sábado, 7 de novembro de 2009

Um sorriso inesperado

Admito, não tenho exatamente um humor de princesa pela manhã. É um período meio negro do dia, em que sou naturalmente séria e quieta, não muito propensa a risadas de qualquer tipo. Meu irmão diz que é porque meu segundo neurônio ainda não acordou e, sem o outro, um não dá conta de entender as piadas e respirar ao mesmo tempo. Eu digo que manhãs me tiram do sério, principalmente quando faz aquele sol e o disco amarelo em questão já começa o dia me fritando para o café da manhã, com a luz da fresta da janela bem em cima da minha cama. Com ou sem sol, sempre preferi dormir, nesse horário.

Depois vem o trânsito, os motoristas dirigindo cada vez pior; a sauna debaixo do jaleco, gorro, máscara e luvas, mesmo quando o ar condicionado está no máximo; os pacientes reclamando de qualquer besteira... Assim, são poucas as coisas que mudam meu humor sombrio, porém tolerante, da manhã. Uma delas é o sabiá que passa pela janela do meu consultório, enquanto estou atendendo. Mas o bom humor por causa do passarinho não dura tanto quanto esse que ocorreu hoje, causado por um sorriso.

Estava saindo da sala, quando me deparei com uma menina. Não daquelas crianças bagunceiras, que viram o recinto pelo avesso quando chegam; tinha por volta dos três anos e estava sentada quieta no colo do pai. Particularmente, não tenho muito jeito com crianças, ainda mais meninas, apesar de elas curiosamente gostarem de mim, de modo geral. De qualquer maneira, não costumo puxar conversa com elas, a não ser que estejam na minha cadeira de atendimento. Então, eu não disse nada, apenas ia passando.

Foi quando ela sorriu. E eu pensei que nunca tinha visto um sorriso tão verdadeiro quanto aquele, naquele momento. Não sei o que aconteceu, crianças sempre sorriem para mim e eu nunca cheguei a me surpreender com isso. Aliás, minha reação costumeira é de corresponder o sorriso, fazer uma gracinha para elas e depois voltar aos meus afazeres. Isso talvez seja pelo fato de elas nunca sorrirem apenas, mas começarem a falar, perguntar coisas, chamarem para brincar. É o normal; afinal, crianças são hiperativas por natureza.

Mas com ela foi diferente; ela não disse nada, não ficou tagarelando. Apenas sorriu. E coloriu a minha cinzenta manhã de sol.


You’ll find that life is still worthwhile
If you just smile