sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A espera

Onze horas da noite... Ele estava demorando tanto! Devia chegar por volta das sete, mas ultimamente se atrasava cada vez mais. Ontem, havia sido por causa do chefe, que arranjara hora extra para ele fazer. Anteontem, foi o trânsito que estava parado. O trânsito das seis era mesmo terrível e, naquele dia, um ônibus colidira com outro em pleno cruzamento de uma grande avenida. Ele sempre tinha bons motivos para os atrasos, mas nunca demorara tanto tempo. Nunca chegara depois das dez. Não tinha idéia de a que horas ele viria. Já ligara para o celular, mas só entrava na caixa postal.

Olhou o relógio outra vez. Onze e dez. Não jantara, esperando por ele. A mesa estava posta, impecável, mas a sopa já tinha esfriado há muito tempo. Teria que esquentar outra vez, assim que ele chegasse. Começou a tirar a tigela de sopa da mesa, levando para a cozinha, já à procura dos fósforos para acender o fogão. Derramou o caldo de volta na panela e pegou uma colher de pau para mexer. Não gostava de sopa, fazia por causa dele. Mas estava com tanta fome que até aquela sopa de ervilhas parecia apetitosa. Quem sabe, ele a levasse para jantar em algum restaurante, se não estivesse muito cansado. Ele sempre chegava muito cansado, o trabalho parecia consumir todas as suas energias. Então era só entrar em casa, jantar, tomar um banho e se atirar na cama. Mal tinha fôlego para conversar com ela. E ela tinha tanta coisa para contar... Mas entendia que ele estava exausto.

Onze e vinte. Desligou o fogo. Esquentaria a sopa assim que ele chegasse, decidiu. Dirigiu-se à sala e sentou-se no sofá, com um suspiro. Seu olhar vagou pelo aposento e pousou numa foto sobre a mesinha. Estavam os dois sorrindo, felizes, no dia do noivado. Ele lhe dera um anel de esmeralda, lindíssimo, dizendo que combinava com seus olhos. Mas ela só tinha olhos para ele. O anel tinha sido o item de menor importância naquele dia. A outra foto era do dia de seu casamento. Estavam todos lá; seus pais, sua família, seus amigos. Mas ela mal os notava; o que importava era o sorriso que ela via no rosto dele, quando seus olhos se encontravam. O mesmo sorriso que ele exibira no dia em que se conheceram.

O primeiro encontro. O cinema... Tinham ido juntos ver um romance em cartaz, que ela imediatamente comprou em vídeo, logo que o dinheiro do estágio saiu. O primeiro beijo, a primeira noite. Podia lembrar-se do toque dos lábios dele, de como tinha sido puro. Ele não pedira permissão, nem precisava. Ela quase se oferecera a ele. E foi tão natural, tão certo... Lembrava-se de tudo; de cada palavra, cada conversa, cada presente. Ela sabia que estava apaixonada para sempre. E, num jantar romântico, ele oferecera-lhe o anel de noivado. Ela apenas pôde sentir que nada poderia separá-los.

Como estourando um balão de pensamento, a realidade voltou em forma de uma badalada do relógio do corredor. Meia-noite. Sentiu um aperto no coração. Teria acontecido alguma coisa a ele? O carro quebrara? Estaria ferido? Ferido ou...? Ela cerrou os olhos e levantou-se do sofá, dirigindo-se ao quarto, decidindo ir se deitar. "Nada poderia separá-los..." Sentiu uma lágrima escorrer-lhe pelo rosto, solitária. Tantos dias esperando, uma desculpa esfarrapada após outra. No fundo, sabia que ele estava bem. Bem demais.


"Disillusion
Disillusion is all you left for me"


Imagem por: stock.xchng

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Herbie returns

Meu carro, pelo menos o atual, nunca deu problemas. Nunca parou no alto de um viaduto, nunca emperrou o medidor de gasolina, nunca demonstrou a mínima revolta para com a vida. Até esse fim de semana, quando ele começou a mostrar um pouco da sua personalidade explosiva em situações de estresse. Não sei ainda o que houve, mas já o coloquei, sem pensar muito, na minha longa lista dos aparelhos voluntariosos.

Aconteceu que eu fui viajar com meu irmão para a praia, num município a uma hora de Recife. Já fiz esse percurso milhares de vezes e conheço bem a estrada, por isso a primeira metade da viagem ocorreu sem maiores intercorrências, a não ser pela chuva (que me fez pensar em algumas coisas depois. Primeira: que foi sorte o carro ter dado chilique só depois que estiou. Segunda: que diabos eu ia fazer na praia num toró daquele?).

Alguns quilômetros depois, o carro simplesmente estancou a 120 km/h. As luzes do painel se acenderam, o freio motor ficou impossível de pisar e era uma vez direção hidráulica. Sem entender nada, parei no acostamento e liguei o carro de novo. Nenhum problema. Andei alguns metros e ele parou outra vez. Liguei e fui acelerando loucamente, para não estancar, até um posto de gasolina mais próximo. Olhei a água, OK; óleo, OK; gasolina, OK. E — me poupem dos comentários machistas — acabou-se aí o meu conhecimento sobre motor de carros. Meu irmão entendia mais, como deve ser, mas não conseguiu fazer muita coisa, a não ser dar apoio moral e chamar alguns homens para olhar o motor do dito-cujo.

Depois de falar com um monte de "entendidos", que acabaram por não resolver porcaria nenhuma, decidi continuar a viagem acelerando o carro. Já mais consciente do problema, fui mais devagar, na faixa da direita, forçando absurdamente cada marcha. E ele foi empacando, coiceando, agonizando na pista. E lá se vai a viagem tranquila que eu tanto esperava.

Umas vinte estancadas, centenas de olhares de desprezo por parte dos carros que passavam ("só podia ser mulher!"), e trezentos palavrões depois (meus, não contei os dos outros), percebi que a enfermidade do carro tinha várias etapas, assim como qualquer doença que vai progredindo. De primeira, ele só estancava. Depois, dava uns sopapos, tossia, ameaçava parar; eu conseguia fazer andar assim mesmo, mas inevitavelmente parava algumas vezes. Então, ele começou a acelerar sozinho; eu tirava o pé do acelerador e o ponteiro de RPM chegava a 4. Na outra etapa, ele parou de acelerar, mesmo quando eu pisava fundo. No último estágio, o ponteiro do velocímetro começou a subir sem que a velocidade aumentasse. Só o que aumentava mesmo era o meu estresse.

No final, mesmo esperneando numa aceleração sem fim, o carro nos levou ao nosso destino. Terminamos voltando no outro dia, nas mesmas bizarras condições. Essa história toda me lembrou Herbie, o fusca voluntarioso. Se meu carro falasse, não sei o que me diria. Mas o que quer que fosse, eu o teria mandado para a PQP como resposta.


"Baby, you can drive my car
And maybe I'll love you..."

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Em branco

Tanto para dizer e uma página em branco. Que continua em branco, mesmo que eu escreva mil palavras. Que escreva e apague. Ou não apague, mas tenha vontade. Continua sendo uma página em branco, porque não diz nada. Ao menos, nada do que eu gostaria de dizer.

Poderia falar das paisagens, que tão bem conheces; das casas, das árvores, das flores. Sim, falarei das cores, das tantas combinações, tão exatamente aquelas que sempre vimos. Até mesmo do tom cinza das construções, das pontes, dos enormes edifícios. Tu lerias, reconhecerias, quem sabe até esboçarias um sorriso. Ou talvez não; talvez amassasses tudo e lançasses ao lixo. Afinal, quem quer saber das cores?

E se eu falasse dos sons, do burburinho das ondas, dos pássaros, do vento? Ou do aroma das especiarias, dos dias ensolarados, da chuva muda que batia à nossa janela? Será que tu lerias com aquela mesma atenção com que me fitavas os olhos, naqueles dias? Será que te lembrarias?

Como posso saber? Queria te ver, ver teus olhos, teu sorriso e tuas lágrimas. Mas tudo que eu vejo é uma página em branco.


"Reach out to me, call out my name
And I'll bring you back again
Today"

Imagens por: stock.xchng

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Retrospectiva 2009

Vão se passando os dias, os meses… Um ano. Sessenta e oito posts, escritos durante um ano. Cada texto depositado aqui neste blog representa um riso meu, uma lágrima, uma dúvida. Nem todos são textos autobiográficos, porém cada um deles foi produto de momentos de busca em mim mesma, busca por sensibilidade, sentimento, magia. Posso não ter conseguido o que pretendia, não ter cumprido todas as resoluções que fiz no fim do ano passado, mas acredito que foi suficiente para mostrar uma parte de mim.

Durante os meses, tivemos contos, casos, desabafos, pensamentos pintados quase exatamente como pude visualizá-los na tela da minha imaginação. Em janeiro, publiquei dois dos contos, escritos por mim, de que mais gosto: Café e Biscoitos. Até mesmo o modo como se completam faz deles únicos e especiais.

Então veio fevereiro, com o tradicional texto sobre o Carnaval de Recife e, para quebrar um pouco o bairrismo, publiquei o Baile de Máscaras, que falou de blogs e carnaval, num texto que me divertiu muito escrever. Falou um pouco das minhas experiências no mundo dos blogs, das amizades, das máscaras.

Para quem gosta (e sempre espera encontrar aqui, mas é um pouco raro) de textos autobiográficos, publiquei em março o Compre um Gato. Não é um grande texto, mas há quem ria com o mau humor alheio. Abril veio o com conto Janela, cuja imagem eu mesma editei para falar um pouco mais dele. Às vezes, palavras demais são desnecessárias.

Um dos textos que mais me emocionou, até mesmo pelos comentários que teve — um em especial —, foi o texto Lembranças, de maio. Consigo ler cem vezes e me emocionar em cada uma delas. Já comecei a escrevê-lo debulhada em lágrimas.

Junho é o mês do meu aniversário. Por este motivo, escrevi o texto Uma vela apagada, que fala um pouco do que este dia significa para mim. E do que importa realmente. Em julho, publiquei um dos textos mais comentados do blog: Apenas palavras. Alguns falaram na poesia de cada frase, outros da música que conseguia ouvir. Fiquei muito feliz e lisonjeada com cada homenagem feita nos comentários. Um dos posts mais inesquecíveis.

Havia começado uma série de contos com a mesma personagem e acabei escrevendo, em agosto, o conto Flores, considerado por muitos um dos mais delicados. Depois, no mesmo mês, publiquei um divertido texto sobre meu talentoso Willy: o Poliglota.

Em setembro, mês de textos bem humorados, eu acabei por escrever a história verídica No meio do caminho tinha um galo, em que conto uma das divertidas passagens da minha infância, na casa em que morava. Já em outubro, escrevi bem pouco e publiquei um conto antigo, longo e todo dialogado: Ao telefone. Fiz também uma pequena homenagem, no texto O Pequeno.

Ano acabando, inspiração também… Novembro foi um mês de poucas postagens, assim como outubro. Notas de Adeus, conto não autobiográfico, chegou como um bálsamo, como que para salvar dois meses quase nulos.

Dezembro veio com aquele gosto inconfundível de fim de ano. O texto Pela Janela é meio melancólico, mas delicado e sincero, exatamente como me sentia quando o escrevi. Depois veio o Sempre em Frente, para encerrar o ano de cabeça erguida.

Valeu a pena cada palavra.


"São apenas palavras. Textos. Versos. Tudo o que eu tenho. Parte de mim, do meu ano, da minha cidade, dos meus amigos. Sim, é bom lembrar. Porque ainda há coisas boas a serem guardadas."

trecho do final da retrospectiva 2008


Imagem por: stock.xchng

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sempre em frente

Estava passando por uma rua movimentada, nos confins da minha cidade, quando o vi. Era um senhor idoso; os cabelos bem brancos, raros em algumas partes da cabeça, corpo magro, rosto enrugado. Vestia uma roupa de fazer exercícios e um tênis com meias brancas. Não me chamaria maior atenção, não fosse o modo como ele caminhava. Andava curvado, ofegante, uma perna mancando ligeiramente, as mãos se movendo como se procurassem apoio. O mais incrível é que, mesmo assim, ele seguia em frente.

A calçada não era exatamente uma pista de cooper; cheia de buracos e mato crescendo em alguns locais, postes surgindo quando se menos esperava. Vi-o tropeçar uma vez e apoiar-se no primeiro poste que encontrou. Parecia extremamente cansado, como se a evidente carência de músculos na perna não fosse dar conta dos ossos e estes fossem se partir a qualquer instante. Mas não parava de andar.

Pensei nas vezes em que me senti cansada, depois de um dia de trabalho. Pensei nas tantas vezes em que me cansei da vida. Pensei até nos instantes em que a inspiração para criar me falta. A gente não consegue — nem precisa — estar feliz em todos os momentos. Aquele senhor não parecia feliz. Mas seguia sempre em frente.


"Anyway the wind blows
Doesn't really matter"

Imagem:
"Old man walking in a rye field" de Lauritz Ring

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natais passados

É triste ouvir tanta gente dizer que não gosta do dia de Natal. Até entendo que a magia que existia quando a gente era criança tenha ido embora. Entendo que não exista mais a espera do bom velhinho da sacola de presentes. Entendo que montar a árvore, colocar a meia na janela não tenha mais tanta graça quanto antes. Entendo. Eu também sinto isso, a velha melancolia dos Natais passados.

Véspera de Natal. Lembro-me de que, nesse dia, a gente já ficava de olho nas sacolas vermelhas, embaixo da árvore da minha avó, procurando uma etiqueta com o nosso nome. Presentes de toda família num pacote só. Eram Natais mágicos, aqueles. O de esperar os guizos tocarem e cair no sono antes disso. De assistir o especial da Xuxa, sonhar com o dia seguinte. E acordar com um presente aos pés da cama.

O Natal acabou só porque nós crescemos? O sentido se perdeu? Fico pensando o quanto o sentido do Natal tem a ver com acreditar em Papai Noel. Não devia ser assim. Hoje é, sim, um dia especial, porque é o aniversário daquele que morreu para nos salvar. Um Feliz Natal para todos aqueles que acreditam.


"When it seems the magic slipped away
We find it all again on Christmas Day
Believe."

Imagem por: Fotolia

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Problemas técnicos

Amigos, alguns devem estar achando estranho o fato de todos os comentários terem sumido, mas é que houve um problema com o sistema de comentários que eu usava e tive que voltar às pressas para o sistema original do blogger. Ainda consegui salvar todos os comentários e estou, aos poucos, arrumando tudo em seus devidos lugares, mas acabei perdendo os links com os endereços de cada um.

Alguns, eu já acompanhava e sei de cor; outros eram novos e eu, infelizmente, não assinei o feed, nem pude retribuir a visita a tempo. Peço a essas pessoas que, se porventura voltarem aqui, me perdoem. E, claro, deixem um recado com os endereços.

Beijos a todos!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pela janela


Passarinhos passeiam toda manhã, pela minha janela. Voejando, cantando, beijando as fartas flores cor-de-rosa da árvore ali em frente. Consigo sorrir àquela visão, mesmo sendo bem cedo, mesmo estando bem quente, com bastante trabalho a me esperar. Mas como me privar de sorrir, se eles parecem pedir para que eu sorria?

Vejo-os ali, empoleirados nas fiações do poste, como numa fila, como esperando que cada um tivesse sua vez junto às flores. E voam, um por um, de dois em dois, bando em bando, e todo o resto aguardando nos fios de energia. Numa barulheira animada, de quem espera horas e reclama: "vai logo, ô, tartaruga!", mas sem se incomodar realmente com a demora. Afinal, que pressa eles poderiam ter, se não tem trânsito para pegar, contas para pagar? E se o trabalho deles é apenas beijar aquelas flores? Eu penso… Talvez só estejam reclamando do intenso calor.

O sol que tem feito me levou a desejar chuva. A chuva veio, de fato, e os passarinhos foram-se embora. Não voltaram, nem quando a chuva se foi; a elegante árvore das flores cor-de-rosa foi derrubada, com o temporal. E, agora, toda manhã eu suspiro: onde estarão meus passarinhos?


"Quero ver você voando
Quero ouvir você cantando
Quero paz no coração"

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Notas de Adeus

Foi-se a música, como se foi o amor. Como manter o amor, se além de não correspondido, era maltratado e desprezado? E como manter a música sem a poesia do estar amando? Como seguir cantando, preso numa gaiola de amargura? Como continuar poetizando? Como permanecer vivendo?

Sobrevivendo, diria. Chutando os dias, queimando as horas, cansando os segundos. E pensando em outros segundos, melodicamente dedilhados, realmente vividos; aqueles belos instantes que ficaram no passado. Era agora, por inteiro, passado. Sabia que não viveria mais depois daquelas tristes páginas, que encontrara no meio das folhas de partitura de sua composição preferida. Como o contrário de uma partitura; se estas eram poesia, as outras eram cobertas de frases de adeus.

Adeus. E as páginas voaram, todas elas. Melhor assim. Jamais esqueceria aquela canção, a que fora embora com a malfadada carta. Talvez ainda pudesse tocá-la sem o acorde angustiado da lembrança. Talvez, quando tudo não passasse de um sonho, esqueceria as cruéis páginas que, antes de voarem, derramaram mais lágrimas que notas musicais.


"Amor que nunca cicatriza
Ao menos ameniza a dor."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Respirando...

Inspiro, expiro, aspiro. Suspiro.

Neste instante me sinto realmente o ser humano ínfimo que sou, incapaz de mover o mundo que jurei para conseguir o que desejo. Nessa hora consigo ser nada aos meus próprios olhos. E dificilmente mudarei esse conceito de mim para mim, se não tomar uma decisão agora. Se não lutar pelo que quero.

Afinal, que espécie de covarde me tornei? Sei que há instantes de incerteza na vida de todo mundo, mas este aqui já está durando tempo demais. Incerteza e inércia. Infelizmente, não combinam comigo.

Inspiro, expiro. Aspiro... Agora sem suspirar.


Imagem por stock.xchng