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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O primeiro passo

Há algo de mórbido em se interessar por uma pessoa porque ela parece triste. Mas eu admito que me aproximei dela porque algo na expressão desamparada e nas lágrimas silenciosas me despertou a irresistível vontade de salvá-la. De ser seu protetor, abraçá-la, arrancar tudo o que se passava de ruim dentro dela e levar um sorriso àquele rosto.

Ela estava num bar, tomando o que parecia ser a sétima dose se tequila. Tequila era uma bebida conhecida por ser tomada em comemorações; quando alguém passava em um concurso, quando se formava na faculdade, quando seu melhor amigo anunciava que ia se casar. Mas eu sabia que ela não devia estar comemorando nada, era meio óbvio. Mesmo assim, por algum motivo, ela virou mais uma dose dos copos enfileirados à sua frente e enfiou um pedaço de limão na boca.

Seu olhar estava perdido nas garrafas da prateleira do bar, à sua frente. Não que ela as observasse; era como se o olhar sem cor passasse através dos rótulos amarelados. Ela estava ali e não estava. Talvez não quisesse estar. Mas eu queria. Queria que ela visse o que passava ao seu redor, queria que ela olhasse e realmente enxergasse alguma coisa. Queria chamá-la de volta à vida. Vida que ela estava perdendo nesses instantes de autopiedade.

Queria que ela me visse.

Não sei como consegui dar o primeiro passo, mas depois dele foi fácil chegar até ela. Aquele primeiro passo foi talvez o mais difícil da minha vida. Mas nunca me arrependi.
Imagem: Flickr - Creative Commons
"Don't you cry tonight"

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Essa é uma postagem do Projeto 642 coisas - 210. Eu não me arrependo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A última nota

Da música nasci e da música morreria.

Foi em um quartinho dos fundos de uma escola de música que eu fui concebido. Meu pai era professor de piano e minha mãe uma das faxineiras do local. Cresci envolvido em música e fiz dela minha vida. Gostava particularmente de Bach, por suas notas mais dramáticas. Suas peças tinham algo de melancólico que me encantavam desde criança. Sempre achei que havia algo de belo na tragédia.

Com onze anos, já era o melhor da minha turma de violino. Com vinte e um, tocava em concertos e em um restaurante chique na parte alta da cidade. Se antes era um prodígio, a vida adulta me fez perceber que eu era só mais um entre tantos, todos vivendo em busca do pagamento no fim do mês. Mas ainda amava o que fazia e isso me trazia algum consolo.

Casei-me, tive filhos, me separei. Meus pais morreram de tuberculose. Comecei a tocar em um navio porque o salário era razoável e a comida era boa. Ao fim de cada viagem, seguia para casa sozinho. Cheguei a um ponto da vida em que ninguém mais esperava por mim no porto, quando atracava. Isso era bom e era ruim, porque não deixava saudades. Todos viviam suas vidas sem mim e sem mim continuariam vivendo.

E, com aquele sentimento agridoce, de não saber se me sentia feliz ou triste, observei o chão inclinar-se e a água começar a invadir os meus sapatos de verniz. Enquanto o navio afundava e eu tocava a minha última peça de Bach, eu só consegui pensar nisso:

Não deixaria saudades.


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Essa é uma postagem do Projeto 642 coisas: 228. A orquestra do Titanic continuou tocando enquanto o navio afundou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Lista de compras


Tomate, cebola, cebolinha, coentro... Detergente, desinfetante, sabão em pó... Não era possível, tinha certeza de que estava esquecendo alguma coisa. Conferi a lista duas vezes, mas ainda não conseguia lembrar o que era. Certamente eu tinha esquecido de anotar alguma coisa. Antigamente, isso não costumava acontecer, mas estava cada dia mais frequente.

Tinha mania de listas. O problema é que, desde que abri o meu restaurante, elas estavam ficando mais longas e minuciosas; era impossível fazê-las sem esquecer alguma coisa. E isso estava me deixando um tanto nervosa. Quem era eu sem as minhas listas? Fernando, meu marido, costumava dizer que eu não era tão ruim quando estava na TPM, mas ele adquirira o hábito de sair de perto de mim quando eu perdia alguma lista. Era como perder o rumo da minha vida. Elas me faziam sentir segura, com a cabeça e todos os pensamentos no lugar. O problema era quando nem as listas eram mais confiáveis.

Passei pelo corredor de enlatados direto para a fila do caixa. Já tinha os ingredientes para fazer molho de tomate, então não precisava comprar enlatados. Pensava em fazer massa artesanal para o menu daquele fim de semana, então já pegara cinco sacos de farinha logo no primeiro corredor. Parei o carrinho na fila, atrás de uma senhora, e praticamente enfiei a cara na lista, pela milésima vez. O menu da semana que vem, no entanto...

Meu pensamento foi interrompido por uma sensação incômoda de estar sendo observada. Virei o rosto e vi um homem apoiado no próprio carrinho, na fila ao lado. Ele olhava fixamente para minha bunda. Senti o sangue subir ao meu rosto e ergui as sobrancelhas para ele, indignada. Ele nem pareceu ter se incomodado, ou mesmo percebido, que eu o flagrara me olhando. Continuou fitando a minha bunda, como se fosse um direito dele desfrutar da visão do meu corpo daquela maneira descarada. Era revoltante, ultrajante. No mesmo momento, me senti um pedaço de carne exposta no açougue. Nojento. Alguns homens eram mesmo uns...

Ah! Carne de porco. Era o que eu estava esquecendo, para o menu da semana que vem. Dei meia volta e saí com meu carrinho em direção à área de carnes do supermercado.

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Esta é uma postagem do projeto "642 coisas sobre as quais escrever" - 268: Esperando na fila do mercado.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Insensível

Longe de sentir o amor que tentei sugerir todo o tempo, senti apenas tédio. Olhei teu rosto, vi tuas lágrimas e não senti nada. Não menti, admiti a verdade: não te amo mais. Não te amava mais há muito tempo. Não pude esconder nada, naquele momento. Acuse-me de tudo, menos de ser insincera. Pudeste ler tudo em meu rosto e, ao perceberes minha expressão indiferente, terminaste indo-te embora. E eu, que não te amo, permaneci ali.

De longe, te vi lamber as feridas e tentar superar a dor. Aquela que tu sentiste e foi ínfima demais para me alcançar. A que surge quando o amor acaba, pondo fim a promessas e expectativas, planos e "felizes para sempre". A causadora da lágrima que cutucou o meu ombro, disse "adeus" e caiu aos meus pés.

Naquela despedida, eu estava distante. Sabia que me amavas e eu te feria. E de onde estava, só queria que tudo acabasse logo e me deixasse só, com meus pensamentos. Não tardou, tive meu desejo satisfeito: fiquei completamente sozinha, eu e meu coração de pedra.

E eu, que não mais te amava, chorei.

"And in her eyes, you see nothing
No sign of love behind the tears cried for no one"
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Essa é uma postagem do tema 251. Seu primeiro término do projeto 642 coisas sobre as quais escrever.

Texto escrito em 2010.