quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"We accept the love we think we deserve"


Não li o livro "As vantagens de ser invisível" (The Perks of Being a Wallflower, de Stephen Chbosky) e vi somente uma parte do filme, porque tive que sair. Mas essa frase que todo mundo já comentou e já cansou de ser analisada em várias resenhas ficou na minha cabeça por um motivo bastante pessoal. Não vou discorrer sobre o motivo, por não estar muito interessada em um oversharing agora, mas fiquei pensando... Afinal, como a gente pode avaliar a quantidade ou qualidade do amor que a gente merece?

Recentemente, eu li a história de uma dona de casa pobre e negra que se casou com um homem e apanhava dele por nada. Logo da primeira vez que isso aconteceu, ela foi à delegacia e denunciou o marido. Conheço também a história de uma mulher rica, casada, que descobriu que o marido tinha uma outra família além da oficial, com um filho de três anos. Apesar disso, ela considerou que ele era bom para ela e para os filhos, nunca deixando nada faltar, e o aceitou de volta. E a história de uma mulher jovem cujo companheiro agia com grosseria com ela, intimidando e diminuindo tudo o que ela fazia. Ela tolerou por um tempo, mas acabou o relacionamento quando decidiu que não aguentaria o resto da vida. E há outra mulher, beirando os trinta, que acabou um relacionamento somente porque não havia nenhuma perspectiva de futuro. Outra bastante jovem que acabou porque não tinha tanta atenção e carinho quanto desejava. A mulher desprezada, que aturou um relacionamento sem graça por mais tempo do que deveria e terminou traindo o companheiro com um amigo dele. Outra mulher casada, de classe média, que foi traída uma vez, o companheiro contou no mesmo dia, pediu perdão, mas ela não aceitou. Acabou tudo.

Conheço também o caso de um homem bem sucedido que se casou com uma mulher ciumenta ao ponto de ela controlar até suas ligações, ter senhas de redes sociais e e-mail. Apesar disso, são felizes e ela espera seu primeiro filho. E a história de um homem que estava noivo e acabou tudo porque se interessou por outra, depois de vários anos juntos. A história de um homem, bonito e sensível, que viu um relacionamento definhando e não fez nada para mudar, conversar ou resolver. Casou-se sem amor, sem vontade, por pressão. E arranjou uma amante. O caso de um homem jovem que conheceu a mulher perfeita, mas não conseguiu ser o homem perfeito. Ela o deixou, pouco tempo depois. E o caso de um homem comum, que conheceu a mulher perfeita e conseguiu ser o homem perfeito para ela, ao perceber que ninguém é perfeito. Hoje, são felizes, têm trinta anos de casados e três filhos adultos.

Todas essas histórias, reais ou não, ilustram o pensamento que eu tive quando ouvi a frase acima: "Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos". O pensamento de que, independente de classe social, intelecto ou tipo físico, as pessoas têm ideias definidas sobre aquilo que esperam do amor e aquilo que podem suportar. E pesam os prós e os contras sem perceber, avaliando o que merecem e o quanto desejam da vida. Muitas vezes, essas ideias nos confundem, quando pensamos que somos de um jeito e descobrimos que podemos aguentar mais; ou mesmo, que podemos aguentar quase tudo. Que podemos virar outra pessoa. Mas sempre existe, para todas as pessoas, aquele ponto, aquele limite, que, se atravessado, não haverá mais volta. Acredito que esse ponto defina o início do nosso amor próprio e dos nossos valores. Para algumas pessoas, esse terreno é bem pequeno e, para outras, é imenso.

E esse limite define o momento de impacto, o momento em que passamos de amor eterno a amor passado. Às vezes, a ódio, rancor, mágoa e depois esquecimento. O momento em que o outro passa de melhor amigo a desconhecido. Para uma pessoa, esse momento pode ser por causa de um tapa na cara; para outra, um simples olhar para o lado, ou um amigo inseparável que causa ciúmes. Grandes ou pequenos, os limites de cada um. E esses momentos de impacto definem o fim. E o fim define quem somos.

É claro que eu sou uma dessas pessoas. Ou várias. Talvez, algum dia, seja outra. Muitas pessoas que eu conheço poderiam ser personagens dessas histórias. E quem sabe não sejamos todos? Personagens de nossas próprias histórias; fazendo escolhas, fazendo besteiras, jogando nossas vidas, vidas de outros e sentimentos no lixo. Ou lutando por eles.

Ou apenas vivendo, aos tropeços, sempre em frente.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Cicatrizes

Ao lembrar do tempo em que era feliz, percebe que nunca o foi. Não consegue puxar da memória um momento em que o tenha sido, completa e intensamente. E tal constatação abala por um tempo, até que passa. Como todo o resto. Agora o alívio, triste em perceber as cicatrizes que nunca a deixarão ser a mesma de antes.


O vazio acontece.

Sempre volta.


Nunca foi embora.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Prisão

O grande alívio de sair de uma prisão, depois que você é esquecido nela por muito tempo. Poucos são capazes de entendê-lo completamente. Não de todo agradável; às vezes a prisão é um lar, um refúgio. Um vício. A liberdade assusta; apenas sonhamos com ela. A prisão era o que restava.

Mas há vida, lá fora. Só temos que aprender a ser livres de novo.

Não há nada como ser livre de novo.


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Não-texto

Disse que escreveria um livro se saísse dessa viva. Como ainda não saí, também não deixei essa vida, fica este texto. Talvez sirva para dizer o que não precisa ser dito, a alguém que não mais leria, de uma maneira que não se fará entendível. Então este, além de um texto, termina sendo um não-texto. Porque nunca vou conseguir explicar nem a mim mesma.

O meu maior problema é que preciso entender que não preciso entender tudo. As coisas acontecem, as pessoas fazem coisas; nem sempre fazem sentido. Nem sempre precisam fazer. Sentimentos não são preto no branco, nem sempre as pessoas agem como todo mundo age. Ou como a gente espera. Só que nunca se acha que tudo o que a gente aprendeu na vida é tão diferente do que se passa na cabeça de outra pessoa. Não era para ser tão confuso, ou tão extraterrestre. Gostaria de poder explicar o inexplicável. Mas nada me é dado para concluir meu raciocínio. Não tenho nada. Nunca tive.

Então, fico aqui, no meu não-texto, explicando o nada, sem explicar nada. Mas precisando tocar a minha vida. Então, mandei tudo à merda. Entre me decidir a tocar para frente ou para trás, eternamente, fiquei com tocar para frente. Agora, sem medo e sem desculpas. O máximo que pode acontecer é ter que voltar depois para o mesmo ponto de partida. De onde nunca saí.

 
"Deixa tudo o que eu não disse mas você sabia 
Deixa o que você calou e eu tanto precisava 
Deixa o que era inexistente, mas pensei que havia 
Deixa tudo o que eu pedia, mas pensei que dava"

Imagem: GettyImages

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Amor: Jane Eyre

Pela primeira vez na vida, eu chorei com um livro. OK, até fiquei bem triste com o 5º e o 6º Harry Potter, mas não cheguei a choraaar de verdade com nenhum dos dois. Mas o que aconteceu com Jane Eyre, de Charlotte Brontë, foi inusitado. Inusitado porque: 1) Eu já sabia a história inteira por ter lido várias resenhas; 2) Eu já tinha visto umas duas adaptações pro cinema, uma delas protagonizada por Mia Wasikowska e Michael Fassbender (♡♡). Também já ouvi falar de uma série de televisão da BBC e pretendo ver logo que encontrar, dizem que é a melhor adaptação. Escolhi este livro pro Desafio do mês de outubro porque foi o único romance que me interessou ler, nesses últimos tempos. Love is not in the air.

O livro conta a história da personagem que dá nome ao livro, Jane Eyre, uma órfã que foi criada na casa da tia e, posteriormente, mandada a uma escola para meninas. A vida toda, ela passou por várias provações e privações, inclusive fome e frio, pois era uma escola de caridade e não havia comida, agasalho e fogo suficientes para todo mundo. Depois de seu período de escola, ela vira professora e decide ir para uma casa de família trabalhar como governanta, quando ela conhece o amor da sua vida, seu patrão, Edward Rochester.

Para a época, Charlotte Brontë criou uma história revolucionária. A gente pensa que vai ler algo de um feminismo mais sutil, como nos livros de Jane Austen, mas se depara com uma mulher em busca da sua liberdade de ideias e financeira. Jane Eyre nunca quis nada além de poder se sustentar e viver a vida como desejasse, sem homens lhe dizendo como pensar e como agir. Isso fica claro desde o começo do livro, mas esse fato fica gritante mais pro final. Há quem diga que o livro não é exatamente um romance. Eu concordo. Está cheio de elementos de drama, suspense e algo de sobrenatural. Houve uma hora em que eu pensei que veria algo como em O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), obra escrita por outra irmã Brontë, Emily. Ambos romances vitorianos. É interessante ver os elementos góticos, presentes nos dois, muito mais evidentes no romance de Emily. Mas ainda presentes em Jane Eyre.

Charlotte escreveu neste romance muitas das coisas que viveu, de ser aluna de um colégio de caridade, de ter sido professora e de ter sofrido privações. E também colocou nele seus pensamentos, sua coragem e seu feminismo. O livro foi publicado inicialmente com um pseudônimo masculino e ela só assumiu a maternidade dele depois. E recebeu muitas críticas por isso.

Aí me perguntam se eu indicaria a leitura. Indico para aqueles que conseguem ler considerando as influências históricas do livro, o papel que ele teve numa geração e até mesmo na vida da autora. Porque, primeiramente, é um romance romântico, daqueles bem melosos. Eu gosto do estilo, mas conheço gente que não conseguiria ler. Então, vale para entender uma época, juntamente com uma maneira de se pensar e costumes diferentes. Eu acho válido e eu adorei a experiência.

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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog da Tadsh. O tema de Outubro é "Amor": ler e resenhar um livro que conte uma história de amor. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Abraçando Patinhas

No início de 2011, meu cachorrinho e grande amigo Willy faleceu, de problemas cardíacos. Foi um período bem difícil e acho que nunca superei por completo. Nunca se supera a perda de um amigo. Desde então, eu e minha família nos recusamos a ter outro bichinho, porque ficamos muito tristes. Eis que, em agosto deste ano, eu ganhei um novo amigo, que chamo de Luke Skywalker. Meu pai me deu esse fofinho (que está fazendo pose nas fotos aí abaixo), contra tudo o que havia prometido a si mesmo, para que eu superasse outra grande perda, que não vem ao caso falar agora. Não cheguei a superar também, mas nada como um carinho de cachorro para cuidar da gente, enquanto a gente cuida dele.


Minha casa agora virou um caos típico de quem tem filhote; é jornal para tudo quanto é lado, papel rasgado, cocô e xixi em lugares inusitados e muitos sapatos mastigados. Mas tornou-se um lugar mais feliz. Luke tem sido meu companheiro de fins de semana tediosos, de dias chuvosos e de lanchinhos na madrugada. E de posts emocionantes, porque ele está deitado no meu colo neste momento e eu já me emocionei desde as primeiras linhas. Ele ficou aqui lambendo a minha mão.

Existe uma coisa que só um bichinho faz pela gente, que é essa coisa de amor incondicional. Você pode brigar com ele e ele não vai ficar com raiva de você. Você pode deixar ele esperando e ele vai fazer uma grande festa quando você chegar. E ele vai te esperar para sempre, mesmo se você o abandonar. A fidelidade de um bichinho não acaba com o tempo, com maus tratos, nem mesmo com o abandono.

Assim sendo, o projeto Abraçando Patinhas promove uma campanha sobre a conscientização em torno da adoção de animais e pela Guarda Responsável, cujos pilares são:
  1. Educação das crianças sobre a necessidade do respeito aos animais
  2. Denúncia e vigilância contra maus tratos aos animais
  3. Castração dos peludinhos pra evitar o abandono dos filhotes não planejados
  4. Vacinação para todos
  5. Visitas regulares ao veterinário
  6. Conscientização contra os abandonos, principalmente no final do ano
  7. Necessidade de auxílio aos cães e gatinhos mais idosos
  8. Alimentação digna e saudável
  9. Espaços adequados para a diversão e bem-estar
  10. Higiene constante do local onde moram e também deles mesmo

Além disso, o projeto está apoiando uma ONG (ABEAC – Associação Bem Estar Animal – Amigos da Célia) responsável por 1100 cães e se comprometendo a doar 1 tonelada de ração. Mas todos podem ajudar. A principal missão da ONG é encontrar lares definitivos para cada um dos cães resgatados por eles. No caso de animais com menos chances de serem adotados, como é o caso dos idosos ou com problemas de saúde, o compromisso da ABEAC é dar uma vida digna enquanto eles viverem. A ONG também promove ações de conscientização da guarda responsável e de conscientização/implantação de programas de castração junto à comunidade onde está localizado o canil.

E aqui estou eu, neste post, divulgando a causa e reforçando meu apoio. E, claro, demonstrando o amor que eu sinto por todas as patinhas do mundo, em especial a estas aqui que estão no meu colo, há dois meses já. Cuidando de mim e aquecendo o meu coração.

“Esta blogagem coletiva faz parte do projeto Abraçando Patinhas, uma iniciativa do Rotaroots em parceria com a marca de ração Max – da fabricante Total Alimentos (http://www.maxtotalalimentos.com.br/). Esta iniciativa reverterá na doação de 1 tonelada de ração para a ABEAC (http://www.abeac.org.br/), ONG responsável pelo bem estar de cerca de 1100 cães. Saiba mais sobre o projeto no site do Abraçando Patinhas (http://rotaroots.blog.br/abracandopatinhas/) ou participando do grupo do Rotaroots no Facebook (https://www.facebook.com/groups/rotarootsblogs/).”

sábado, 4 de outubro de 2014

Nada mudou


Mesma insônia
Mesmo quarto
Mesmo travesseiro
Mesma janela
Mesma espera
Mesma esperança
Mesma ausência
Mesmo vazio
Mesmo nada
Nada mudou
E tão diferente
Sentimentos diferentes
Perda
Perdida
Perdão
Tudo diferente
Nada mudou.



Imagem: GettyImages

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Tolerância

Nunca fui das pessoas mais tolerantes do mundo. Às vezes, até acho que uma leveza a mais na minha vida poderia me fazer algum bem, mas o fato é que nunca consegui. Não tenho nenhuma paciência para muitas das coisas comuns do dia a dia; de aturar pessoas, de ser simpática, de acordar sorrindo e dando bom dia, de ter encontros. Não tenho realmente problema para lidar com gente, só não é sempre que tenho paciência. E mesmo com todo o mau humor, não tenho muito problema com as pessoas gostarem de mim, mas sim em gostar das pessoas.

Vendo assim, muitos podem pensar que sou antissocial. Não sou. Ou pensarão que não tenho muitos amigos. Tenho. Ou que tenho dificuldade em dialogar. Não tenho. Sou normal, se você for olhar de fora. Olhando de dentro, ninguém é normal. Só você mesmo sabe as merdas com que tem que lidar todo dia para expor o que quer que deva ser exposto para o mundo. Eu sou muitas coisas, dentro e fora. E não tenho paciência com isso.

Ocorre que tem ficado pior. Você nunca pensa que pode ficar pior, mas fica. Você acha que passa, mas não passa. A paciência só volta quando algo dá certo, por milagre. Mas quando tudo dá errado, não sobra nada. Respiro. Quero ir embora. Bate o desespero. Só quero me manter por um tempo na minha pequena bolha de conforto, sem ser incomodada. As cobranças vêm e são cruéis. Desestabiliza.

Claro que toda intolerância deveria ser trabalhada. Eu venho sempre tentando. Mas, por ora, só queria ficar na minúscula bolha de conforto. Até quando sair dela se torne uma aventura, não mais um martírio.


Imagem: Flickr - Creative Commons


domingo, 28 de setembro de 2014

The vow

Acabei de assistir a um filme chamado Para Sempre (The Vow, 2012). Não esperava muito, não li sinopses, mas sabia que não era uma comédia romântica, e sim um romance meio melancólico. É a história de uma mulher que perde a memória depois de um acidente e termina não lembrando mais do próprio marido, tendo que reconstruir a vida sem saber se a memória vai voltar. O marido, apesar disso, não desiste dela e começa o plano de reconquistá-la de novo. É bem triste tudo isso, apesar de eu acabar gostando do filme. Mas, independente de ser o filme bom ou ruim, de eu ter gostado ou não, ele me fez pensar em algumas coisas, que nem são exatamente o que o filme tem intenção de fazer pensar. Não são mandamentos, nem constatações, apenas coisas que eu pensei ser importante escrever.

(1) Depois do acidente, a personagem só conseguiu retomar a vida dela, mesmo sem lembrar de nada, porque o marido sabia tudo sobre ela, da história dela antes de eles se conhecerem, do que aconteceu para ela ter mudado de cidade, brigado com os pais, mudado de profissão. Ela tinha uma pessoa que sabia tudo sobre ela, mesmo que ela não o reconhecesse. Fico pensando se alguém saberia tanto sobre mim dessa maneira, de modo a poder me dizer por que eu estou aonde estou hoje, caso eu perdesse minhas lembranças. E mais, se eu saberia tanto assim sobre alguma pessoa, para poder fazê-la se encontrar, caso ela não se lembrasse de mim.

Nunca acreditei em dividir tudo dessa maneira; sempre achei que as pessoas são seres individuais, que têm vidas à parte da outra, que não faz o menor sentido contar tudo, compartilhar tudo. Parecia mais dependência que um relacionamento de verdade. Hoje eu considerei que talvez eu estivesse errada. Fiquei pensando: se eu morresse amanhã, morreriam também todas as minhas memórias, tudo o que eu vivi, tudo o que eu acredito e tudo o que eu sempre quis dizer e nunca disse? Morreria minha história, porque ninguém saberia contar, porque fechei essas portas para todo mundo?

(2) Ele nunca desistiu dela, porque a conhecia a fundo e sabia o que nem ela sabia: que ela queria estar com ele. Será que alguém teria tanta certeza de mim, do que eu sinto, será que o que eu mostro todos os dias seria suficiente para alguém ter tanta fé em mim? E será que eu teria tanta certeza sobre alguém, mesmo quando a pessoa agisse mostrando o contrário?


(3) Ele decidiu reconquistá-la outra vez. Quantos estão dispostos a reconquistar a mesma pessoa todos os dias? O que eu mais vejo é gente tratar as pessoas que amam pior do que as outras, só porque a intimidade faz com que se acomodem e tenham certeza de que o outro não vai embora por qualquer arenga besta. É irônico quase. Ao invés de cultivar uma coisa boa, as pessoas mostram seu pior lado, porque sabem que o outro precisa aguentar. E de fato, precisa; mas não devia ser regra. É muito mais importante mostrar amor e vontade de tentar fazer dar certo todos os dias do que mostrar a parte ruim. Demonstrar com gestos que a pessoa é especial, importante, que foi escolhida entre tantas por ser a melhor pessoa do mundo, para você. Não por exclusão. É isso que faz a pessoa ter certeza de que você iria atrás dela, não importa o que acontecesse, mesmo que ela chutasse você para fora da vida dela. Porque você vale a pena.

Aí você pensa: ah, mas esse filme deve ser bom mesmo para fazer pensar tanto. O filme é bonzinho, para quem gosta do estilo (tem no Netflix, caso se interessem), mas acho que só estou num momento em que não está sendo difícil me fazer pensar sobre a vida, o universo e tudo mais. Coisas que você não pensa muito, quando está distraído com o seu próprio umbigo. E antes que digam "é só um filme", ele foi baseado num livro e numa história real.

Ainda tem a frase abaixo para fazer pensar; mas esse seria outro assunto, que prefiro falar depois, senão o post vai ficar imenso.

"My theory is that, these moments of impact, these flashes of high intensity that completely turn our lives upside down actually end up defining who we are." The vow

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Risos: Equal Rites

O título do livro em português é "Direitos iguais, rituais iguais", mas convenhamos que o título em inglês é muito mais legal; sem escancarar o trocadilho assim, de graça. Equal rites é o terceiro livro da série fantástica Discworld, de Terry Pratchett, autor de vários livros dessa mesma série (que já vai pra mais de 20, alguns sem tradução ainda para português), além de um livro genial em parceria com Neil Gaiman, o Belas Maldições.

Apesar de gostar bastante dos livros de Pratchett, sempre achei que ele enrolava demais descrevendo coisas engraçadas do mundo, criativas, mas sem muita importância, e deixava os livros arrastados. Os dois primeiros Discworld são, para mim, um exemplo de como alguém pode escrever tanto em cima de quase nenhuma história. Quando comecei a ler este terceiro e percebi que os personagens não eram os mesmos, já fiquei mais feliz. 

A história é sobre Esk, uma menina de 9 anos que herdou o bastão de um mago. O problema é que nunca houve na história do Discworld uma maga mulher. Havia bruxas, mas nenhuma maga. Apesar disso, a magia — que neste mundo é quase um ser vivo muito perigoso, algo meio radioativo, que não consegue ficar muito tempo contido num só corpo — começa a agir tão estranhamente em volta de Esk que a tutora dela, que queria fazer dela uma bruxa e tem muito preconceito contra magos, resolve levá-la para estudar na Universidade Invisível, onde ela se tornaria uma maga. Isso é, se ela fosse aceita.

Diferente dos outros dois livros, achei Equal Rites detalhado na medida certa, sem ser chato em nenhum momento, com um ritmo aceitável para um livro de fantasia e a ironia e criatividade características de Terry Pratchett. A personagem de Esk é muito interessante, mas queria dar ênfase à personagem da Vovó Cera do Tempo, a tutora dela, que se saía várias vezes com frases de sabedoria muito boas. Além do bastão de Esk, que tem a personalidade tempestuosa e perigosa parecida com a do baú, dos primeiros livros, e terminou sendo meu 'personagem' preferido.

O livro inteiro é bastante sarcástico, engraçado, sem ser bobo, assim como todas as coisas escritas por Pratchett. Por algum feliz motivo, ele foi comedido em falar sobre coisas de fora da história, mantendo-se firme no propósito de terminá-la sem sair muito da linha. Só foi ruim que eu perdi o timing do desafio e só consegui resenhar agora, mas era para o desafio de agosto. Enfim, antes tarde do que nunca.

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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog da Tadsh. O tema de Agosto é "Risos": ler e resenhar um livro que me faça rir. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.

domingo, 31 de agosto de 2014

BlogDay 2014


E neste dia 31 de Agosto, celebramos um dia muito especial para aqueles que cultivam blogs: O Blog Day! Já participei algumas vezes, quando blogs simples e desinteressados ainda caminhavam pela terra, sempre brilhantes demais, com gifs animados e backgrounds extravagantes. Na época em que todo mundo tinha um pouco mais de tempo para ficar navegando, comentando e fazendo amizade pela madrugada. Hoje em dia, confesso que tinha perdido um pouco o ânimo de procurar blogs interessantes, porque parece que todo mundo só quer se promover. Enfim, fim da ~oh, que saudade da aurora da minha vida~.

O Blog Day voltou, trazido de volta pelo pessoal do Rotaroots e estou animadíssima para divulgar a minha listinha de blogs legais; os antigos que seguiram em frente e os que eu ando lendo, ultimamente. Este post parece que vai ser bem grande, porque são muitos blogs para serem listados e comentados.

5 blogs que não saem do meu feed:
Primeiro, aqui vão alguns blogs que conheço faz algum tempo e que não deixo de seguir; leio cada palavra, com frequência e faço questão de não perder nada. Blogs que já estão no meu coração e já fazem parte da minha vida.

Conheci o blog da Tati quando procurava inspiração para escrever. Ela não sabe, mas terminou me inspirando bastante a parar de só escrever histórias e escrever um pouco coisas mais pessoais. Tem funcionado bem, agora; mas foi uma época criativa bem difícil. Fora que ela também criou o Desafio do Tigre, que tem sido quase um companheiro para mim, neste ano que já passa da metade. Inclusive me fazendo ser vítima de bullying quando vou a livrarias e o vendedor me aborda, perguntando se eu estou procurando algo específico e eu respondo "só estou procurando um livro com a capa bonita". Foi por causa do blog dela que conheci o Rotaroots.

Ambos os blogs são do Rob Gordon, autor que venho acompanhando há bastante tempo, antes mesmo de ele começar a publicar livros (Anônimos e Urbanos e 24 horas, 48 crônicas) e comic books (Terapia). O Champ Vinyl foi o que conheci antes, onde ele escreve histórias engraçadas sobre coisas que acontecem com ele (com um 'leve' exagero); sobre uma ida ao Pão de Açúcar, uma caixa de Toddynho esquecida no fundo do armário, ou sobre o cachorro fofo dele, apelidado carinhosamente de Besta-Fera. O Champ Chronicles surgiu depois, com o objetivo de escrever contos e crônicas mais sérias, fictícias, mas cotidianas. Histórias ambientadas na cidade grande, com personagens humanos e bem reais. Adoro os dois blogs. Não conseguiria deixar nenhum dos dois de fora desta lista.

O blog da Andréia Pires, grande escritora de quem sou uma grande fã. Ela normalmente escreve contos, mas este blog é mais pessoal. Ela teve outros blogs, nos quais publicava contos, mas acho que não mantém nenhum no momento. São meus preferidos. Mas nem por isso a deixaria fora desta lista, porque qualquer coisa que ela escreva é linda. Andréia publicou bastante coisa, mas acho que, de livros, foram só dois: De Solas e Asas e Um Ninho no Estranho.

- R.izze.nhas
Um blog de resenhas de livros. Houve um tempo em que eu tinha um certo preconceito com blogs de resenhas de livros, talvez porque só conseguisse encontrar blogs falando de livros que não tinham nada a ver comigo, com resenhas um pouco vazias, pro meu gosto. Até que encontrei o blog da Taize, que anda um pouco parado, esses dias, provavelmente por algum motivo pessoal. Mas as resenhas dela são ótimas, os livros que ela escolhe quase sempre vão para a minha wishlist e, além de tudo, me abriu a porta para gostar de blogs de resenhas (e tornar o meu um também).

- Acepipes Escritos
Com textos leves e belos, o Bruno escreve sobre o cotidiano, sobre ser pai, sobre ser marido, sobre ser humano. E contos fictícios. Faz muito tempo que acompanho o blog, apesar de estar um pouco paradinho, provavelmente porque o Bruno foi pai recentemente e não deve estar com muito tempo pra nada. Mas recomendo de coração os textos dele. Uma viagem ao mundo das palavras que fazem sorrir. Um dos melhores blogs que já encontrei na vida.

2 blogs que eu conheci no Rotaroots:
Eu seeeei que era pra listar cinco blogs, mas eu estou há pouco tempo no Rotaroots e não tive muitas oportunidades para conhecer o pessoal, então serão só dois blogs:

- Que momento!
Blog do Antônio, em que ele conta histórias engraçadas, com muitas expressões gaúchas e muito bom humor.

- Palavras e Silêncio
Blog da Fernanda, um blog recheado de textos em prosa poética, textos reais, fictícios, lindos, lindos.

5 blogs para sair da rotina:
Tenho vários blogs que sigo com assuntos diferentes do meu. Principalmente os de culinária. Como não vou sair listando duzentos blogs de assuntos aleatórios, preferi listar um sobre de cada assunto, mais especificamente aqueles de que mais gosto sobre cada assunto.

- La Cucinetta
Conheci este blog quando estava procurando receitas de pão. Só que além de receitas, Ana Elisa também escreve textos engraçados e filosóficos sobre a vida, o cotidiano e tudo mais: divagações e comida. E muuuitas receitas de pão.

- Casos e Coisas da Bonfa
Um blog sobre várias coisas, desde decoração de festa, comidinhas, petiscos, drinks, design, viagens. A Bonfa é designer e trabalha com identidade visual para marcas, que ela sempre mostra no blog. Mas o que me chama mais a atenção são os temas que ela cria para festinhas; parte gráfica, decorações interessantes e maneiras diferentes de servir petiscos, que me serve muito de inspiração, quando quero receber amigos em casa. Ela também mostra as viagens que ela faz pelo mundo com fotos lindas.

- Dos passos da bailarina
Desde que eu voltei a ser bailarina, procurei sites e blogs para me informar e me inspirar. O blog da Cássia traz variações, ballets de repertório, bailarinas famosas, textos inspiradores e tudo para quem gosta e quem quer aprender cada vez mais sobre ballet.

- A Casa que a minha Vó queria
Um blog sobre decoração e sobre um casal que faz a própria decoração. Como eu adoro ficar babando em decoração, mesmo não trabalhando em nada a ver com isso, eu adoro visitar o blog e dar uma olhada nas coisas novas. O blog mostra como eles fizeram o quarto dos filhos, o quarto deles, todo o trabalho de marcenaria, tudo em casa, tudo por eles mesmos. Adoro.

- Luyse
Os desenhos da Luyse. Amo todos.

*Essa postagem faz parte da postagem especial do mês de Agosto "BlogDay 2014" do Rotaroots, um grupo de blogueiros que pretende resgatar os bons tempos do mundo dos blogs. Faça parte do grupo do Facebook e se inscreva no Rotation.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Para dois

Chamou-a para sair e ela quase pulou de alegria, já começando a escolher as roupas que usaria, os sapatos, a maquiagem... Sairiam só os dois, sem ninguém mais; nenhum amigo em comum, nenhuma distração. Estava se sentindo como uma adolescente outra vez, saindo com uma pessoa de que gostava pela primeira vez. Com aquele friozinho na entrada do estômago, aquela comichãozinha gostosa na garganta.

Namoravam há anos. Mas esses momentos começaram a ser raros; esses momentos de sair e conversar só os dois, tomar uma cerveja e ficar contando somente com a companhia um do outro para tirar alguma diversão da noite. Tinha dias em que estavam só os dois em casa, mas mal conversavam; ficava cada um num canto, lendo ou jogando, sem conversar. Ou fazendo sexo, que eram os únicos momentos de intimidade. Não que estivesse reclamando; gostava desses dias. Eram momentos naturais, de paz e cumplicidade. Mas ela queria aquele olhar só pra ela de novo, um momento dele só para ela, para variar.

Ele chegou, a beijou, ela sorriu. Estava tudo perfeito. Entraram no bar, escolheram a mesa, se sentaram longe do som, num lugar mais vazio, para conversarem melhor. Ela estava ansiosa, mas feliz. Pediram uma cerveja pros dois e começaram a brincar com alguma coisa engraçada que tinha acontecido. Era besteira estar ansiosa, afinal estavam juntos há tanto tempo e davam tão certo. Foi quando um casal conhecido passou por perto, por entre as mesas, e os reconheceu. Cumprimentaram-se com animação, fazia anos que não se viam e por isso, claro, ele os convidou para sentar e colocar as novidades em dia. Ficaram até bem tarde bebendo, conversando e rindo.

No final, foi uma noite agradável, como ela imaginava. Ela gostava daqueles amigos.

Mas... de onde vinha aquele vazio?

"Until you think you have the time
to spend an evening with me"

Imagem: Flickr - Creative Commons

sábado, 2 de agosto de 2014

A quarta parede* - Neil Gaiman

Quando ouvi dizer que o Muro de Berlim caíra, minha primeira reação foi de alívio; mas então pensei: e se existisse uma jovem que passou anos — metade da sua vida — pintando naquele muro?

Pintando uma mensagem, ou uma imagem.

Se todas as manhãs ela se levantasse bem cedo, fosse até lá e pintasse um ou dois traços no muro. Todos os dias, na chuva, no frio, às vezes até no escuro. Era seu grito contra a opressão. Seu protesto contra o muro.

Ela estava quase terminando quando tudo foi demolido.

As pessoas poderiam ir e vir livremente. O muro contra o qual ela protestava não existia mais, assim como sua criação, desfeita em pedaços, vendida a um colecionador particular...

Tento imaginar como ela se sentiu. Espero que não tenha ficado desanimada.

Eu teria ficado.



*Trecho do livro Sinal e Ruído, de Neil Gaiman.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Esportes: Quadribol através dos séculos

Eu tinha uns 12 anos quando comecei a ler a série Harry Potter. Ainda não era modinha aqui no Brasil, ainda nem estavam gravando os filmes; embora já fosse famoso lá fora. Eu não era leitora de fantasia; achava que ia ser uma babaquice essa coisa de bruxinhos 'do bem' indo à escola e combatendo o mal. Eu lia infanto-juvenis, livros de Pedro Bandeira e os da coleção Vaga-Lume, mas nunca tinha enveredado pelas terras da fantasia. Terminou que devorei os três primeiros livros, os únicos lançados até então, e acabei com meu preconceito com fantasia.

No Desafio deste mês, acabo com outro preconceito: o dos spinoffs da série Harry Potter. Talvez nem tenha sido preconceito; o fato é que nunca antes tive interesse por eles. Então, como o desafio do mês é sobre esportes e o único "esporte" pelo qual me interessei a vida inteira foi o ballet (e eu não encontrei nenhum livro interessante, não-técnico, para ler), acabei tendo a ideia de 'ver qual era' a do livro sobre Quadribol.

Para quem nunca leu a série, Quadribol é o esporte mais famoso entre os bruxos do mundo inteiro e é muito jogado em Hogwarts, a escola de bruxaria em que Harry e os amigos estudam. Como o diretor da escola, Alvo Dumbledore, diz no prefácio do livro, o livro Quadribol através dos séculos que encontramos nas livrarias é uma cópia do exemplar original pertencente à biblioteca de Hogwarts, cedido muito a contragosto pela bibliotecária, e vendido pelo mundo para que nós, os "trouxas", possamos ler. Ainda acho que a minha cartinha de admissão não chegou porque todas foram para Harry, no ano em que ele entrou em Hogwarts.

O livro começa falando das vassouras e dos vários esportes jogados em cima de vassouras. Então, com muito bom humor, explica como se deu o surgimento do Quadribol e de cada uma das suas quatro bolas. Explica também as regras e as faltas mais comuns no jogo, uma vez que todas as faltas não poderiam ser divulgadas para "não dar ideias". Depois de falar bastante sobre o jogo, o autor começa a falar dos times do Reino Unido e depois da disseminação do esporte pelo mundo. Fiquei curiosa sobre o que seria dito sobre o Brasil, obviamente, e fiquei rindo quando li que o Brasil chegou às quartas de final na Copa Mundial. Só acho que não perdeu de 7 x 1.

O livro é bem curto, leve e engraçado. J. K. Rowling, sob o pseudônimo de Kennilworthy Whisp, sabe lidar com a narrativa e as esquisitices bruxas de uma maneira natural, já vista nos outros livros da série, e inventa fatos engraçados e exagerados na medida certa, sem cansar demais. Para mim, ela nunca deveria ter escrito outra coisa a não ser fantasia. Sim, eu li os outros livros "para adulto" dela e achei bem ruins, apesar de ela aparentemente estar apostando bastante no detetive Cormoran Strike, do Chamado do Cuco. Acho que ela escreve bem para adultos (oi, eu sou adulta), quando escreve para crianças. Harry Potter é uma série que qualquer um que goste de ler poderia aproveitar bem, sem achar besta demais. Claro, ela tem todo o direito de escrever os livros de adulto que ela quiser. Eu só não gostei. Achei besta demais. Ops.

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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog Elvis Costello Gritou Meu Nome. O tema de Julho é "Esportes & Esportistas": ler e resenhar um livro que diga respeito a algum esporte. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Imortal

"João foi um pobre como nós, meu filho, e teve que suportar as maiores dificuldades numa terra seca e pobre como a nossa. Pelejou pela vida desde menino, passou sem sentir pela infância, acostumou-se a pouco pão e muito suor. Na seca, comia macambeira, bebia o suco do xique-xique, passava fome.

E, quando não podia mais, rezava. E quando a reza não dava jeito, ia se juntar a um grupo de retirantes que ia tentar sobreviver no litoral. Humilhado. Derrotado. Cheio de saudade.

E logo que tinha notícias da chuva, pegava o caminho de volta, animava-se de novo, como se a esperança fosse uma planta que crescesse na chuva. E quando revia sua terra dava graças a Deus por ser um sertanejo pobre, mas corajoso e cheio de fé."


Ariano Suassuna: imortal como Pernambuco, a terra que ele chamou de sua.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Fato aleatório sobre mim #1

Eu amo hambúrguer e batata frita

Numa conversa com uma amiga, no meu consultório:
— Ontem, eu ia sair. Um amigo me ligou e chamou para ir ali comer um hambúrguer com batata frita.
— Você não foi?
— Não, eu estava me sentindo mole, com dor de dente.
— Mas era hambúrguer com batata frita! Eu iria para qualquer canto por um hambúrguer com batata frita.


Mesma conversa, pouco depois:
— Encho tanto teu saco com esses dentes, né?
— Que nada. E isso que eu te passei vai resolver.
— Se resolver, sei nem o que eu faço.
— Me paga um hambúrguer com batata frita.

Imagem: Flickr - Creative Commons

terça-feira, 15 de julho de 2014

Momentos e música

Uma vez, alguém me disse: "não associe uma música a alguém" e eu sempre soube que essa pessoa tinha razão. Mas é difícil; a gente termina associando tudo nessa vida e eu sou dessas que associa tudo a música. Então basicamente esse é um desafio que eu nunca cumpri. E esse é um dos motivos pelos quais eu choro por tudo, por nada. Esse e o fato de eu ser mole mesmo. O problema é que, por já ter nela meio intrínseco esse componente emocional, a música meio que preenche as lacunas de sentimento que falta na vida. Aí a gente traz para junto, para dentro, para a vida. Associa. Perde e chora.

Uma vez, aconteceu de eu gostar muito de uma pessoa que me emprestou um CD. Só que a pessoa não gostava tanto assim de mim e isso foi bem ruim. Foi embora, mas as músicas do CD ficaram. Passei muito tempo para conseguir dissociá-las da pessoa, ainda mais porque elas só falavam em sentimentos fortes, amor e perda. Consegui, enfim, desligar as músicas da pessoa, mas elas ficaram irrevogavelmente ligadas àquele momento.

Hoje, eu sinto um grande carinho pelas músicas. Hoje, elas não machucam. Acho que ligar música a momentos faz essa coisa de associar música a pessoas daquele momento ser mais suportável. Momentos criam saudades saudáveis, fazem parte da nossa vida e, mesmo que doa, a dor ameniza e a lembrança fica. A música fica e adquire um sabor melancólico. A música fica com o momento e permanece. E os momentos são nossos. As pessoas, elas nunca são de ninguém.

"And the songbirds are singing
like they know the score"


Imagem: Flickr - Creative Commons
Música: Songbird

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Autores Queridos: The Absolute Sandman

Quando soube que o tema do Desafio para o mês de junho, mês de aniversário, era “autores queridos”, fiquei animada, afinal seria o mês de saborear e resenhar sobre algum autor que eu amo. Só que começou junho, eu fiquei sem conseguir me decidir sobre qual autor seria, fiquei deixando para depois e acabou que, na última semana de junho, ainda não tinha começado nada. Claro que pensava em ler outros livros, fora o do desafio, mas a única coisa que eu li o mês inteiro foram coisas do trabalho e alguns capítulos do segundo volume de Game of Thrones. Só posso explicar essa ausência literária como sendo um bloqueio mesmo. Mas enfim...

O que me fez sair dessa inércia foi Gaiman. Eu tenho vários autores queridos, mas o problema é que não estava com nenhuma vontade de ler nenhum deles. Aí me lembrei de um certo “livro” que ganhei no meu aniversário do ano passado; que eu já comecei uma vez, quando peguei emprestado de um amigo, mas o meu mesmo nunca tinha aberto direito, que não fosse só para admirar. Não é bem um livro, é uma série de histórias em quadrinhos. Sandman.


A primeira coisa que eu li de Neil Gaiman, foi o primeiro volume de Sandman. Mas não continuei os outros, porque eu não tinha (este volume aqui, The Absolute Sandman vol 1, tem os três primeiros volumes das edições antigas, se não me engano). E desde aquela época, eu já tinha percebido o quanto eu iria amar um livro normal escrito por Gaiman. Depois disso, eu saí procurando e confirmei essa suspeita.

Sandman é Sonho, ou Morpheus, um dos Perpétuos, as entidades mais poderosas no universo do livro. Os outros Perpétuos são Morte, Destino, Desejo, Destruição, Desespero e Delírio; em inglês, todos começam com a letra D. Todos têm um reino ou domínio e exercem uma função, que lhes toma a maior parte do tempo. Sandman controla o reino dos sonhos, regulando-os e vigiando-os. Quando um perpétuo não exerce sua função, os aspectos daquela existência se tornam aleatórios, sem uma entidade para regular. É o que ocorre no início da história, quando Sonho é capturado.

Como não quero dar mais spoilers que este, porque Sandman é uma das melhores criações de Gaiman e eu recomendo fortemente que, se houver alguém que não conhece, que procure conhecer (se não for uma daquelas pessoas que só lêem livros sérios); então vou apenas dar minhas impressões.

Achei muito bom ter voltado a ler Sandman, depois desse tempo todo só lendo histórias escritas de Gaiman. Quem já leu alguma história sabe que as coisas que Gaiman escreve são meio difíceis de serem imaginadas, porque ele mistura imagens com cheiros e formas impossíveis de serem associadas para descrever uma coisa e é bem interessante ver essas formas desenhadas ali para serem compreendidas. Além disso, como ele não escreveu mais nenhuma série fora Sandman (mentira, ele escreveu Os Livros da Magia e outras que eu ainda não consegui encontrar para ler, mas... garimpando e sempre), os livros acabam sendo curtos demais para o que se propõem, para explicar todo um universo diferente e estranho, criado no meio do mundo que já conhecemos. Exceto Deuses Americanos, que acho que foi explorado demais, num livro longo demais, desnecessariamente.

Sandman é aquele universo que nunca é explorado demais, tanto que existem vários spinoffs e livros de outros autores baseados na série. Gaiman é um dos meus autores queridos, que me deixam feliz e com vontade de guardar pra depois, quando encontro alguma coisa que ainda não li. Foi o caso com The Absolute Sandman. Sorte que ainda existem mais dois volumes e vááários spinoffs. E espero que nunca acabem.

"What power would Hell have if those here imprisioned were not able to dream of Heaven?"

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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog Elvis Costello Gritou Meu Nome. O tema de Junho é "Autores Queridos": ler e resenhar um livro de algum autor que você adore. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O que ajuda

Me acalmo fazendo planos, fazendo listas. Quando nada dá certo e eu perco a linha de raciocínio, o fio do emaranhado da vida, faço planos para sobreviver. Para recuperar o controle e manter a sanidade. Nunca consegui ser 'vida loca', deixar-me ir, carpe diem, colher o dia. Sou o tipo de pessoa certinha que faz listas, que vai cumprindo pequenas tarefas e anotando na agenda, para poder me sentir inteira outra vez.

Precisava fazer uma lista hoje, mas está tudo tão desorganizado na minha cabeça que não sei nem como começar. Isso assusta; isso de não ter mais planos nem ideias. Talvez precise de uma organização mais profunda, uma que não consigo mais fazer sozinha. Mas escrever, mesmo que não uma lista, já ajuda um pouco.

Conversar também ajudaria, mas estou com o orgulho ferido, a auto-estima baixa e sem nenhuma vontade de ouvir conselhos que não quero ouvir. Sabe quando você só quer só ouvir coisas agradáveis? Queria não precisar de ninguém. Queria não ver, ouvir ou sentir a preocupação de ninguém. Queria, além de tudo, que tudo ficasse bem. Logo.

Escrever ajuda. Mas até escrever está cada dia mais difícil. Faz sentido? Faz meses que não faço sentido nenhum.

"Into the flood again
Same old trip it was back then"
Imagem: GettyImages
Música: Would?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

As séries a que eu estou assistindo

Vi esse meme no blog da Tati, a mesma do Desafio do Tigre. Ela não me convidou para participar, mas, sei lá, tô fazendo nada e resolvi escrever sobre as minhas séries também. E olha que nem estou acompanhando assim acompanhadinho essas séries, mas vá lá.

Houve um tempo em que eu gravava umas dez séries de uma vez na TV a cabo e toda noite estava lá colocando os episódios em dia. O tempo passou, muitas dessas séries acabaram, algumas ficaram chatas, outras seguiram para um lado e eu pro outro. Aqui vou listar apenas aquelas que estou vendo e as que criaram raízes no meu coração:

How I Met Your Mother

Ainda não comecei a ver a 9ª (e última) temporada, então me deixa. Amo de paixão essa série. O pessoal quer sempre comparar com Friends, dizendo que Friends é melhor, mas eu não consigo achar. Eu gosto de Friends, mas nunca me apaixonei pela série. Talvez seja um enredo, que HIMYM meio que tem e Friends não. Ou a continuidade, que HIMYM tem e Friends não; não tem fios soltos e eles pegam aquela deixa que ficou num episódio da 1ª temporada e usam na 5ª. Acho fantástico. Sem falar nos personagens, que eu adoro. Menos Ted. Ted não tem graça nenhuma.


Once Upon a Time

Eu sempre penso que vou parar de ver essa bendita, mas sempre surge algum personagem de conto de fadas novo que me deixa querendo ver o que vão fazer com ele. Mas a história mesmo, para mim, já deixou de ser interessante desde que acabou a 1ª temporada.


Breaking Bad

Estava vendo no Netflix e dei uma parada na 3ª temporada por falta de tempo para ver. E também porque meu namorado cancelou o Netflix e eu via na casa dele. Mas não considero que parei de ver, apenas que "estou guardando pra mais tarde", do mesmo jeito que a 9ª de HIMYM.


Top Chef

Vale como série? No momento, estou vendo a 10ª temporada, que está passando na Sony. É um reality show em que vários chefs competem, fazendo pratos lindos e deliciosos, para ver quem será o mais novo top chef. Eu gostava de MasterChef também, por causa de Gordon Ramsey, mas sempre achei que, no Top Chef, os chefs são mais profissionais. Normalmente, não gosto de reality shows, mas eu amo este por motivos de: comida. #gorda


Glee

Outra que deixou de ter graça faz tempo, mas eu não consigo parar de ver. Acho que a graça acabou exatamente na mid-season da primeira temporada, depois das Sectionals. Mas eu ainda gostava muito (me julguem, não ligo) e, mesmo alguns episódios sendo quase insuportáveis (aquele de Justin Bieber, oi?), sempre apareciam alguns que faziam valer o tempo perdido. Depois que acabou a 3ª temporada e um monte de gente se formou, entrando gente nova, ficou bem chato, mas acabou de acabar tudo depois que o ator Cory Monteith morreu e a história ficou sem rumo. Tão sem rumo que a série está para ser cancelada.


Game of Thrones

Comecei a ver, estou no início da primeira temporada, sem muito o que dizer. Li o primeiro livro da série e, como já falei na resenha, não achei nada de mais. Mas aí comecei a ver a série e estou tentando, realmente tentando, ver o que danado essa série tem que todo mundo ama.


Sherlock

Ninguém acompanha mesmo Sherlock, porque cada temporada só tem três episódios, de 1h30 cada, então acaba antes que a gente consiga manter o ritmo. Mas eu adoro. E Benedict Cumberbatch é, sem dúvida, o melhor Sherlock Holmes do mundo.

Tirando aquelas séries que eu sempre vejo de passagem, que não tem muito enredo pra seguir: Friends, Two and a Half Man (que só prestava com Charlie), Criminal Minds e House. E vocês, que séries estão assistindo?

terça-feira, 3 de junho de 2014

E se...?

Pela primeira vez na vida, penso se fiz a escolha certa. Aquela de anos atrás, aquela que implica todo o meu futuro. Eu fiz a escolha, batalhei por ela, sofri por ela, deixei de dormir por ela, gastei anos para torná-la realidade. Então, depois de construir todo o meu futuro em cima dela, ela me falha e me deixa essa dúvida. E se...?

E se eu tivesse pensado nas minhas opções antes de escolher? Sempre que lembro de ter tomado a decisão, não lembro de realmente ter pensado sobre ela. Acho que foi só aquela coisa certa na minha vida, que eu já sabia o que faria. Eu sempre soube o que faria. Devia ter uns doze anos quando afirmei isso numa aula de inglês, sem pensar muito. Eu realmente nunca nem considerei outra opção. Agora penso no que teria acontecido se tivesse considerado. Talvez não tivesse mudado nada. Mas talvez...

Talvez hoje eu estivesse fazendo outra coisa, em outro lugar, com outra vida. Talvez tivesse ido mais longe do que estou hoje e estivesse contando uma história diferente. Ou talvez não haja uma escolha certa e eu esteja apenas me torturando, pensando sobre isso e não chegando a conclusão nenhuma.

"If I had to do the same again, I would, my friend..."
Would I?

Imagem: GettyImages
Música: Fernando

domingo, 18 de maio de 2014

Top 5 amores platônicos famosos

"Meme de maio dos Rotaroots: "5 amores platônicos famosos". Quem nunca se apaixonou por alguém que jamais será correspondido, não é mesmo? O tema de hoje são famosos que você se apaixonou ou poderia se apaixonar, ou que você tem um crush/carinho especial. Pode ser famosos reais ou personagens."

Todo mundo teve um amor platônico na infância; aquele menino ou menina que você sempre admirou por algum motivo e a quem você nunca teve coragem de se declarar. Ou vontade realmente; na minha visão, amor platônico de verdade é aquela paixãozinha que você gosta de sentir só por sentir e, que se for declarada, deixa de ser aquele sentimento único para ser outro. Amor platônico é a admiração, um sentimento de mão única, de si para si, sem as complicações do "ser correspondido".

Ao longo da minha vida, tive alguns amores platônicos "ao vivo" e vários "famosos", daqueles que você cola pôsteres pelo quarto, ou que fica admirando naquela série que você não perde nunca. Depois de abandonar vários e pegar abuso de alguns, os amores mudaram e os valores também. Se antes eu gostava de alguém só por ser bonito, hoje dou mais valor a coisas como, sei lá, senso de humor. Depois de dar uma olhada na minha vida, fiz a minha lista de amores platônicos famosos atuais, num Top 5:

5. Johnny Depp

Meu ator preferido desde que fez Don Juan de Marco, mas conseguiu seu posto de amor platônico depois de Jack Sparrow, o pirata alcoólatra e cheio de trejeitos de Piratas no Caribe. Ele não é liiindo (já foi), pelo menos eu não acho, mas ele tem alguma coisa. Fico rindo quando vejo ele sentado na plateia, na cerimônia do Oscar, todo entediado, infelizmente nunca tendo ganhado nada. Fora que ele tem uma banda, que eu não curto muito, mas, né... #MariaPalheta



4. Michael Moscovitz

OK, esse é um amor mais antigo, da época em que era romântica e comecei a ler o Diário da Princesa, pelo menos uns 10 anos atrás. Mesmo porque, hoje em dia, acho a autora bem fraquinha. Acontece que, depois de aaanos sem pegar nenhum chick-lit para ler, terminei encontrando as duas últimas edições do Diário e comprei. E me lembrei do quanto eu era apaixonada por Michael Moscovitz, de como ele era super inteligente, engraçado, tinha uma banda e de como ele aguentava as chatices e inseguranças da protagonista chata. Mereceria um troféu, se fosse real. Mas duvido que exista um Michael Moscovitz vagando por aí.


3. Dr. Spencer Reid

Dr. Reid é um personagem da série Criminal Minds. Desde que vi o primeiro episódio que eu adoro o personagem. Ele é um nerd, que acabou o ensino médio aos 12 anos e entrou na universidade aos 13. Tem QI de 187, memória fotográfica e consegue ler 20 mil palavras por minuto. Minha mãe também assiste à série e me chama sempre que está passando algum episódio em que ele se destaca mais. Ele é sempre o responsável pelas cenas mais engraçadas e não porque ele seja engraçado, mas porque, depois de tanto lidar com livros e pesquisas em geral, ele é meio inocente, tipo um Sheldon, de The Big Bang Theory.


2. Paul McCartney

Músico preferido da minha banda preferida. Apenas. Houve um tempo em que eu gostava igualmente de John Lennon, mas acho que isso foi antes de ir ao primeiro show de São Paulo, em 2010. Chorei muito quando ele cantou "The long and winding road", a melhor música do mundo. Mas ele também fez "Golden Slumbers", "Hey Jude" e "Oh, darling".


1. Sirius Black
Imagem: Art Dungeon
O do livro, não o do filme. Apesar de eu gostar bastante de Gary Oldman, acho que ele tem muita cara de Comissário Gordon pro meu gosto (eu seeei que o primeiro Dark Knight foi lançado 4 anos depois). Já deu para ver que sou daquelas fãs velhas e rabugentas, que leu os livros anos atrás e que não se agradou de quase nada nos filmes, apesar de ter visto todos assim que saíram no cinema. Mas olha, depois de alguns anos negando a legitimidade dos filmes, eu até aceitei melhor que são adaptações e me divirto assistindo. O problema com Sirius é que Gary Oldman não conseguiu passar para as telas o bad boy Sirius; a rebeldia, o sarcasmo e a diversão que eu li no personagem, quando me apaixonei por ele. Acho que foi a única escolha do elenco que ainda não aceitei totalmente, talvez por amar demais a imagem que eu criei na minha cabeça.


Essa foi a lista que consegui fazer agora, anos depois de abrir mão de todos os amores platônicos "ao vivo" por um real de verdade, e agora quase voltando à adolescência para guardar os amores famosos atuais e os que nunca se foram. Tenho quase certeza de que vou me arrepender de ter esquecido alguém muito importante, mais tarde. (Update: Benedict Cumberbatch, COMO ASSIM ESQUECI DO MELHOR SHERLOCK HOLMES DO MUNDO?? Ah, deixa pra lá.)


Essa postagem faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots, um grupo de blogueiros que pretende resgatar os bons tempos do mundo dos blogs. Faça parte do grupo do Facebook e se inscreva no Rotation.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Bichos: Até Mais, e obrigado pelos peixes!

Para o desafio deste mês, cujo tema é “Bichos”, decidi ler “Até mais, e obrigado pelos peixes!”, 4º livro da série do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Escolhi este livro porque já tinha lido os três primeiros e pretendia terminar a série. Disse pretendia porque não sei se pretendo mais. Os dois primeiros livros foram, para mim, meio que amor à primeira página; mas não posso dizer o mesmo do terceiro e do quarto.

O livro conta o retorno de Arthur à Terra, que, ninguém sabe como, voltou ao seu lugar e ao momento de onde tinha parado, quando foi destruída pelos Vogons. Então, o livro inteiro se passa na Terra, contando como o personagem mais chato da série — que por um infeliz acaso vem a ser o protagonista — volta à sua casa, depois de oito anos no espaço. É claro que Arthur foi criado para ser um personagem certinho, britânico, chato e, por isso mesmo, ser engraçado o fato de justamente ele ter sobrevivido à destruição da Terra e ter ido parar no espaço. Só que não é nada engraçado, nem mesmo interessante, quando ele volta pra casa e tenta recomeçar a vida normal, por menos normal que ela seja agora.

O terceiro livro já é chato o bastante, mas pelo menos se passa no espaço e tem aquelas curiosidades sobre o universo que Douglas Adams inventava, o que torna o livro suportável. Neste 4º livro, quase não existem essas curiosidades, só uns poucos verbetes do Guia do Mochileiro, a dúvida sobre o que aconteceu com a Terra, que voltou, e uma história romântica. Fora que não aparecem mais os outros personagens: Zaphod Beeblebrox, nem Trillian; Ford Prefect aparece pouco e Marvin, o melhor personagem, aparece em UMA cena. Talvez a cena que faz o livro valer um pouco a pena.

Não sei, acho que o livro era mesmo para ser assim, diferente dos outros, mas confesso que eu não gostei. Pareceu-me que a criatividade acabou, que não houve mais o que explorar naquele universo. Talvez, um dia, eu leia o 5º — e último, pelo menos dos escritos por Douglas Adams, porque fiquei sabendo que Eoin Colfer, autor da série Artemis Fowl, escreveu um 6º: “E tem outra coisa”. Nada contra outros autores darem continuidade a séries famosas, mas eu li o primeiro volume de Artemis Fowl, muitos anos atrás, e odiei. Nunca entendi como a série está por aí, fazendo o maior sucesso.

No mais, foi muito triste não ter gostado do livro, porque gosto muito da ideia toda da série e sou fã de Douglas Adams. Mas valeu para cumprir o desafio.

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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog Elvis Costello Gritou Meu Nome. O tema de Maio é "Bichos": ler e resenhar um livro que tenha algum bicho no título. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.

sábado, 3 de maio de 2014

Anos 80

A certeza de que a vida era mais bonita lá pelos anos 80, em que as coisas eram fáceis. Em que o futuro era incerto, mas promissor. Não há mais futuro promissor. Talvez ele nem seja tão ruim, só não pode-se chamar de promissor, porque faz tempo que ele não promete nada. Pelo menos, não foi tão cruel quanto o futuro dos anos 80, que prometeu demais e não cumpriu. Mas que era mais bonito, isso era. Saudade dos anos 80, em que eu era mais facilmente ludibriada.

"I said I wasn't gonna lose my head
But then - POP - goes my heart"

Imagem: GettyImages
Música: Pop!

terça-feira, 15 de abril de 2014

Hype do Momento: A Guerra dos Tronos

Para este desafio de abril, o objetivo era pegar um bestseller, ler e resenhar. Escolhi A Guerra dos Tronos, o primeiro volume da tão idolatrada série de George R. R. Martin, As Crônicas de Gelo e Fogo, mais conhecida como Game of Thrones, título da série de TV. Quando vi o tema deste mês, decidi logo que leria este livro, que era minha chance, de uma vez por todas.

Fazia tempo que eu queria ler, mas tinha começado três vezes o primeiro livro e sempre achava chato. E via tanta gente falando e achando o máximo que comecei a achar que o problema era eu. Aí me forcei a ler; já que, até pra criticar, é bom a gente saber do que está falando. Acabou que o problema mesmo era passar do capítulo chatíssimo em que Daenerys é apresentada a Khal Drogo, pra poder engatar a história. Fica bem melhor depois que começam as intrigas e as guerras. A propósito, podem me apedrejar, mas achei Daenerys uma das personagens com histórias mais chatas. Juntamente com Bran, talvez. Mas acho que a história dela deve melhorar nos próximos.

O livro, não achei essas coisas todas; só uma história agradável de ler, nada que exija demais da pessoa (a não ser tempo e paciência, porque, ô série longa dos infernos!); uma boa história, bem crua, sem meios termos, bem completa. Os personagens são mais complexos e bem construídos que em quaisquer outras séries épicas, que geralmente dão mais atenção à história que à construção de personagens. A narração, por sua vez, é demasiadamente descritiva e meticulosa; há momentos em que você perde a paciência, joga o livro pro lado e vai fazer outra coisa. Não tem pontas soltas, mas também não tem pontas amarradas; talvez porque não há muito o que amarrar, sei lá. Dá a impressão de que o autor vai narrando, escrevendo, em cima de um roteiro mais ou menos certo, e pensa "ah, vou matar fulano agora". Na minha humilde opinião de quem só leu o primeiro livro, achei muitos acontecimentos desnecessários e só uma ou duas vezes senti fecharem ciclos de verdade. Talvez não fechem por não ser intenção do autor fechar nada; não ser intenção deixar uma história certinha e bonitinha, para, em vez disso, ser mais realista. Do tipo que você pensa: "nossa, e agora, como fulano vai fazer para sair dali?" e fulano termina não saindo, afinal. Com o tempo, você para de pensar assim e começa a pensar mais: "é agora que ele morre?"

No fim, achei que o livro é um bom começo. Dá vontade de ler os próximos, apesar de eu não sentir aquela excitação que todo mundo sente, não tanto quanto outras séries de livros que eu já li. Enfim, se tem uma coisa que eu sempre soube d'As Crônicas de Gelo e Fogo é que são livros menos fantasiosos e mais inusitados que a maioria das séries épicas. E que a única certeza que a gente tem é de que todo mundo vai acabar morrendo. Se não neste, nos próximos livros.



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Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog Elvis Costello Gritou Meu Nome. O tema de Abril é "Hype do Momento": ler e resenhar um livro que todo mundo esteja lendo, no momento; um bestseller. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.