mas as costas doem tanto que ficava adiando, adiando... Curioso, não sinto mais dores nas costas. Poderia começar uma reforma inteira agora mesmo, se conseguisse descobrir em que direção fica a minha casa. Mas esse gramado todo, não sei; acho que deve ficar a uns bons quilômetros da cidade em que eu moro.

E essas pessoas todas me olhando? Deve ser por causa da minha gravidez avançada... Gravidez... Meu Deus, onde está a minha barriga? Meu bebê! Até ontem estava aqui! O que aconteceu? Eu o dei à luz e não me lembro? Parti e o abandonei lá, sem nem conhecê-lo? Como pude fazer isso? Não posso ficar aqui, ele precisa de mim! Quem vai cuidar dele, dar-lhe comida, trocar a fralda? Meu marido não vai conseguir dar conta de tudo sozinho. Não, não posso ficar aqui! Não, por favor! Alguém me leve de volta, eu preciso voltar! Preciso voltar!

Não posso chorar; a vista fica turva e eu preciso encontrar o caminho de volta. Cadê as estradas deste lugar, os ônibus, os carros? Há alguém a quem pedir carona? Ei, vocês! Por que estão todos sorrindo para mim? Não posso ficar aqui, não pertenço a este lugar. Tenho pessoas de quem cuidar, lá onde morava. Coisas... Várias coisas. Coisas importantes. Cuidar do meu bebê recém-nascido. Voltar para casa. Quero voltar. Para a minha casa...

... Estranho; olhando agora, sinto que conheço este lugar. Parece que já estive aqui, alguma vez, há muito tempo. Que sensação estranha. Parece... paz. Nunca senti isso antes. Talvez bem jovem, quando ainda não tinha tantos problemas... Não há mais problemas. Sem mais dores ou despertadores. Eu estou em paz. Egoísmo meu, estar em paz enquanto tantas pessoas sofrem com a minha partida. Eu sei, eles vão conseguir sobreviver, de alguma maneira. Eu sei. Eu... Só espero que fiquem bem.

Do meio da multidão que sorria para mim, um homem de olhar belo e terno aproximou-se e me abraçou. Com lágrimas nos olhos, reconheci aquela voz profunda, quando Ele falou:

— Seja bem-vinda, minha filha.


Imagem: stock.xchng


Texto para a Blogagem Coletiva de setembro proposta pelo blog Vou de Coletivo!, com o tema "Dormir aqui e amanhecer em outro lugar".

sábado, 5 de setembro de 2009

No meio do caminho tinha um galo

Na antiga casa em que eu morava, quando criança, havia várias árvores frutíferas, espalhadas pelo terreno enorme. Uma delas, a de manga rosa, que eu plantei quando bem pequena, era uma das minhas preferidas. As mangas dela eram as melhores. Pelo terreno, ainda havia um campo de vôlei, um parquinho, um jardim, uma casa de bonecas e… um galinheiro. Por alguma coincidência do destino (ou espiritice-de-porco de quem planejou), o pé de manga rosa ficava dentro desse último: do galinheiro.

A história começou quando, da janela do meu quarto, eu a avistei: enorme, suculenta, madurinha. A manga. Ela estava num galho meio alto, mas não seria difícil subir e pegar. De fato, subir não foi difícil; já descer… Saí pro quintal com a idéia fixa de colhê-la custasse o que custasse, já lembrando que a mangueira ficava no meio do bendito galinheiro. Bom, eu não tinha medo de galinhas, afinal; praticamente havia crescido no meio delas, por causa daquele galinheiro, que meus pais tinham inventado de manter ali.

Entrei no território das galinhas, então. Elas me olharam, cacarejaram e se afastaram. Galinha é um bicho burro e eu não vou fingir que acho que me reconheceram. Ainda bem, porque certa vez, no auge da minha ingenuidade infantil, eu despejei o resto do meu almoço pra elas comerem e elas, obviamente, comeram. Era frango desfiado.

Continuando, fui em direção ao primeiro galho da árvore e dei o impulso inicial para subir. Era aquele tipo de galho, que toda árvore tem, que você obrigatoriamente tem que pisar nele para subir ou descer. Então, eu fui subindo, subindo, até alcançar a minha desejada manga. Peguei e fui começando a descer, galho por galho, até chegar naquele galho inicial. Foi quando me deparei com um galo, empoleirado nele, me olhando com cara de poucos amigos.

You wanna fight?

Galinhas são geralmente inofensivas, a não ser que você queira pegar um ovo ou os filhotes delas. Mas galos são bem pouco pacatos. Este, especificamente, tinha a fama de ter ferido todos os machos que já pintaram por aquele galinheiro e de ter dado uma surra nos gatos que porventura entravam para comer os pintinhos. O que seria de mim, pobre criança sem esporões, encarando uma criatura como aquela? Só me restava esperar que ele saísse do galho, para que eu pudesse descer e comer minha manga.

Foram se passando os segundo, minutos… E minutos para uma criança é bastante tempo, ainda mais em cima de uma árvore. Meus pés começaram a adormecer, de me equilibrar naqueles galhos cheios de titica, e o galo não cedia terreno. Olhava-me com a mesma cara, como se me desafiasse pra briga. Comecei a me desesperar; percebi que ele não ia sair dali. Vai ver, ele tomara conhecimento do meu crime que provocara o canibalismo entre os seus e quisesse me punir por aquilo. Comecei a tremer de medo e, quanto mais me agitava, mais ele parecia ficar satisfeito.

Até que não aguentei mais: analisei a altura a que estava e calculei o impacto da queda. Era alto, mas era melhor que encarar o rei-galo. Fechei os olhos, pulei e caí sentada no chão batido, melecando minha roupa de titica de galinha. Mas não me importei, saí correndo o mais rápido que pude das terras do reino.

Quando fechei a porteira, arrisquei uma última olhada pro sujeito. Ele ainda olhava para mim, agora com o ar de “escapou, né, covarde?”. Covarde, sim, mas inteira. E, como que para comprovar minha teoria de que ele só estava montando guarda por minha causa, ele farfalhou as asas e desceu. E saiu andando tranquilamente em direção aos fundos do galinheiro.

E eu? Eu fui curtir minha preciosa manga. Estava uma delícia.


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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Em frente

Todos os dias, a caminho de casa, passava pela frente da casa dele. Era uma bonita casa e ela a conhecia bem, por fora e por dentro, tantas foram as vezes em que estivera lá. Lançava um olhar por puro hábito e, quando percebia que estava novamente olhando naquela direção, desviava o olhar, praguejando. Quase sempre ia para casa sozinha, então passava o resto do caminho inteiro amaldiçoando-se.

É um costume bem comum, o de olhar na direção de lugares conhecidos. Você deve fazer isso e eu confesso que também faço. É como um sinal de reconhecimento. Mas, para esse lugar específico, ela não gostava de ficar olhando. Para ela, era como um sinal de fraqueza, como se desejasse vê-lo. O fato é que realmente desejava vê-lo, mas não podia admitir, nem para si mesma. Tudo estava acabado e já há tanto tempo. Não tinha sentido ficar desejando ver uma pessoa que já não mais fazia parte da sua vida. Nem deveria.

Afinal, o que faria se o encontrasse? Enfrentaria e diria tudo o que estava engasgado? Viraria o rosto, ignorando? Não via vantagem em nenhuma das opções. Estava acabado, afinal. Por que ficava se martirizando, remoendo lembranças passadas, alimentando esperanças vãs? Gostaria de não precisar passar por aquela rua, mas então teria que pegar um caminho mais longo e esquisito. E por uma bobagem.

Como de hábito, resmungou baixinho e começou a interminável sessão de maldições a si própria, quando se lembrou de que, desta vez, não estava indo para casa sozinha. Um amigo do trabalho a acompanhava.

— Hein? Falou alguma coisa, Elisa? — seu acompanhante perguntou.

— Não, não. — Ela sentiu-se um pouco constrangida. — Desculpe, estava só pensando alto.

— Ah.

De repente, o amigo apontou algo do outro lado da rua, o oposto de onde estavam os pensamentos dela, e disse, sorrindo largamente:

— Olha lá, Elisa. Não é lindo?

Era um muro. Quando ela começava a se perguntar o que teria de tão interessante num simples muro, ele puxou-a pela mão para atravessar a rua. O muro estava cheio de desenhos em grafite e inscrições. Encantada pelas cores, ela começou a se perguntar como nunca vira aquele muro antes. A resposta formou-se claramente diante dos seus olhos, na forma de uma citação em letras desenhadas, escrita no muro: “Enfrente sem olhar para trás.”

Deste então, todos os dias, a caminho de casa, Elisa admirava um muro de inspirações. E não mais olhava para trás.


Foto por Kaka