Onze horas da noite... Ele estava demorando tanto! Devia chegar por volta das sete, mas ultimamente se atrasava cada vez mais. Ontem, havia sido por causa do chefe, que arranjara hora extra para ele fazer. Anteontem, foi o trânsito que estava parado. O trânsito das seis era mesmo terrível e, naquele dia, um ônibus colidira com outro em pleno cruzamento de uma grande avenida. Ele sempre tinha bons motivos para os atrasos, mas nunca demorara tanto tempo. Nunca chegara depois das dez. Não tinha idéia de a que horas ele viria. Já ligara para o celular, mas só entrava na caixa postal.
Olhou o relógio outra vez. Onze e dez. Não jantara, esperando por ele. A mesa estava posta, impecável, mas a sopa já tinha esfriado há muito tempo. Teria que esquentar outra vez, assim que ele chegasse. Começou a tirar a tigela de sopa da mesa, levando para a cozinha, já à procura dos fósforos para acender o fogão. Derramou o caldo de volta na panela e pegou uma colher de pau para mexer. Não gostava de sopa, fazia por causa dele. Mas estava com tanta fome que até aquela sopa de ervilhas parecia apetitosa. Quem sabe, ele a levasse para jantar em algum restaurante, se não estivesse muito cansado. Ele sempre chegava muito cansado, o trabalho parecia consumir todas as suas energias. Então era só entrar em casa, jantar, tomar um banho e se atirar na cama. Mal tinha fôlego para conversar com ela. E ela tinha tanta coisa para contar... Mas entendia que ele estava exausto.
Onze e vinte. Desligou o fogo. Esquentaria a sopa assim que ele chegasse, decidiu. Dirigiu-se à sala e sentou-se no sofá, com um suspiro. Seu olhar vagou pelo aposento e pousou numa foto sobre a mesinha. Estavam os dois sorrindo, felizes, no dia do noivado. Ele lhe dera um anel de esmeralda, lindíssimo, dizendo que combinava com seus olhos. Mas ela só tinha olhos para ele. O anel tinha sido o item de menor importância naquele dia. A outra foto era do dia de seu casamento. Estavam todos lá; seus pais, sua família, seus amigos. Mas ela mal os notava; o que importava era o sorriso que ela via no rosto dele, quando seus olhos se encontravam. O mesmo sorriso que ele exibira no dia em que se conheceram.
O primeiro encontro. O cinema... Tinham ido juntos ver um romance em cartaz, que ela imediatamente comprou em vídeo, logo que o dinheiro do estágio saiu. O primeiro beijo, a primeira noite. Podia lembrar-se do toque dos lábios dele, de como tinha sido puro. Ele não pedira permissão, nem precisava. Ela quase se oferecera a ele. E foi tão natural, tão certo... Lembrava-se de tudo; de cada palavra, cada conversa, cada presente. Ela sabia que estava apaixonada para sempre. E, num jantar romântico, ele oferecera-lhe o anel de noivado. Ela apenas pôde sentir que nada poderia separá-los.
Como estourando um balão de pensamento, a realidade voltou em forma de uma badalada do relógio do corredor. Meia-noite. Sentiu um aperto no coração. Teria acontecido alguma coisa a ele? O carro quebrara? Estaria ferido? Ferido ou...? Ela cerrou os olhos e levantou-se do sofá, dirigindo-se ao quarto, decidindo ir se deitar. "Nada poderia separá-los..." Sentiu uma lágrima escorrer-lhe pelo rosto, solitária. Tantos dias esperando, uma desculpa esfarrapada após outra. No fundo, sabia que ele estava bem. Bem demais.
"Disillusion
Disillusion is all you left for me"
Imagem por: stock.xchng











